Celebração da Paixão: O amor levado até ao fim vence o mal e a morte

O bispo do Funchal lembrou que “Jesus morre por amor, com amor e para que o amor (a única realidade em que podemos, afinal, acreditar, e onde podemos encontrar a solução para a nossa vida) para que o amor possa, por fim, vencer o mal e o pecado, em cada um, em todos.”

Foto: Duarte Gomes

A certeza de que “o amor levado até ao fim vence o mal e a morte” foi a ideia que marcou a homilia do bispo do Funchal, D. Nuno Brás, na celebração da Paixão do Senhor, nesta Sexta-Feira Santa, evocando o sentido mais profundo da entrega de Cristo na cruz.

Na Sé do Funchal, numa igreja desnudada desde a noite anterior, o prelado convidou os inúmeros fiéis que enchiam o templo a contemplarem Jesus não como vítima de circunstâncias, mas como Aquele que “sabendo o que lhe ia acontecer”, caminha livremente para a cruz, em total obediência à vontade do Pai.

Jesus, vincou D. Nuno Brás, “não é comandado por acontecimentos que não prevê. Pelo contrário, Ele sabe antecipadamente o que lhe vai suceder, tem consciência do seu caminho”. E acrescentou: “Jesus não foge da Paixão, não se procura escapar dela”.

Sublinhando o relato da Paixão segundo São João, o prelado recordou que Cristo assume plenamente a vontade do Pai: “Jesus sofre a Paixão porque essa é a vontade do Pai, e Ele não sabe viver fora dessa vontade”. Longe de uma atitude fatalista, “não o faz estoicamente, como um herói, ‘oferecendo o corpo às balas’ perante uma inevitabilidade”, mas com confiança: “Não hei-de beber o cálice que o Pai me deu?”. Por isso, frisou, “são outros os critérios da salvação”.

Na evocação do Getsémani, D. Nuno Brás destacou ainda que Jesus Se revela com autoridade divina ao afirmar “Sou Eu”, expressão que faz com que “Quando Jesus lhes disse: ‘Sou Eu’, recuaram e caíram por terra”. Ao mesmo tempo, quis viver estes momentos com os seus, pois “Judas conhecia também o local, porque Jesus se reunira lá muitas vezes com os discípulos”, sendo necessário que os discípulos “presenciem estes momentos, vejam a prisão do Mestre e partilhem com Ele a hora da Paixão”.

Na reflexão proposta, o bispo do Funchal evidenciou ainda que, diante das autoridades e de Pilatos, Jesus sabe que é “o homem”: “Jesus sabe que nele se resume o todo da humanidade de todos os tempos; e que é necessário que aquele em quem a humanidade se resume seja capaz de viver o amor, a resposta humana a Deus, até ao fim”. E apresenta-Se como testemunha da verdade: “Sou Rei. Para isso nasci e vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz”. Perante a pergunta “Que é a verdade?”, recordou a atitude de quem a coloca “num tom desdenhoso, de quem não se importa com a procura e o encontro da verdade”.

Já na cruz, Jesus deixa o seu “testamento”, ao confiar o discípulo à Mãe. Àquela que é “a Mulher”, “o ser humano inteiro, sem pecado, sem divisão”, confia “os seus discípulos de todos os tempos e lugares”. E ao discípulo entrega a Mãe, não apenas “como solução para a vida de uma viúva que irá em breve perder o filho, mas como quem acolhe em sua casa a ‘Mãe’ e a ‘Mulher’, deixando-se transformar e ensinar por este modo de ser nova humanidade”.

No momento final, recorda o bispo diocesano, Jesus proclama: “Tudo está consumado”. Isto significa que “tudo está realizado: a sua missão foi cumprida até ao final; o amor sem desfalecimento levou a melhor sobre o pecado; a vida está pronta para vencer definitivamente a morte”. Por isso, acrescentou D. Nuno Brás, Jesus “entrega o Espírito. Entrega-o ao Pai, de quem tudo tinha recebido; entrega-O ao Pai como resposta plena, perfeita — a resposta final, perfeita, completa, de um homem, o novo Adão, ao Deus criador e redentor”.

