Vigília Pascal: Bispo do Funchal apela aos fiéis para viver como ressuscitados 

O prelado sublinhou que a ressurreição de Cristo não é apenas um acontecimento do passado, mas uma realidade que deve marcar concretamente o presente dos cristãos. 

Foto: Duarte Gomes

Na noite mais importante do calendário cristão, o bispo do Funchal lançou um apelo claro e exigente aos fiéis: viver como ressuscitados, deixando que Cristo transforme plenamente a vida de cada fiel. 

Na Vigília Pascal celebrada na Sé do Funchal, no dia 4 de abril de 2026, D. Nuno Brás sublinhou que a ressurreição de Cristo não é apenas um acontecimento do passado, mas uma realidade que deve marcar concretamente o presente dos cristãos.  

Partindo da Carta de São Paulo aos Romanos — “assim como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova” — o prelado destacou que ser cristão significa uma união profunda com Cristo, não só nas ações, mas também nos pensamentos e no próprio ser. Como afirmou, “ser cristão é viver unido o mais possível a Cristo”. 

Segundo explicou D. Nuno Brás, esta união implica uma transformação total: “deixar que seja Ele a viver em nós”, assumindo os mesmos sentimentos, atitudes e modo de viver de Jesus. Trata-se de “estar unido a Cristo exteriormente”, “psicologicamente” e, sobretudo, “em união de ser”. Só assim, afirmou, “a vida de Cristo será a nossa; o destino de Cristo será o nosso: e se Cristo ressuscitou, também nós havemos de, com Ele, ser ressuscitados”. 

A celebração foi marcada pelo anúncio central da fé: Cristo venceu a morte. Neste contexto, o bispo diocesano recordou que esta foi “a grande notícia que fez correr os primeiros cristãos” e continua hoje a ser a mensagem essencial da Igreja: “Cristo ressuscitou. Esta é a grande notícia”. “Um de nósvenceu a morte e mostra em si a vida, a glória de Deus”, afirmou, sublinhando que isso abre à humanidade um horizonte novo, onde “a morte podeser vencida” e “deixou de ser um destino inevitável”, porque “o muro da morte que nos condenava e separava da vida foi derrubado para sempre”. 

Dirigindo-se aos fiéis, o bispo do Funchal destacou que esta certeza deve gerar alegria, esperança e também compromisso: não apenas viver a fé pessoalmente, mas levá-la aos outros e transformar a sociedade. Esta é, disse, “a notícia que nos faz correr a cada um de nós — para a vivermoscom feliz alegria” e também “para a comunicarmos aos outros”, capaz de transformar “a vida das diferentes sociedades e culturas humanas”. 

Evocando a noite pascal, recordou que “esta é a notícia que preenche esta noite santa”, ilustrando com o testemunho das mulheres junto ao sepulcro: “foram procurar o Crucificado e saiu-lhes ao encontro o Ressuscitado”, passando da tristeza à “notícia alegre e jubilosa da ressurreição”. 

Num segundo momento da homilia, o Bispo explicou a ligação entre a ressurreição e o batismo, recordando que este sacramento configura o cristãocom a morte e ressurreição de Cristo. Citando São Paulo, afirmou: “todos nós que fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte” e que, por isso, “o baptismo é, em primeiro lugar, um sacramento de morte”. 

Inspirando-se nos Padres da Igreja, afirmou que o batismo implica “cortar com a vida passada” e que “antes de começar esta vida nova, é necessáriopôr fim à antiga”. Trata-se de um verdadeiro renascimento, que permite ao cristão viver em coerência com a graça recebida. 

D. Nuno Brás concluiu a sua homilia convidando todos a acolherem plenamente o mistério celebrado naquela noite: viver como ressuscitados, irradiando na vida diária “o esplendor do amor divino”. “Unidos a Cristo, participando da sua morte por meio do baptismo, também nós havemos de viver como ressuscitados”, afirmou, apelando a que cada fiel manifeste “a maravilha de vivermos como ressuscitados, unidos sempre ao Senhor, vencedor da morte e do pecado”. 

Recorde-se que a Vigília Pascal é considerada a mãe de todas as vigílias por realizar-se na noite em que Cristo passou da morte à vida. Esta celebração possui quatro partes distintas que voltaram a ser cumpridas: a liturgia da luz ou lucernário, momento em que o presidente da celebração procede à bênção do fogo novo, à qual se segue o acender do círio pascal e a partir deste o de cada um dos membros da assembleia que até então permanece na escuridão; a liturgia da Palavra; a liturgia batismal; e a liturgia eucarística.  

  

Leia na íntegra a homilia do bispo diocesano: 

VIGÍLIA PASCAL 
Sé do Funchal, 4 de Abril de 2026 
“Assim como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, 
também nós vivamos uma vida nova” (Rom 6) 

No excerto da Carta aos Romanos que escutámos, S. Paulo apresentava à Comunidade de Roma um raciocínio central para a nossa vidade cristãos: ser cristão, dizia o Apóstolo, é viver unido o mais possível a Cristo.  

