“Cumpriu-se hoje mesmo a palavra da Escritura que acabais de escutar”: foi com esta afirmação de Jesus que o bispo do Funchal desafiou os sacerdotes da diocese a redescobrirem a centralidade de Cristo nas suas vidas e ministério, numa interpelação direta à fidelidade e à identidade sacerdotal.
O desafio foi feito esta quinta-feira, dia 2 de abril, na Missa Crismal a que o prelado presidiu na Sé do Funchal, celebração durante a qual se procedeu à bênção e consagração dos santos óleos e à renovação das promessas sacerdotais.
Na presença da quase totalidade do presbitério da diocese, D. Nuno Brás sublinhou que o “hoje” da salvação continua a cumprir-se na vida da Igreja e, de modo particular, através do ministério dos sacerdotes, chamados a ser sinal vivo de Cristo no meio do povo. “Jesus apresenta-se clara e definitivamente” como Aquele sobre quem repousa o Espírito, afirmou, explicando que Deus “vem ao nosso encontro, revela-se, propondo-se à nossa liberdade para que esta se decida a entrar no caminho da salvação”.
O prelado reforçou que em Cristo se cumpre toda a promessa: “Não é apenas a passagem de Isaías que se cumpre em Jesus: nele, é toda a Escritura que plenamente se realiza”, acrescentando que Ele é Aquele que o Antigo Testamento aguardava “mais que a sentinela espera pela aurora”. Por isso, insistiu, “não é nunca demais olhar para Jesus”, nem “contemplar nele a realização da Promessa”, procurando sempre “n’Ele o centro do nosso viver e a meta do nosso peregrinar”.
Sublinhando a identidade e missão da Igreja, recordou ainda que “a Igreja tem consciência de que o seu tempo não tem outra verdadeira novidade que não aquela única e autêntica notícia que é Jesus, o Deus feito homem”. E acrescentou: “O Evangelho que a Igreja proclama é o Evangelho de Jesus” e “a fé acreditada e proclamada hoje é a mesma que os Apóstolos ensinaram”, ainda que crescida “em aprofundamento, em consciência, em maturidade”.
D. Nuno Brás, que nesta celebração recordou os sacerdotes falecidos e aqueles que se encontram doentes neste momento, destacou também que este “hoje divino” continua presente na vida da Igreja: “Em nós e por nosso intermédio, instrumentos insuficientes e fracos, se realiza, no nosso tempo, o admirável mistério da salvação”, afirmou, convidando todos a tomar consciência deste mistério e a maravilhar-se com ele.
Neste contexto, o bispo diocesano apelou aos sacerdotes para que não se deixem definir pelo peso das tarefas ou pela pressão dos resultados, mas antes pela configuração a Cristo, alimentada por uma relação viva com Ele. “Não se trata de inventar novos modelos, mas de repropôr, com renovada intensidade, o sacerdócio na sua essência mais autêntica”, afirmou, insistindo que o essencial é, como disse o Santo Padre Leão XIV, “ser e viver como ‘outro Cristo’, com tudo o que isso implica”.
Na mesma linha, acrescentou que o verdadeiro testemunho passa por tornar Cristo visível no quotidiano: “Procurar que, quando nos encontra pela rua ou nas igrejas, o povo de Deus perceba que está a encontrar Cristo”, disse, reconhecendo tratar-se de uma “tarefa imensa”, mas possível pela graça de Deus.
Num contexto cultural marcado por mudanças e desafios, o bispo reconheceu que hoje “as palavras já não carregam o mesmo significado” e que “a proclamação inicial já não pode ser tomada como certa”. Ainda assim, manifestou esperança ao sublinhar que “uma nova inquietação está a agitar o coração de muitas pessoas, especialmente dos jovens”.
Por isso, incentivou o clero a não desanimar perante fragilidades ou insucessos, lembrando que é precisamente através de instrumentos frágeis que Deus continua a agir no mundo. “Mesmo com todas as derrotas e vicissitudes, mesmo apesar do nosso pecado, não temos o direito de baixar os braços”, afirmou.
