Dia Mundial da Saúde: Pe. José Pinheiro diz que “cuidar do outro é incontornável” para quem vive a fé cristã

O diretor nacional da Pastoral da Saúde foi o orador de uma conferência dedicada ao tema Cuidado Humano: Transformando a Saúde em Compaixão”.

Foto: Assembleia Legislativa RAM

O Dia Mundial da Saúde, celebrado na terça-feira, 7 de abril, foi assinalado com várias iniciativas entre as quais com uma conferência dedicada ao tema “Cuidado Humano: Transformando a Saúde em Compaixão”, promovida pela Pastoral da Saúde.

O evento, que decorreu na Assembleia Legislativa da Madeira, contou com a presença do Pe. José Pinheiro, diretor nacional da Pastoral da Saúde e ficou também marcado pela homenagem à diretora dos Cuidados Paliativos na Madeira, a médica Licínia Araújo, reconhecida pelo trabalho desenvolvido junto de doentes em situação de maior fragilidade.

A propósito desta iniciativa e em declarações ao Posto Emissor do Funchal, o Pe. José Pinheiro sublinhou o papel da Igreja no acompanhamento dos doentes e das suas famílias, lembrando que “cuidar do outro é incontornável” para quem vive a fé cristã. “Somos seguidores de Jesus que passou fazendo o bem, por isso quem vive a fé está comprometido com a fragilidade do outro”, afirmou.

O responsável destacou a importância da presença nos hospitais através das capelanias. “É uma presença muito significativa, não só junto dos doentes, mas também dos profissionais de saúde”, referiu, acrescentando que “muitas vezes esquecemos o peso humano que recai sobre médicos e enfermeiros”.

Nesse sentido, deixou um alerta claro: “Às vezes esquecemos de cuidar de quem cuida”, apontando os casos de desgaste e burnout entre profissionais. Também as famílias, disse, precisam de acompanhamento: “As famílias têm de ser capacitadas e ajudadas a lidar com os seus medos e fragilidades”.

Além disso, apontou o papel das comunidades no apoio domiciliário, sobretudo num contexto em que muitas pessoas vivem sozinhas. “Há pessoas que têm cuidados médicos assegurados, mas faltam cuidados humanos permanentes, e isso a comunidade pode ajudar a resolver”, afirmou, defendendo maior envolvimento das paróquias e dos voluntários.

Para o diretor nacional da Pastoral da Saúde, este é também um apelo à sociedade para crescer em humanidade. “O sofrimento humaniza-nos e não há nada mais humano do que o sofrimento”, disse, alertando que “podemos crescer muito em conhecimento, mas se não formos capazes de estar com o outro, tornamo-nos desumanos”.

E concluiu com um desafio: “Ser cristão é estar ao serviço do outro, com gestos concretos, com proximidade e com cuidado, independentemente de quem está à nossa frente”.

170 doentes em regime domiciliário

Já Licínia Araújo destacou que os cuidados paliativos assentam cada vez mais em bases científicas sólidas. “Muitas vezes pensa-se que os cuidados paliativos não têm ciência por detrás, mas têm muita evidência científica, felizmente cada vez mais”, sublinhou, acrescentando que esta evolução tem vindo a validar o trabalho desenvolvido nesta área. “Este ano o Dia Mundial da Saúde traz também essa consciência, de que a ciência faz parte destes cuidados”, reforçou.

Sobre a resposta existente na região, a responsável considerou que o maior desafio não está apenas no número de camas, mas sobretudo nos recursos humanos. “Mais do que as camas, é muito importante os profissionais que vão às camas, onde os doentes estão e no momento em que precisam”, afirmou, acrescentando que “cada vez mais tem havido mais pedidos de acompanhamento a doentes em situação paliativa”.

Atualmente, cerca de 170 doentes estão a ser acompanhados em regime domiciliário em toda a ilha, um número que reflete o aumento dos pedidos de apoio. “O maior número de solicitações é para acompanhamento em casa”, explicou, sublinhando que “é exatamente no domicílio que sentimos maior pressão e necessidade de resposta”.

A médica detalhou ainda que o acompanhamento domiciliário é assegurado por uma equipa reduzida, composta por três médicas, apoiadas por enfermagem, o que limita a capacidade de resposta, sobretudo aos fins de semana. “Temos uma equipa que acompanha diariamente, mas ao fim de semana o apoio é sobretudo telefónico”, referiu, admitindo que, em situações mais agudas, “o doente terá de recorrer ao serviço de urgência se não conseguirmos resolver à distância”.

Ainda assim, garantiu que o objetivo é assegurar continuidade de cuidados e controlo de sintomas no ambiente familiar, muitas vezes preferido pelos doentes. “Em casa conseguimos fazer controlo de sintomas, administrar terapêutica e garantir acompanhamento contínuo”, explicou. E acrescentou: “Às vezes o hospital parece uma falsa segurança e há intervenções que já não fazem sentido nesta fase da vida”.

Para muitos doentes, permanecer em casa faz toda a diferença. “Estar em casa dá motivação para simplesmente estar, para viver o dia a dia com a família e com aquilo que lhe é próximo”, disse, recordando o testemunho de um doente: “Eu quero ficar aqui, debaixo do meu corredor da vinha, deixem-me estar sossegado”.