Ao longo deste mês participei nos ensaios e nas gravações do Ofício de Leituras e de Laudes de Sexta-Feira Santa e de Sábado Santo, com o Coro de Sacerdotes da Diocese do Funchal. A música, elaborada pelo Pe. Ignácio Rodrigues, que também acompanhou ao órgão estas orações, deu profundidade aos salmos e textos que a Igreja guarda como um tesouro nos dias mais santos do ano. Entre a paróquia de Santo Amaro e o estúdio “Paulo Ferraz”, as antífonas, os hinos e os responsórios do Tríduo Pascal ajudaram-me a entrar de forma mais intensa no mistério da Paixão do Senhor.
A Igreja sempre reconheceu ao canto litúrgico um lugar único. O Concílio Vaticano II recorda que a tradição musical da Igreja é um “tesouro de inestimável valor” e que o canto sagrado, intimamente unido ao texto, é parte integrante da própria liturgia. Por isso, cantar o Ofício não é apenas uma forma diferente de rezar mas é rezar de modo mais pleno, mais profundo e mais eclesial.
É neste horizonte que se compreende a fórmula tantas vezes associada a Santo Agostinho: “Quem canta reza duas vezes”. O bispo de Hipona, que confessou quanto chorava ao ouvir os hinos e cânticos da Igreja, testemunha bem esta verdade espiritual: no canto, a oração parece descer mais fundo e alcançar com maior intensidade a inteligência, a memória e o coração. Também Bento XVI, evocando Santo Agostinho, recordou que o canto é sinal de amor. Cantar, na liturgia, é deixar que a fé ganhe voz e que a Palavra de Deus ressoe em todo o nosso ser.
Mas esta experiência quaresmal ficou marcada por outro elemento particularmente marcante: a oportunidade de rezar cantando com irmãos no sacerdócio. Cada um com o seu timbre, cada um com a sua sensibilidade, cada um com as notas do seu naipe. Todos chamados a formar uma só harmonia. O essencial não estava na uniformidade das vozes, mas na comunhão que delas nascia.
Talvez por isso o canto seja uma das imagens mais felizes da sinodalidade. Nele percebe-se com clareza que a unidade da Igreja não se constrói anulando diferenças, mas integrando-as num mesmo louvor, numa mesma escuta, numa mesma direção. Cantar obriga a escutar, a esperar, a entrar no tempo certo, a não se sobrepor ao outro, a sustentar o conjunto. É uma pedagogia discreta, que levamos para outras áreas da nossa vida.
Para mim, esta Quaresma ficou marcada por uma grande graça. Através dos ensaios e das gravações, a oração tornou-se mais profunda, mais fraterna e mais consciente do mistério celebrado. Espero que a disponibilização da nova edição do livro de música, assim como a gravação em suporte digital, possa ajudar outros a aproximarem-se mais deste mistério, a rezá-lo com a Igreja e a descobrir, na beleza do canto litúrgico, um caminho de comunhão com Deus e com os irmãos.
























