Domingo de Páscoa: Bispo do Funchal desafia fiéis a acreditar na ressurreição para além da lógica imediata 

O prelado, que dirigiu algumas palavras aos muitos estrangeiros que participaram nestas celebrações, vincou que “o amor faz ver mais longe, alarga os horizontes da lógica humana, admite outras razões que a razão se mostra incapaz de conhecer”. 

Foto: Duarte Gomes

Na celebração do Domingo de Páscoa, na Sé do Funchal, neste dia 5 de abril, o bispo do Funchal destacou que a ressurreição de Cristo exige um olhar que vá além da lógica imediata, afirmando que “o amor faz ver mais longe, alarga os horizontes da lógica humana, admite outras razões que a razão se mostra incapaz de conhecer” e conduz à verdadeira fé. 

Partindo do relato do Evangelho de São João — “no primeiro dia da semana, Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro, e viu a pedra retirada do sepulcro” — D. Nuno Brás sublinhou que, apesar de algumas diferenças entre os evangelistas, “pouco importam estas divergências secundárias”, pois “as várias tradições concordam no acontecimento: ao romper do primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao sepulcro”, sendo este “um dos dados mais seguros acerca da história daquele primeiro Domingo”. 

Perante o sepulcro, explicou o prelado, dá-se uma inversão total das expectativas: “a pedra que selava o sepulcro — e que impedia aos vivos de entrar e aos mortos de sair — se encontrava afastada, e que o túmulo de Jesus estava vazio”. Um túmulo que “parecia ser o sinal da vitória definitiva da morte sobre Deus e sobre as esperanças humanas”, mas que agora “longe de se encontrar encerrado para sempre, se apresenta aberto, escancarado”, levantando a questão decisiva: “Que é feito do corpo do Nazareno?”. 

Perante este cenário, a primeira reação foi de perplexidade e alarme. Maria Madalena correu a avisar os discípulos: “Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram”. Também Pedro e João, ao chegarem, encontraram “o túmulo vazio, as ligaduras arrumadas a um canto, e o lençol (o sudário) que cobria o rosto do Senhor, também ali deixado, como que indiciando não tanto o roubo do cadáver, mas um acontecimento de outra natureza”. 

Ainda assim, como referiu, a reação inicial ficou marcada por uma leitura limitada: “foi, antes, a resposta que se apresentava mais imediata: ‘roubaram o corpo do Senhor’”, uma explicação que é “a resposta lógica, humana, conveniente: a resposta que não exige nenhum outro passo, que não provoca escândalo”. 

No entanto, sublinhou o bispo diocesano, “João, o discípulo amado, foi capaz de ir mais longe que a mera e imediata aparência”, afirmando, citando o Evangelho: “Viu e acreditou”. Viu o mesmo que os outros, “mas ousou ir mais longe, e acreditou. Em que acreditou? Acreditou na ressurreição de Jesus”. 

Essa fé, explicou, nasce de um caminho: João acreditou “nos anúncios que Jesus tinha realizado da sua Paixão na cruz e da sua ressurreição”, recordando palavras como: “Destruí este templo, e em três dias o levantarei”. E também porque, depois da ressurreição, “os seus discípulos recordaram-se de que tinha dito isto e acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus”, percebendo finalmente aquilo que antes lhes escapava, quando “retiveram para si estas palavras, debatendo o que seria ressuscitar dos mortos”. 

Naquele momento, aquilo que antes era incompreensível torna-se claro: “nesse momento, nenhum deles percebeu o que significava ‘ressuscitar dos mortos’. Mas agora, João, confrontado com o acontecimento do túmulo vazio, entende as palavras de Jesus. Agora sabe o que significa ‘ressuscitar dos mortos’”. Assim, “o anúncio de toda a Antiga Aliança se tornou, agora, realidade, acontecimento, história”, proclamando “a vitória de Deus sobre a morte”. 