De referir que esta celebração decorreu em ambiente de profundo recolhimento, convidando os presentes a olharem para o “amor crucificado e entregue na cruz, e olhamos para o nosso coração e para o coração desta nossa humanidade ainda tão marcado pelo pecado e pela morte. Marcada pela guerra, pela mentira, pelo ódio”. 

Nesse contexto, foi lançado um apelo à oração: “não podemos deixar de pedir ao Senhor que nos dê a graça de continuarmos, como seus discípulos amados, a acolher, junto com sua Mãe, o amor até ao fim que é o próprio Senhor Jesus”.

Ao longo deste momento central da fé cristã foram, mais uma vez, cumpridas as três partes distintas que o mesmo contempla: a Liturgia da Palavra, onde é proclamada a Paixão do Senhor; a Adoração da Cruz, gesto de veneração do madeiro onde se realizou a salvação; e a Comunhão Eucarística, na qual os fiéis participam do mistério pascal.

Cumprido foi também um outro momento importante e particularmente carregado de simbolismo: o enterro do Senhor. Nesta procissão, ao compasso da Banda Municipal, participaram muitos dos fiéis que enchiam a Sé, a que se juntaram outros tantos que se encontravam ao longo da Avenida Arriaga até às imediações do Jardim Municipal, por onde foi e veio o esquife com o Senhor morto, acompanhado por nossa Senhora das Dores.

A Sexta-Feira Santa voltou assim a afirmar-se como um tempo de silêncio, contemplação e compromisso, desafiando cada fiel a viver à luz daquele que “morre por amor, com amor e para que o amor possa, por fim, vencer o mal e o pecado, em cada um, em todos”.

Publicamos a homilia de D. Nuno Brás na íntegra:

SEXTA-FEIRA SANTA
CELEBRAÇÃO DA PAIXÃO DO SENHOR
Sé do Funchal, 3 de Abril de 2026

Olhamos hoje, de um modo particular, para Jesus que vive os momentos da Paixão e a morte de cruz; olhamos para este momento central da nossa salvação. Como acabámos de escutar, São João narra a Paixão de Jesus em três grandes momentos: no Getsémani, no julgamento diante das autoridades judaicas e de Pilatos, e na cruz. Procuremos, ainda que muito brevemente, contemplar como Jesus viveu estes momentos.

1. No Gestémani 

A primeira nota que salta à nossa vista é o facto de Jesus não ser comandado por acontecimentos que não prevê. Pelo contrário, Ele sabe antecipadamente o que lhe vai suceder, tem consciência do seu caminho. Pode parecer que são os diferentes actores humanos a decidir tudo. Mas S. João várias vezes o nega: “Sabendo o que lhe ia acontecer”, diz o evangelho (cf. Jo 13,1.19; 14,29; 18,4.9; 19,28). É com toda a liberdade que Jesus vive os momentos da Paixão.

Jesus não foge da Paixão, não se procura escapar dela. Se anteriormente tinha ido para outro lugar perante a perseguição dos chefes judaicos (cf. Jo 8,59; 10,40) foi, simplesmente, por ainda não ter chegado “a hora” determinada pelo Pai. Mas, agora, Jesus caminha, encaminha-se para a Paixão. Não o faz estoicamente, como um herói, “oferecendo o corpo às balas” perante uma inevitabilidade: caminha para a cruz e vive a Paixão como Filho obediente, cumprindo as Escrituras — e cumprindo também o que anteriormente ele próprio anunciara aos discípulos. 

Jesus sofre a Paixão porque essa é a vontade do Pai, e Ele não sabe viver fora dessa vontade. Por isso, o Filho experimenta os sofrimentos, a Paixão, a morte, como Deus verdadeiro: “Sou Eu”, responde o Senhor àqueles que o querem prender. “Quando Jesus lhes disse: ‘Sou Eu’, recuaram e caíram por terra”. Com efeito, “Egó eimi” (Eu Sou) é o nome de Deus, nome que Jhwh tinha revelado a Moisés no monte Sinai (cf. Ex 3,14) — nome que Jesus não hesita em pronunciar, e que faz com que os seus perseguidores caiam por terra ao escutá-lo.

Jesus quer viver estes momentos com os seus, nos lugares habituais das suas reuniões. Depois da Última Ceia, dirige-se com eles para um jardim. E o evangelho diz que “Judas conhecia também o local, porque Jesus se reunira lá muitas vezes com os discípulos”. É necessário que os discípulos presenciem estes momentos, vejam a prisão do Mestre e partilhem com Ele a hora da Paixão.