Exortando a uma renovada entrega, convidou os sacerdotes a perseverarem na missão de apascentar o povo de Deus: “Continuemos a oferecer-lhe os dons sacramentais que conduzem à salvação” e “continuemos a apascentar o povo que nos foi confiado, rezando com ele e por ele”, apelou.
A concluir, deixou um convite à disponibilidade total e confiante: “Abracemos, com renovada confiança e ardor, a missão de tornar presente a Cristo”, recordando que a única resposta possível ao chamamento é aquela que marca a vida sacerdotal: “Eis-me aqui, Senhor!”.
A celebração da Missa Crismal constitui um dos momentos mais significativos da vida diocesana, reunindo o clero em torno do seu bispo e evidenciando a unidade da Igreja, ao mesmo tempo que renova o compromisso de todos na missão de tornar Cristo presente no mundo.













Leia na íntegra a homilia de D. Nuno Brás:
QUINTA FEIRA SANTA — MISSA CRISMAL
Sé do Funchal, 02 de Abril de 2026
1. “Cumpriu-se hoje mesmo a passagem da Escritura que acabais de ouvir”: com esta afirmação, Jesus apresenta-se aos seus conterrâneos — eles que o conheciam desde a infância, mas que se mostraram incapazes de O reconhecer como Messias.
Jesus apresenta-se clara e definitivamente, para que O possam reconhecer como Aquele sobre quem repousa o Espírito Santo. Apresenta-se para que também os seus possam entrar no dinamismo da Nova Aliança. É assim a misericórdia do Senhor: vem ao nosso encontro, revela-se, propondo-se à nossa liberdade para que esta se decida a entrar no caminho da salvação.
Não é apenas a passagem de Isaías, acabada de ser proclamada, que se cumpre em Jesus: nele, é toda a Escritura que plenamente se realiza (Mt 5,17). Jesus é Aquele de quem todo o Antigo Testamento fala, a quem a Antiga Aliança aguarda “mais que a sentinela espera pela aurora” (Sl 130,6); Aquele que, agora, na “plenitude dos tempos”, o próprio Pai atesta e apresenta como salvador e redentor.
Não é nunca demais olhar para Jesus. Não é nunca demais contemplar nele a realização da Promessa, a sobreabundância do Espírito, a presença da glória divina, ainda que resplandecendo na humilhação e concretude da carne humana. E nunca é demais procurar em Jesus o centro do nosso viver e, ao mesmo tempo, a meta do nosso peregrinar. Afinal, a vida cristã mais não é que procuramos reconhecer-nos, identificarmo-nos cada vez mais com Ele.
2. Foi o próprio Senhor quem ensinou os seus discípulos a entender-se desse modo, como um prolongamento da missão que Ele tinha recebido do Pai: “Quem vos escuta é a mim que escuta, e quem vos rejeita é a mim que rejeita; mas quem me rejeita, rejeita Aquele que me enviou” (Lc 10,16). Por isso, a Igreja tem consciência de que o seu tempo não tem outra verdadeira novidade que não aquela única e autêntica notícia que é Jesus, o Deus feito homem.
Da Galileia e da Judeia, a Igreja espalhou-se pelo mundo. Hoje está presente em todos os continentes; ultrapassou séculos, crises, vicissitudes. Apesar de constituída por pecadores, foi sempre capaz de acolher e expressar a santidade daquele que é a sua cabeça e razão de ser, não tanto por causa das suas capacidades mas por causa do Espírito Santo que a habita e que nela encontra a sua morada. Por isso, o Evangelho que a Igreja proclama é o Evangelho de Jesus; o anúncio que ela realiza hoje, ainda que através de diferentes instrumentos, é o mesmo que o da Igreja dos tempos apostólicos; a fé acreditada e proclamada hoje é a mesma que os Apóstolos ensinaram tal como receberam do Senhor: cresceu em aprofundamento, em consciência, em maturidade, mas é a mesma fé apostólica.