Ou seja: ser cristão é estar unido a Cristo exteriormente, procurando assumir os mesmos comportamentos e as mesmas atitudes queEle; é estar unido a Cristo psicologicamente, vivendo os mesmos pensamentos e sentimentos; mas é, sobretudo, estar unido a Cristo emunião de ser, deixando que seja Ele a viver em nós — deixando que Ele tome conta de tudo o que somos, temos e vivemos. Se talacontecer, então a vida de Cristo será a nossa; o destino de Cristo será o nosso: e se Cristo ressuscitou, também nós havemos de, com Ele, ser ressuscitados. 

1. “Cristo ressuscitou dos mortos para glória do Pai”  

Cristo ressuscitou. Esta é a grande notícia que fez correr os primeiros cristãos, e que faz correr, em particular, a S. Paulo, depois que oRessuscitado lhe saiu ao encontro na estrada de Damasco, e o antigo perseguidor se rendeu à vida gloriosa que Jesus lhe propunha.  

Desde esse momento, os cristãos correm até aos confins do mundo porque trazem consigo uma notícia única mas essencial para todosos seres humanos: um de nós venceu a morte e mostra em si a vida, a glória de Deus. E isso significa que a morte pode ser vencida; que a morte deixou de ser um destino inevitável para os seres humanos. O muro da morte que nos condenava e separava da vida foiderrubado para sempre. 

E essa é também a grande notícia que nos faz correr a cada um de nós — para a vivermos com feliz alegria, porque abre diante de nóso horizonte da vida eterna; e para a comunicarmos aos outros, de modo a transformar a sua vida, a vida das diferentes sociedades e culturas humanas: de todas as suas estruturas, modos de pensar, organizações sociais e políticas. 

A notícia da ressurreição de Jesus é a notícia que nos anima a ser cristãos durante esta nossa vida: a procurar ser “por Cristo, com Cristo e em  Cristo”, apesar de todas as dificuldades e sofrimentos. 

De um modo particular, esta é a notícia que preenche esta noite santa, esta noite de Páscoa. Ao romper da manhã, um grupo de mulheres foi procurar um sepulcro cerrado e encontraram um Anjo que, da parte de Deus, lhes retirou a pedra que fechava o túmulo; foram para chorar o amigo morto, e depararam-se com a notícia alegre e jubilosa da ressurreição; estavam derrotadas com o acontecimento da morte, e anunciaram-lhes a alegre notícia da vitória sobre a morte; foram procurar o Crucificado e saiu-lhes aoencontro o Ressuscitado, cheio da glória de Deus. 

2. “Também com Ele viveremos” 

“Se morremos com Cristo, acreditamos que também com Ele viveremos, sabendo que, uma vez ressuscitado dos mortos, Cristo já nãopode morrer; a morte já não tem domínio sobre Ele”. 

Como morremos com Cristo? O Baptismo, dizia S. Paulo, configura-nos com Cristo: “Todos nós que fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte. Fomos sepultados com Ele pelo Batismo na sua morte”. No baptismo morremos com Cristo. O baptismoé, em primeiro lugar, um sacramento de morte.  

No século IV, São Basílio Magno interrogava-se: “Como poderemos assemelhar-nos a Cristo na sua morte? Sepultando-nos com Ele pelo Baptismo. Em que consiste esta sepultura e qual é o fruto desta imitação? Antes de mais, trata-se de cortar com a vida passada. Mas ninguém pode conseguir isto, se não renascer de novo, segundo a palavra do Senhor, porque o renascimento, como o nomeindica, é o começo de uma vida nova. Por isso, antes de começar esta vida nova, é necessário pôr fim à antiga” (Sobre o Espírito Santo, Cap. 15, 35).  

E São Cirilo de Jerusalém dirigindo-se aos recém-baptizados na noite de Páscoa, também no século IV, dizia: “Oh! facto estranho e paradoxal! Não morremos em verdade, não fomos sepultados em verdade, não fomos crucificados e ressuscitados em verdade. Aimitação é uma imagem; a salvação, uma verdade. Cristo foi crucificado, sepultado e verdadeiramente ressuscitou. Todas estas coisasnos foram dadas como graça, a fim de que, participando, por imitação, nos seus sofrimentos, em verdade cheguemos à salvação. Oh! amor sem medida! Cristo recebeu em suas mãos imaculadas os pregos e padeceu; e a mim, sem sofrimento e sem pena, concede graciosamente a salvação por meio desta participação” (II Catequese mistagógica, 5). 

Eis, queridos irmãos, o grande mistério que celebramos nesta noite santa de Páscoa. Unidos a Cristo, participando da sua morte pormeio do baptismo, também nós havemos de viver como ressuscitados, irradiando a glória de Deus — quer dizer: o esplendor do amor divino. Acolhamos, de coração disponível a graça que nos é oferecida, e manifestemos na nossa vida a maravilha de vivermos comoressuscitados, unidos sempre ao Senhor, vencedor da morte e do pecado.