Jesus recusa comportar-se como habitualmente fazem os chefes humanos. Recusa a fuga e a luta, recusa a espada: “Não hei-de beber o cálice que o Pai me deu?”. São outros os critérios da salvação: “Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não é daqui”.

2. Diante dos chefes judeus e de Pilatos

Jesus bem sabe — como sabem os chefes judeus (“É melhor que morra um só homem pelo povo”) e Pilatos (“Eis o Homem”), ainda que não atinjam plenamente o que isso significa — Jesus sabe que é “o homem”. Quer dizer: Jesus sabe que nele se resume o todo da humanidade de todos os tempos; e que é necessário que aquele em quem a humanidade se resume seja capaz de viver o amor, a resposta humana a Deus, até ao fim -— plenamente, até às últimas consequências e até ao o último momento. Jesus sabe que irá morrer por todo o povo, por toda a humanidade, como outrora o cordeiro imolado significava todo o povo de Israel.

Perante o Sinédrio (os chefes judeus) e perante Pilatos, Jesus dá testemunho da verdade. Não fala apenas abertamente e com sinceridade. Fala como aquele em quem resplandece o ser do mundo, de toda a criação: “Sou Rei. Para isso nasci e vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz”. Pilatos, um romano céptico, mais preocupado com a solução dos problemas do quotidiano, fosse a que preço fosse, de pouco se importa com isso. No entanto, bem diante dele, encontra-se a verdade, não em teoria mas em Pessoa — a verdade do ser humano e a verdade de Deus. “Que é a verdade?”, interroga, num tom desdenhoso (tão comum também nos nossos dias), de quem não se importa com a procura e o encontro da verdade. 

3. A cruz de Jesus

Na cruz, Jesus começa por nos deixar o seu testamento, ao entregar o discípulo amado a sua Mãe. Àquela que é “a Mulher”, o ser humano inteiro, sem pecado, sem divisão, Jesus confia os seus discípulos de todos os tempos e lugares. Pede a Maria que cuide deles, que os ensine a viver como discípulos, a ser a presença do Senhor, a anunciar o Evangelho sem desfalecer, a deixar que neles todos possam encontrar o Pai. 

E ao discípulo entrega a Mãe. Não só como solução para a vida de uma viúva que irá em breve perder o filho, mas como quem acolhe em sua casa a “Mãe” e a “Mulher”, deixando-se transformar e ensinar por este modo de ser nova humanidade, sempre para Jesus.

Finalmente Jesus afirma: “Tudo está consumado”. Tudo está realizado: a sua missão foi cumprida até ao final; o amor sem desfalecimento levou a melhor sobre o pecado; a vida está pronta para vencer definitivamente a morte.

Jesus pode, por isso, “entregar o Espírito”. Entrega-o ao Pai, de quem tudo tinha recebido; entrega-O ao Pai como resposta plena, perfeita — a resposta final, perfeita, completa, de um homem, o novo Adão, ao Deus criador e redentor. Mas entrega-O, igualmente, aos seus discípulos (S. Lucas mostra-o claramente ao descrever o dia de Pentecostes), de modo a que estes possam para sempre, até ao fim dos tempos, participar da vida nova que Ele oferece e que, de facto, é a sua própria vida.

Jesus morre por amor, com amor e para que o amor (a única realidade em que podemos, afinal, acreditar, e onde podemos encontrar a solução para a nossa vida) para que o amor possa, por fim, vencer o mal e o pecado, em cada um, em todos.

Olhamos para Jesus e olhamos para nós e para o mundo à nossa volta. Olhamos para o amor crucificado e entregue na cruz, e olhamos para o nosso coração e para o coração desta nossa humanidade ainda tão marcado pelo pecado e pela morte. Marcada pela guerra, pela mentira, pelo ódio. E não podemos deixar de pedir ao Senhor que nos dê a graça de continuarmos, como seus discípulos amados, a acolher, junto com sua Mãe, o amor até ao fim que é o próprio Senhor Jesus, para que um dia, cada um de nós e o mundo inteiro possa também, com verdade, fazer suas as mesmas palavras de Jesus: “Tudo está consumado”.