O cumprimento das Escrituras que admiramos em Jesus continua hoje no seu Corpo que é a Igreja. E desse cumprimento — desse “hoje divino” — devemos todos nós, Igreja funchalense, tomar também consciência. E, com ele, nos devemos igualmente maravilhar. Em nós e por nosso intermédio, instrumentos insuficientes e fracos, se realiza, no nosso tempo, o admirável mistério da salvação.
Nisto mesmo, aliás, consiste a liturgia da Igreja: mergulhar em cada dia no acontecimento da salvação, deixar que ele inunde os tempos e os lugares, as vidas, de forma a que todos se encham com a graça divina: graça a oferecer-se, a jorrar, a transbordar a partir daquele acontecimento único que é o próprio Jesus.
3. Como Igreja que peregrina nestas Ilhas do Atlântico, maravilhamo-nos por percebermos Deus a actuar hoje na nossa história, na vida concreta das nossas comunidades, das nossas famílias, dos nossos cristãos. Mas, como sacerdotes, ficamos ainda mais surpreendidos, ao percebermos como esse hoje divino nos tem a nós por instrumentos.
Escrevendo ao presbitério de Madrid, o Papa Leão, começava por reconhecer que, nos nossos dias, “o Evangelho encontra não apenas indiferença, mas também um panorama cultural diferente, no qual as palavras já não carregam o mesmo significado e onde a proclamação inicial já não pode ser tomada como certa”. Mas logo acrescentava: “Contudo, esta descrição não capta na totalidade o que realmente está a acontecer. Estou convencido — e sei que muitos de vocês percebem isso no exercício diário do vosso ministério — que uma nova inquietação está a agitar o coração de muitas pessoas, especialmente dos jovens”.
E logo o Santo Padre apresentava aos sacerdotes madrilenos o modelo de padre para este nosso tempo: “Certamente — dizia ele — não homens definidos por uma multidão de tarefas ou pela pressão de resultados, mas homens configurados a Cristo, capazes de sustentar o seu ministério por meio de uma relação viva com Ele, alimentada pela Eucaristia e expressa numa caridade pastoral marcada pela doação sincera de si. Não se trata de inventar novos modelos ou redefinir a identidade que recebemos, mas derepropôr, com renovada intensidade, o sacerdócio na sua essência mais autêntica — ser alter Christus — permitindo que Ele molde as nossas vidas, una os nossos corações e dê forma a um ministério vivido a partir da intimidade com Deus, da dedicação fiel à Igreja e do serviço concreto ao povo que nos foi confiado”.
Ser e viver como “outro Cristo”, com tudo o que isso implica: eis o que torna apaixonante o nosso ministério. Procurar que, quando nos encontra pela rua e nas igrejas, o povo de Deus ou qualquer transeunte perceba que está a encontrar Cristo! Tarefa imensa, que por nós seríamos incapazes de cumprir, mas que a graça sacramental não só nos permite como quase nos obriga!
Olhamos à nossa volta, e somos quotidianamente surpreendidos pelo hoje divino da salvação. Olhamos para nós e percebemos que é através das nossas mãos e do nosso ser que este “hoje” se torna presente, actuante, na Igreja e no mundo. Mesmo com todas as derrotas e vicissitudes; mesmo com todas as incapacidades; mesmo apesar do nosso pecado, não temos o direito de baixar os braços, de desistir de Deus e da missão que Ele nos confiou e confia.
“Cumpriu-se hoje mesmo a palavra da Escritura que acabais de escutar”. De coração cheio e grato, continuemos a apascentar o povo que nos foi confiado, rezando com ele e por ele; continuemos a oferecer-lhe os dons sacramentais que conduzem à salvação; sejamos para ele guias da fé neste mundo de turbulenta indefinição. Abracemos, com renovada confiança e ardor, a missão de tornar presente a Cristo.
“Alter Christus”: desafio enorme e apaixonante, que não nos admite outra resposta a não ser aquela que pronunciámos no dia da nossa ordenação: “Eis-me aqui, Senhor!”.























