Bispo do Funchal desafia fiéis a viverem Semana Santa como “verdadeiros discípulos” 

Foto: Duarte Gomes

O Funchal assinalou, na manhã de domingo, 29 de março, o início da Semana Santa com a celebração do Domingo de Ramos na Sé, presidida por D. Nuno Brás, que desafiou os fiéis a assumirem-se como verdadeiros discípulos de Cristo.

De resto, “como discípulos, somos chamados a entrar no dinamismo pascal e a estar com Cristo nos mistérios da sua morte e ressurreição”, afirmou o prelado, na homilia, sublinhando que esta celebração é “um autêntico pórtico” que introduz os crentes nos dias centrais da fé cristã. 

Este Domingo, explicou, “fala, sobretudo, a nós que procuramos ser presentes aos mistérios da morte e ressurreição do Senhor”, acrescentou a propósito o bispo do Funchal.

O bispo diocesano recordou ainda que os discípulos foram chamados por Jesus “a partilhar a sua existência — a aprender, a ver, a escutar e a crescer interiormente”, frisando ainda que “foram chamados a ser a Sua continuação, a ser Igreja, presença viva do Verbo feito carne ao longo dos tempos”.

Mas não escondeu as fragilidades humanas presentes nos momentos decisivos da Paixão: “Nestes momentos últimos, os discípulos mostram a sua incapacidade: estão sonolentos, traem, negam, fogem”. E acrescentou: “Apenas algumas mulheres, ao longe, permanecem, enquanto o pânico toma conta dos restantes”.

Segundo o prelado, esta realidade revela também os limites da compreensão humana diante do mistério de Cristo: “O Deus feito Homem ultrapassa sempre o engenho humano, pequeno e inclinado para o mal, incapaz de acolher plenamente a novidade de vida que o Senhor propõe”. Por isso, destacou, “aos discípulos faltava ainda o Espírito Santo, que haveria de completar neles a iniciação à vida cristã”.

Ainda assim, D. Nuno Brás apontou que essa fragilidade pode ser também fonte de esperança: “Se, por um lado, esta incapacidade nos conforta, por outro, a nós que já recebemos o Espírito da verdade, exige humildade”. E reforçou: “É necessário pôr de lado qualquer orgulho ou soberba para viver como verdadeiros discípulos”.

Na reflexão sobre as leituras, o prelado destacou a figura do Servo de Deus como modelo: “Foi o Mestre quem nos chamou, e ser discípulo é uma verdadeira graça”. Sublinhou ainda a dimensão missionária: “Fomos chamados para dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos”.

O bispo do Funchal evidenciou também a importância da escuta da Palavra: “É o próprio Senhor que, em cada manhã, desperta os nossos ouvidos para escutar como escutam os discípulos”. E acrescentou: “Só assim a Palavra se torna alimento quotidiano e força para o nosso existir”.

Referindo-se às dificuldades e provações, citou: “Mesmo quando enfrentamos difamações, insultos ou sofrimento, o discípulo permanece firme”. E reafirmou a confiança: “Mas Deus veio em meu auxílio. Sei que não ficarei desiludido”. “Esta é a certeza de quem não vive por iniciativa própria, mas da missão recebida de Deus”, acrescentou.

Na parte final da homilia, evocando o hino da Carta aos Filipenses, o bispo do Funchal apresentou Cristo como o modelo supremo: “Jesus assume a atitude de Filho obediente, esvazia-Se de si mesmo e desce à nossa condição”. E continuou: “Por isso, Deus o exaltou e lhe deu o nome que está acima de todos os nomes”.

“Este é o caminho pascal que somos chamados a viver — o caminho do Servo, o caminho do discípulo, o caminho de Jesus”, afirmou o prelado, convidando os fiéis a uma vivência mais profunda da Semana Santa.

Concluindo, deixou um apelo claro: “Disponhamo-nos a ser verdadeiros discípulos do Senhor”. E finalizou: “Aprendamos d’Ele, escutemos como escutam os discípulos e anunciemos a todos a sua salvação, para transformar esta humanidade numa humanidade de discípulos de Jesus”.

A anteceder esta Eucaristia teve lugar a Bênção dos Ramos na Igreja do Colégio, seguindo-se a procissão até à Sé. À entrada de ambos os templos, onde acorreram muitos fiéis, podiam-se adquirir os ramos.

 

Leia na íntegra a homilia de D. Nuno Brás:

DOMINGO DE RAMOS DA PAIXÃO DO SENHOR

Sé do Funchal, 29 de março de 2026

“Como discípulos”

1. Podemos dizer que o Domingo de Ramos na Paixão do Senhor nos surge no início da Semana Santa como um autêntico pórtico: convida-nos a entrar no dinamismo pascal dos dias que se aproximam. Assim sendo, este Domingo fala, sobretudo, aos discípulos — a nós que, como discípulos de Jesus, procuramos ser presentes aos mistérios da morte e ressurreição do Senhor.

