Dia Mundial da Poesia: Cardeal Tolentino defende poesia como instrumento de paz

No Dia Mundial da Poesia, o prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação da Santa Sé, sublinha o valor da arte, da educação e da esperança perante um contexto internacional conturbado

Foto: Vatican News

No Dia Mundial da Poesia, assinalado este sábado, 21 de março, o cardeal José Tolentino de Mendonça afirmou, em entrevista ao Vatican News, que a poesia pode desempenhar um papel essencial na construção da paz e na formação humana. O prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação apresentou a poesia como uma linguagem de abertura, de hospitalidade e de esperança, capaz de resistir à lógica do fechamento e da fatalidade.

Ao longo da conversa, o cardeal português defendeu que a poesia ultrapassa fronteiras culturais e linguísticas, promovendo uma visão mais ampla do mundo e da condição humana. “A poesia é uma arte da esperança porque nos ajuda a perceber que temos necessidade de todas as palavras, de todos os vocabulários, de todas as línguas, para nos podermos avizinhar da poesia do mundo, que é aquela poesia invisível que desde sempre acompanha o homem na sua aventura sobre a terra”, afirmou.

D. Tolentino sustentou ainda que a poesia tem uma dimensão concretamente pacificadora, num tempo marcado por tensões internacionais e divisões sociais. “A poesia está do lado da paz. Porque as palavras da poesia são palavras desarmadas, são palavras onde as perguntas mais despojadas, mas ao mesmo tempo mais essenciais, podem aflorar, podem emergir e constituir um elemento de construção humana das nossas sociedades”, declarou.

Na entrevista, o cardeal sublinhou também a atualidade da poesia numa época dominada pela tecnologia e pelos algoritmos. Na sua perspetiva, o pensamento poético distingue-se por manter uma relação com o futuro e com a possibilidade, ao contrário dos sistemas que operam sobretudo com base no que já foi vivido e registado. “O algoritmo tem um um pacto com o passado. O poema tem um pacto com o futuro porque trabalha continuamente a possibilidade. Dizer ao ser humano ‘é possível, é possível, é possível’, nesse sentido, a poesia tem uma aliança com a esperança, tem uma aliança com a elaboração da paz. A poesia vai além da declaração fatalista de que é impossível. O algoritmo é um mapa dos passos percorridos. O poema é um mapa dos caminhos a percorrer”, disse.

O responsável do Vaticano para a Cultura e a Educação associou ainda a poesia à formação do olhar, da escuta e da sensibilidade, evocando autores como Rilke e Fernando Pessoa. Segundo explicou, a literatura e a poesia ajudam a captar aquilo que não é imediatamente visível nas palavras, mas que se revela decisivo na experiência humana. Nesse contexto, recordou também uma ideia frequentemente defendida pelo Papa Francisco sobre o valor da literatura e da poesia na formação sacerdotal.

“Penso em poetas como Rilke, penso em poetas como Fernando Pessoa, que nos ajudaram a olhar do limiar, a escutar aquilo que nas palavras à primeira vista não está presente, mas que depois se torna decisivo que é a experiência do mistério. Por isso, o Papa Francisco dizia muito bem quando recomendava que a literatura e a poesia poderiam servir muito na formação sacerdotal, porque educam os sentidos, educam o olhar, educam o ouvido para uma hospitalidade mais profunda do mundo e para uma cartografia do ser humano, do mistério do ser humano. A poesia sabe o que é o coração do homem”, afirmou.

Na parte final da entrevista, Tolentino de Mendonça destacou o papel da educação no desenvolvimento integral da pessoa, evocando São John Henry Newman como uma referência neste domínio. Para o cardeal, a poesia, a literatura e a filosofia continuam a ser instrumentos decisivos para ajudar cada pessoa a realizar a sua vocação humana. “O homem não nasce homem. O homem é um tornar-se, e a educação tem um papel muito grande nesta completude, nesta descoberta e maturação da vocação humana”, concluiu.