A Sé do Funchal acolheu, na Quinta-Feira Santa, dia 2 de abril, a Missa da Ceia do Senhor, celebração que marca o início do Tríduo Pascal e faz memória da instituição da Eucaristia.
A celebração foi presidida pelo bispo do Funchal, D. Nuno Brás, e integrou, como é tradição, o rito do lava-pés. O prelado repetiu o gesto de humildade de Jesus na Última Ceia, lavando os pés a 12 irmãos da Confraria do Santíssimo da Sé.
Na homilia, D. Nuno Brás destacou o significado profundo desta celebração, sublinhando que ela pode ser entendida como a “celebração do amor até ao fim”, evocando as palavras do Evangelho: “Ele que amara os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim”.
O bispo explicou que esta expressão pode ser compreendida como um amor vivido “até ao final da sua vida”, “obra de um amor que não cansa nem se cansa”, “mesmo abandonado pelos seus, sem qualquer retribuição humana”, mas também como um amor levado “até ao maior grau em que é pensável viver o amor”, isto é, “até ao grau mais alto do amor”. Em Jesus, afirmou, revela-se o “amor maior”, “aquele amor que servirá doravante de ponto de referência para todo o amor humano”, sendo ao mesmo tempo “amor do Homem verdadeiro” e “amor do Deus verdadeiro”.
Ao longo da reflexão, o prelado evidenciou que toda a Paixão de Cristo é marcada por este amor: “amor até ao fim é a Última Ceia, com o gesto quase sacramental do lava-pés”, “amor até ao fim são as palavras que Jesus dirige aos seus”, “amor até ao fim são todos os sofrimentos destes dias: os escárnios, os açoites, aquela coroa de espinhos”, “amor até ao fim é o perdão de Pedro”, “amor até ao fim é o caminho para a cruz”, “amor até ao fim são os sofrimentos do Crucificado” e “amor até ao fim é a própria morte e a ressurreição gloriosa”.
Sublinhando a dimensão concreta deste amor, D. Nuno Brás afirmou que Jesus “não nos dá uma definição de amor”, nem “o descreve como um professor ensina o aluno”, mas antes “ama de um modo radical, incondicional e final”. “Jamais surpreendemos em Jesus qualquer atitude que não encontre a sua razão de ser no amor”, acrescentou, frisando que “em Jesus o amor está na raiz de todo o seu ser”.
O prelado destacou ainda que em Cristo “tudo é obediência ao Pai”, “tudo é acolhimento filial da sua vontade” e “tudo nele é motivado pela salvação daqueles que encontra no seu caminho”. Por isso, sublinhou, “em Jesus não existem ‘ses’ nem ‘mas’”, pois “Jesus ama simplesmente”, tomando “a iniciativa de amar todos quantos vê”, deixando que o seu amor “transborde, vença, transforme quantos o acolhem”.
Referindo-se à cruz, o bispo diocesano afirmou tratar-se de uma “decisão de amor, livre”, um “querer amar sempre, sem desfalecer, na certeza da vitória do amor”. Recordando as palavras de Cristo — “Ninguém me tira a vida; sou eu que a dou livremente” — destacou que a morte não é uma fatalidade, mas uma entrega total. “Como poderia Deus dar a vida ao homem se não sofresse a morte?”, questionou, apontando a cruz como expressão suprema do “amor maior”.
O bispo do Funchal apontou também a Eucaristia como expressão máxima deste amor que permanece: “que é a Eucaristia senão este mesmo amor, tornado concreto, visível, saboreável, amável?”, sublinhando que este sacramento é “alimento, libertação, doação, entrega até ao fim que resume em si o mundo, o cosmo, a história”.
Sublinhando a grandeza deste mistério, acrescentou que este amor permanece “como presença, atitude, decisão eficaz de alimentar, de dar a vida ao mundo inteiro”, mostrando que o amor de Cristo continua a agir na história e na vida dos fiéis.
A concluir, deixou um apelo à conversão e à vivência deste mistério: “Deixemo-nos vencer, alimentar, conduzir pela Eucaristia, presença do Senhor no meio de nós”, para que, “derrotando o nosso pecado com o amor que Ele nos oferece e ensina”, também os cristãos se deixem “transformar, converter, vivificar, alimentar por Ele” e aprendam a viver o verdadeiro “amor até ao fim”.
A Missa da Ceia do Senhor assinala o início das celebrações centrais da fé cristã, que culminam na Vigília Pascal, celebrando a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo.












Leia na íntegra a homilia do bispo do Funchal:
QUINTA-FEIRA SANTA
Missa da Ceia do Senhor
Sé do Funchal, 2 de Abril de 2026
A decisão do Amor “até ao fim”
1. “Ele que amara os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim”. A celebração que agora nos é dado viver, bem a podíamos chamar a “celebração do amor até ao fim”.
Sabemos como os estudiosos da Sagrada Escritura se interrogam sobre o que significa este “amou-os até ao fim” (eis telos égapésen autou). Com efeito, ele pode significar “até ao final da sua vida”, afirmando que toda a existência de Jesus foi conduzida pelo amor aos seus discípulos que estavam no mundo e que, por isso, também a sua morte é obra de amor — obra de um amor que não cansa nem se cansa, poderíamos nós dizer; obra de um amor que, mesmo abandonado pelos seus, sem qualquer retribuição humana, persiste em ir até ao fim da sua existência; obra do amor que está seguro de vencer a morte e que, por isso, não desiste, mesmo quando é vítima da maior injustiça.
Mas “até ao fim” pode, igualmente, significar “até ao maior grau em que é pensável viver o amor”; até ao grau mais alto do amor. Em Jesus descobrimos o “amor maior” — aquele amor que, por isso mesmo, servirá doravante de ponto de referência para todo o amor humano. Porque sendo amor do Homem verdadeiro é, também, amor do Deus verdadeiro.