Os discípulos foram chamados por Jesus para estar com Ele. Foram chamados a partilhar a sua existência — a aprender, a ver, a escutar, a viver, a questionar e a crescer interiormente na sua identificação com o Senhor — de modo a que pudessem ser a Sua continuação, quer dizer: de modo a que pudessem ser a Igreja, a presença, a extensão do Verbo feito carne ao longo dos tempos e em todos os lugares.

No entanto, nestes momentos últimos, decisivos, os discípulos dão mostras de não conseguirem perceber os acontecimentos: estão sonolentos, traem, negam, fogem, são tomados pelo pânico. Apenas umas mulheres, ao longe, vão acompanhando o Senhor.

Imaginamos como difícil terá sido para os discípulos entender Jesus, não tanto por causa dos poucos estudos ou do pouco talento natural, mas, sobretudo, porque o Deus feito Homem ultrapassava de sobremaneira as capacidades, o engenho humano, sempre pequeno, estreito de pensamento e coração, inclinado para o mal — incapaz, no fundo, de acolher plenamente a vida nova, o novo modo de existir que o Senhor lhes propunha.

Sabemos que assim foi porque, sobretudo, aos discípulos lhes faltava o Espírito Santo, que iria terminar neles a iniciação à vida cristã recebida enquanto conviveram com Jesus — o Espírito que os haveria de assistir no resto da sua vida, em particular nos momentos de combate decisivo. 

O facto que ressalta, no entanto, é esta incapacidade natural dos discípulos. Se, por um lado, ela nos conforta, por outro (a nós que já recebemos o Espírito da verdade) faz-nos sentir bem mais pequenos, requerendo em nós a humildade que é própria dos discípulos, pondo de lado qualquer orgulho ou soberba.

2. Não certamente por acaso, a Iª Leitura nos mostra a figura do Servo de Deus como um discípulo. Foi à sua luz que Jesus quis interpretar a sua própria existência. Começava este Canto do Servo por nos convidar a tomar consciência de que foi o Mestre quem nos chamou; que ser discípulo de tal Mestre é uma verdadeira graça; e que nos chamou para uma missão: sermos capazes de dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos.

A leitura recordava ainda como, naquele que se dispõe a ser discípulo do próprio Deus, esta condição se torna algo de permanente, que o próprio Senhor activa em cada manhã, despertando diariamente os nossos ouvidos “para escutar como escutam os discípulos” — quer dizer: para fazer da Palavra escutada o alimento quotidiano, a força e dinamismo do nosso existir.

Apenas deste modo (escutando como escutam os discípulos), toda a nossa vida pode ser animada pela palavra divina e receber dela a força para se apresentar firme na missão que nos foi confiada, mesmo quando é necessário sofrer as difamações — os açoites infligidos pelas costas, ou os insultos e escárnios, recebidos no rosto.

“Mas Deus veio em meu auxílio. Sei que não ficarei desiludido”.  Esta é, também, a certeza do discípulo: se não trabalha por sua iniciativa, por conta própria; se a sua missão foi recebida de Deus, então receberá, igualmente, a força, a assistência divina para a desempenhar até ao fim, com a certeza de não ficar desiludido.

3. Aliás, o próprio Jesus, na sua missão salvadora, assume a atitude de discípulo, de Filho obediente, de acordo com o hino da Carta aos Filipenses que escutámos como IIª Leitura. 

Enviado pelo Pai para a obra de salvação, Jesus como que se esqueceu da sua condição divina: esqueceu-se de quem era e dos seus direitos de Primogénito, para descer à nossa condição de criaturas e de pecadores, identificando-se com todos e com cada um, ao ponto de experimentar a morte. “Por isso, continua o Hino de Filipenses, Deus o exaltou e lhe deu o nome que está acima de todos os nomes”. Por isso, à sua visão todos os joelhos se hão-de dobrar na terra e acima da terra.

É este o caminho pascal que, ao longo de toda a nossa vida (mas em particular nesta semana que agora se inicia) o Pai nos convida a viver. É o caminho do Servo, do discípulo. É o caminho de Jesus, Ele que tudo aprende e recebe do Pai. É o caminho da salvação — da nossa salvação e da salvação do mundo.

Disponhamo-nos a ser verdadeiros discípulos do Senhor. A aprender dele, a escutar como escutam os discípulos, para podermos proclamar a todos a sua salvação — quer dizer: para transformarmos esta nossa humanidade de orgulhosos egoístas, numa humanidade de verdadeiros discípulos de Jesus.