O prelado recordou ainda que a fé na ressurreição não se baseia apenas no túmulo vazio, mas também nos encontros com o Ressuscitado. Jesus “apresentou-se a Maria Madalena, tratando-a pelo nome” e depois “se apresentou aos discípulos reunidos no Cenáculo, uma e outra vez; e também nas margens do Lago”. Como testemunha São Paulo: “Apareceu a Cefas e depois aos Doze. Depois disso, apareceu de uma só vez a mais de quinhentos irmãos, a maioria dos quais ainda vive, embora alguns já tenham adormecido. Depois disso apareceu a Tiago e, depois, a todos os apóstolos. Por último, como a um nascido fora de tempo, apareceu-me também a mim”. 

Concluindo, D. Nuno Brás desafiou os fiéis a seguirem o exemplo do discípulo amado: deixar que a ressurreição transforme o olhar e a vida. “Deixemos que, tal como sucedeu com o discípulo amado, a certeza da ressurreição inunde a nossa vida, nos permita olhar mais longe que os estreitos limites dos sentidos físicos, e nos encha da alegria que não tem fim”, afirmou, para que cada cristão viva plenamente esta certeza: “Cristo venceu a morte para sempre. Aleluia!”. 

A terminar de referir que todas as celebrações que tiveram lugar na Sé do Funchal ao longo desta semana Santa, foram animadas liturgicamente pelo Coro Solidéu, a quem o bispo diocesano fez questão de agradecer. 

Leia na íntegra a homilia do bispo diocesano: 

DOMINGO DE PÁSCOA 

Sé do Funchal, 5 de abril de 2026 

1. “No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro, e viu a pedra retirada do sepulcro”.  

São João, o autor do IV Evangelho, diz simplesmente que Maria Madalena, a fiel discípula do Senhor, se dirigiu ao sepulcro, antes do raiar da manhã. Os demais evangelistas dizem que ia acompanhada de outras mulheres (também elas do grupo que seguia o Senhor). Dizem que o fez porque os ritos de sepultura não tinham sido completados. Pouco importam estas divergências secundárias. As várias tradições concordam no acontecimento: ao romper do primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao sepulcro. É um dos dados mais seguros acerca da história daquele primeiro Domingo! 

Sabemos que, quando lá chegou, ao contrário das expectativas, a pedra que selava o sepulcro — e que impedia aos vivos de entrar e aos mortos de sair — se encontrava afastada, e que o túmulo de Jesus estava vazio. Facilmente entendemos o alarme e a urgência com que Maria se dirigiu aos primeiros dos discípulos: “Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram”. Tal como entendemos a corrida de Pedro e João ao túmulo do Mestre e o cenário com que, lá chegados, se depararam: o túmulo vazio, as ligaduras arrumadas a um canto, e o lençol (o sudário) que cobria o rosto do Senhor, também ali deixado, como que indiciando não tanto o roubo do cadáver mas um acontecimento de outra natureza. 

O túmulo de Jesus, o túmulo daquele que todos viram morto na cruz; o túmulo que recebeu o seu corpo sem vida durante o dia de sábado — esse túmulo que parecia ser o sinal da vitória definitiva da morte sobre Deus e sobre as esperanças humanas; que parecia o sinal da impossibilidade da salvação, eis que agora, longe de se encontrar encerrado para sempre, se apresenta aberto, escancarado. “Que é feito do corpo do Nazareno?”: é a questão que surge, espontânea. 

Inicialmente, a resposta de Maria Madalena e de Pedro esteve longe de ser a resposta da fé. Foi, antes, a resposta que se apresentava mais imediata: “roubaram o corpo do Senhor”. Isso mesmo se apressaram a defender as autoridades judaicas e aquelas romanas. E assim continuam hoje, teimosamente, incapazes de ousar o passo da fé, tantos outros a responder. 

