Não me detenhas

Foto: G.A.

Na capela do Santíssimo da Igreja Matriz do Porto Santo, somos confrontados com o espantoso anúncio da ressurreição de Jesus na manhã de Páscoa, através da obra “Noli me tangere” (Não me detenhas), de Martim Conrado, na qual Cristo ressuscitado Se revela a Maria Madalena, chamando-a pelo nome. Aquele manto vermelho que domina a cena levou-me de imediato ao manto do “Ecce Homo”, quando Jesus é apresentado entre insultos. Como se a Ressurreição não apagasse a humilhação, mas a transfigurasse. O que antes fora sinal de zombaria aparece agora como sinal de vitória. A tela, datada de 1653, conserva precisamente essa unidade profunda entre cruz e glória: o Ressuscitado é o mesmo que foi ferido, exposto ao desprezo e entregue à morte. Este quadro recordou-me que não há Páscoa sem Paixão e que o amor humilhado é o mesmo amor glorificado. Como diz um hino da Liturgia das Horas: “Troquemos o instante pelo eterno, / Sigamos o caminho de Jesus, / A Primavera vem depois do Inverno; / A alegria virá depois da cruz!”.

Maria Madalena vai de manhãzinha, ainda escuro ao sepulcro. Vai na dor, vai porque ama. Não encontra o corpo de Jesus no sepulcro e confunde-O com o jardineiro. Nessa fidelidade ferida, torna-se a primeira testemunha. A pintura de Martim Conrado capta esse instante em que Cristo sustém o gesto de Maria Madalena, que, inclinada, parece querer abraçar os seus pés. Na imagem sobressai a delicadeza das mãos, que nos abre ao mistério.

Sobre este episódio, Santo Agostinho questiona: “Tu pensas que eu sou apenas aquilo que vês: ‘não me toques’”. Cristo quer ensinar Maria Madalena a não ficar presa ao que os olhos alcançam, a não querer agarrar aquilo que agora só pode ser acolhido na fé. Por outro lado, São Gregório Magno vê nesta manhã pascal uma inversão da história humana: “Porque no paraíso uma mulher ofereceu a morte ao homem, junto ao sepulcro uma mulher anuncia a vida aos homens”. O jardim da Ressurreição responde, assim, ao jardim da desobediência.

Maria Madalena é a primeira voz da Páscoa. O seu anúncio: “Vi o Senhor!”, continua a ecoar pelos séculos. É por isso que ocupa um lugar tão relevante na tradição cristã. São Tomás de Aquino chama-lhe “apóstola dos apóstolos”, porque lhe foi confiado anunciar aos discípulos a ressurreição do Senhor. O Papa Francisco, quando elevou, em 2016, a memória de Santa Maria Madalena a festa litúrgica, quis sublinhar que ela é a “primeira testemunha e evangelista da Ressurreição do Senhor”.