Faleceu, na noite de sábado para Domingo de Páscoa, Maria José Paula Fernandes de Castro, a voluntária mais antiga da Cáritas Diocesana do Funchal.
A instituição já manifestou publicamente o seu profundo pesar, destacando não só o seu percurso enquanto voluntária, mas também o facto de ter integrado a direção.
Na sua página oficial do Facebook, a Cáritas sublinhou a “integridade, humanismo e espírito solidário” que marcaram décadas de dedicação ao próximo, deixando uma marca profunda na ação social da Diocese do Funchal.
Homenageada em vida
Maria José Castro dedicou mais de 40 anos ao voluntariado, tendo começado de forma quase inesperada. Em entrevista concedida ao Jornal da Madeira, em março de 2021, dias antes de ser homenageada publicamente pelo seu trabalho, recordava que aceitou o convite para integrar a Cáritas “ainda que um pouco renitente”, mas rapidamente percebeu a dimensão humana da missão.
Inicialmente, o seu trabalho limitava-se ao encaminhamento de pessoas para apoio material. Contudo, com o tempo, compreendeu que havia algo mais importante: escutar.
“Fui percebendo que elas tinham mais alguma coisa para me dizer, que tinham necessidade de falar.” Essa escuta tornou-se a base do seu voluntariado, sempre pautado pela confiança e pelo sigilo — valores que considerava essenciais para criar laços com quem procurava ajuda.
Uma das passagens mais marcantes da entrevista revela a sua visão profundamente humana e ativa da solidariedade:
“Se houve uma coisa que nunca gostei de dizer foi para as pessoas terem paciência, no sentido de se conformarem com as suas situações.”
Para Maria José Castro, dizer “tenha paciência” era quase um abandono. Preferia oferecer atenção, presença e carinho: “No fundo, acho que lhes dava um pouco de amor e isso fazia a diferença.”
Inspirada pelo lema — “É o amor que transforma” — acreditava que pequenos gestos, como um sorriso ou uma palavra, podiam mudar o dia — e até a vida — de alguém.
Ao longo das décadas, foram muitas as histórias de sofrimento que ouviu — e com as quais aprendeu: “Fui confrontada com muitas situações de sofrimento e aprendi também com elas. Sofria com as pessoas.”
Um dos episódios que mais a marcou foi o de uma viúva em profundo desespero, a quem ofereceu um pequeno Novo Testamento. Dias depois, a mulher regressou emocionada para agradecer: “A senhora não sabe o bem que me fez.” Para Maria José, este tipo de impacto silencioso era a verdadeira essência do voluntariado.
Funeral na quinta-feira
Na altura da entrevista, tinha 90 anos e mantinha-se ativa, atribuindo essa vitalidade à fé e ao compromisso com os outros: “O voluntariado foi muito importante, mas o mais importante é a graça de Deus.”
Mesmo durante a pandemia, que a afastou das atividades presenciais, continuou a viver a sua fé diariamente, através da leitura e meditação.
Ainda assim, confessava a dificuldade do isolamento: “O silêncio era tal, que eu tinha a sensação de estar noutro planeta.”
Com a sua partida a Cáritas do Funchal perde uma das suas figuras mais emblemáticas. Fica, porém, o exemplo de uma vida inteiramente dedicada ao próximo, onde o amor, a escuta e a dignidade humana foram sempre prioridade.
De referir que a exéquias fúnebres de Maria José Paula Fernandes de Castro decorrem na próxima quinta-feira, dia 9 de abril pelas 12.30 horas, no Cemitério de São Martinho.
O jornal da Madeira endereça à família e amigos, bem como à Cáritas Diocesana do Funchal as suas mais sentidas condolências.
