É a resposta lógica, humana, conveniente: a resposta que não exige nenhum outro passo, que não provoca escândalo. Não era a primeira vez, nem seria a última que um cadáver seria roubado: os discípulos poderiam regressar a sua casa, às suas terras e às suas profissões, talvez cansados de se verem envolvidos em todos aqueles acontecimentos. O túmulo de Jesus permaneceria o ponto final duma “aventura” de três anos. 

2. E, no entanto, João, o discípulo amado, foi capaz de ir mais longe que a mera e imediata aparência. O amor faz ver mais longe, alarga os horizontes da lógica humana, admite outras razões que a razão se mostra incapaz de conhecer: “Viu e acreditou”, escreve João, resumindo aqueles momentos. Viu o mesmo que Pedro e que Madalena, mas ousou ir mais longe, e acreditou. Em que acreditou? 

Acreditou na ressurreição de Jesus. Acreditou com que razões? Em primeiro lugar, acreditou nos anúncios que Jesus tinha realizado da sua Paixão na cruz e da sua ressurreição. Os evangelhos estão cheios desses anúncios. Por exemplo, ao narrar o gesto da purificação do Templo, S. João diz: “Jesus respondeu-lhes: «Destruí este templo, e em três dias o levantarei». Disseram-lhe, então, os judeus: «Foram precisos quarenta e seis anos para se edificar este templo, e Tu em três dias o levantarás?». Ele, porém, falava do templo do seu corpo. Por isso, quando ressuscitou dos mortos, os seus discípulos recordaram-se de que tinha dito isto e acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus” (Jo 3,19-22). E várias outras passagens poderíamos aqui acrescentar.  

Parece pois claro: Jesus anunciou aos seus discípulos a sua morte, mas anunciou igualmente a sua ressurreição, realidade que, naquele momento, os discípulos não foram capazes de compreender. Isso mesmo o vemos, por exemplo, em S. Marcos, no final da narrativa da transfiguração, na conversa entre Pedro, Tiago e João: “Retiveram para si estas palavras, debatendo o que seria ressuscitar dos mortos” (Mc 9,10). 

Nesse momento, nenhum deles percebeu o que significava “ressuscitar dos mortos”. Mas agora, João, confrontado com o acontecimento do túmulo vazio, entende as palavras de Jesus. Agora sabe o que significa “ressuscitar dos mortos”.  

Mas João acreditou também nas Escrituras. Não sabemos identificar a que passagem exacta do Antigo Testamento S. João se referia, mas sabemos que todo o conjunto das Escrituras proclama, sem sombra de dúvidas, a vitória de Deus sobre a morte. Eis que o anúncio de toda a Antiga Aliança se tornou, agora, realidade, acontecimento, história. 

3. Mas sabemos que o próprio Jesus ressuscitado foi mais longe. Sabemos que, logo após a descoberta do túmulo vazio, se apresentou a Maria Madalena, tratando-a pelo nome; e que, depois, se apresentou aos discípulos reunidos no Cenáculo, uma e outra vez; e também nas margens do Lago. São Paulo, ao recordar aos cristãos de Corinto a realidade histórica da ressurreição do Senhor, não hesita em enumerar: “Apareceu a Cefas e depois aos Doze. Depois disso, apareceu de uma só vez a mais de quinhentos irmãos, a maioria dos quais ainda vive, embora alguns já tenham adormecido. Depois disso apareceu a Tiago e, depois, a todos os apóstolos. Por último, como a um nascido fora de tempo, apareceu-me também a mim” (1Cor 15,5-8). 

O amor de João permitiu-lhe ver mais longe. Depois dele, muitos outros discípulos, muitos outros cristãos acreditaram, mesmo sem terem visto. Deixemos que, tal como sucedeu com o discípulo amado, a certeza da ressurreição inunde a nossa vida, nos permita olhar mais longe que os estreitos limites dos sentidos físicos, e nos encha da alegria que não tem fim: Cristo venceu a morte para sempre. Aleluia!