2. Como quer que seja — e as duas acepções podem ser consideradas em conjunto porque, de facto, não se contradizem — aquela afirmação de S. João (“amou-os até ao fim”) apresenta o amor como a categoria de interpretação de toda a Paixão do Senhor. Ali, nos acontecimentos da Paixão, encontramos o amor vivido, o amor testemunhado, o amor que salva.
“Amor até ao fim” é, portanto, a Última Ceia, com o gesto quase sacramental do Lava-pés e a instituição do sacramento eucarístico; amor até ao fim são as palavras que Jesus dirige aos seus no Getsémani, como testamento, discurso de despedida; amor até ao fim são todos os sofrimentos destes dias: os escárnios, os açoites, aquela coroa de espinhos; amor até ao fim é o perdão de Pedro e da sua traição; amor até ao fim é o caminho para a cruz por entre a multidão que vive, sem disso estar consciente, o momento central da história do universo; amor até ao fim são os sofrimentos do Crucificado, a entrega do discípulo a sua mãe e a entrega da mãe ao discípulo; amor até ao fim é a “entrega do Espírito” ao Pai e aos homens; amor até ao fim é a própria morte e a ressurreição gloriosa.
Todos esses momentos finais da sua existência terrena são vividos por Jesus no amor e por amor — e, mostrando desse modo em que consiste o amor, são vividos para nos dar a possibilidade de, também nós (existências marcadas pelo desamor), aprendermos com Ele a amar e a tomarmos a decisão do amor, do amor até ao fim. Jesus não nos dá uma definição de amor; não o descreve como um professor ensina o aluno; Ele ama de um modo radical, incondicional e final. E isso basta.
Na verdade, em Jesus o amor está na raiz de todo o seu ser. Jamais surpreendemos em Jesus qualquer atitude que não encontre a sua razão de ser no amor. Nele, tudo é obediência ao Pai, acolhimento filial da sua vontade, disponibilidade para o pôr em prática. Porque “Deus amou tanto o mundo que lhe deu o seu Filho unigénito” (Jo 3,16). Tudo em Jesus é esquecimento de si; tudo nele é motivado pela salvação daqueles que encontra no seu caminho, a quem se dirige ou que o procuram.
Em Jesus, o amor não coloca quaisquer condições. Jesus não faz depender as suas atitudes da correspondência dos discípulos ou do amor das multidões. Em Jesus não existem “ses” nem “mas”. Jesus toma a iniciativa de amar todos quantos vê, mesmo aqueles que não se encontram ali presentes mas para quem é pedida a salvação; Jesus ama simplesmente, e o seu amor transborda, vence, transforma quantos o acolhem.
Em Jesus, o amor é princípio e fim. Esse modo de viver não é um simples meio, um instrumento para obter a realização de um desejo, para chegar a um objectivo. É, se quisermos, “o caminho, a verdade e a vida”: o amor é o ambiente que Jesus respira, aquilo que O anima; o dinamismo transformador e salvador da humanidade, da história. Em Jesus, o amor liberta porque é radicalmente livre. Por isso, o mandamento novo que o Senhor deixou aos seus consiste simplesmente no amor: no amor a Deus e no amor ao próximo.
É o amor que se manifesta na cruz, até ao final, o “amor maior” (“Ninguém tem maior amor que aquele que dá a vida pelos seus amigos”). Jesus dá a sua vida na cruz (“Ninguém me tira a vida; sou eu que a dou livremente”). A sua morte de cruz não é uma fatalidade a ser evitada a todo o custo; é uma decisão de amor, livre, um querer amar sempre, sem desfalecer, na certeza da vitória do amor. Por isso é uma decisão abraçada com amor: como poderia Deus dar a vida ao homem se não sofresse a morte, a consequência maior do pecado? Só desse modo a vida divina poderia ser oferecida ao homem mortal e a morte poderia ser derrotada, transformada em vida. Esse é o amor maior, aquele que está para além de quanto poderíamos nós pensar, imaginar e (muito menos) desejar ou exigir, reivindicar como salário, pagamento de qualquer mérito: como poderia alguém exigir que Deus morresse em seu nome, por si?
3. Apenas algo poderia ser pensado de maior que este acontecimento da Paixão, em que Deus manifesta o seu amor por cada um de nós e por todos: que esse amor permanecesse até ao fim dos tempos, como presença, atitude, decisão eficaz de alimentar, de dar a vida ao mundo inteiro — mostrando, desse modo, que “amor até ao fim” é, também, o amor com que ali, naquele momento da cruz, Jesus assume e faz seus os sofrimentos, as dores, a morte de toda a humanidade desde o seu início ao seu final. E mesmo esse “maior” acima do qual nada mais pode ser pensado (e que, por isso, traz consigo o sinal divino), mesmo esse maior Ele no-lo dispensa como Pão partido, Eucaristia, alimento.
De verdade, que é a Eucaristia, o sacramento instituído pelo Senhor antes de padecer, para que a sua morte fosse entendida não como derrota mas como alimento, libertação, doação, entrega até ao fim que resume em si o mundo, o cosmo, a história; que é a Eucaristia senão este mesmo amor, tornado concreto, visível, saboreável, amável?
“Ele, que amara os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim”. Deixemo-nos, irmãos, vencer, alimentar, conduzir pela Eucaristia, presença do Senhor no meio de nós, para que derrotando o nosso pecado com o amor que Ele nos oferece e ensina, também nós nos deixemos transformar, converter, vivificar, alimentar por Ele.
[atualizado 7.4.2026 às 15h]























