Comissão Nacional Justiça e Paz propõe Quaresma de escuta, jejum e comunhão

Reflexão de 2026 apela à proximidade com Deus, com os outros e com a natureza

A Comissão Nacional Justiça e Paz afirma, na sua reflexão quaresmal de 2026, que este tempo litúrgico deve ser vivido como “um caminho de proximidade com Deus, entre nós e com a natureza”, a partir de três eixos centrais propostos pelo Papa Leão XIV: escutar, jejuar e caminhar juntos.

No texto enviado à redação do Jornal da Madeira, a comissão sustenta que a escuta da Palavra de Deus não pode ficar limitada à dimensão espiritual, devendo antes conduzir a uma resposta concreta perante o sofrimento, a injustiça e as várias formas de exclusão social. “A escuta da Palavra leva-nos à escuta das necessidades de quem sofre, dos mais necessitados, dos que vivem nas periferias e misérias incontáveis, leva-nos a experienciar a proximidade feita dor libertadora”, lê-se, questionando: “Ainda estamos a viver os dramas que assolaram algumas regiões do nosso país. Vivemos mil e um dramas. Mas onde chegou a nossa prática?”.

A reflexão destaca, neste contexto, a situação dos pobres, dos imigrantes, das vítimas de violência gratuita, da exploração laboral e de discursos ofensivos, incluindo os de cariz racista. O documento questiona até que ponto a sociedade tem sabido transformar a escuta em ação efetiva, sobretudo perante dramas humanos e sociais muitas vezes invisíveis.

Numa referência às tragédias recentes, o texto assinala que “as tragédias climáticas que nos assolaram carregam gritos clamando respostas a quem ficou sem telhado, sem casa, a quem perdeu o sustento porque os locais de trabalho ficaram destruídos” A comissão acrescenta que “também as intempéries e catástrofes naturais requerem a nossa proximidade para colhermos o seu grito”. 

Sobre o jejum, a comissão pergunta: “Do que falamos quando falamos de jejum e abstinência?” e rejeita uma visão apenas exterior ou cultural desta prática quaresmal Citando o Papa Leão XIV, sustenta que o jejum “é útil para discernir e ordenar os ‘apetites’” e que deve manter os fiéis “vigilantes diante da fome e da sede de justiça”. 

O texto concretiza esta ideia ao afirmar que “o jejum e a abstinência podem incarnar-se” nos “julgamentos fáceis”, “nas palavras sem freios” e, por vezes, ofensivas, “despejadas nas redes sociais”, bem como “nas calúnias de quem está ausente”. 

O terceiro eixo da mensagem é “Juntos”, apresentado como “a dimensão comunitária” da caminhada quaresmal. A comissão defende que é “na partilha comunitária que nos estimulamos reciprocamente na caminhada quaresmal” e enquadra este apelo na experiência sinodal da Igreja. 

A reflexão acrescenta que este caminho comum exige “um outro modo de estar, uma outra proximidade feita de comunhão que, pelo amor recíproco, gera a presença de Deus entre nós e nos conduz à Páscoa”. 

Na parte final, a Comissão Nacional Justiça e Paz alarga o olhar ao contexto internacional e lamenta “o ódio transformado em guerras para onde quer que olhemos”, apontando a guerra na Ucrânia, a guerra civil em Myanmar, os conflitos em Moçambique e noutros países de África, bem como “a tragédia da Terra Santa envolvendo Israel e a Faixa de Gaza” e a “Guerra do Irão”. 

Perante esse cenário, deixa uma interpelação: “Precisamos de um ‘nós’ capaz de vencer a guerra” e de, “no meio da escuridão bélica”, oferecer “uma luzerna para a paz”. 

O texto conclui que a Quaresma deve ser encarada não como mera repetição anual, mas como uma oportunidade renovada de conversão, fraternidade e construção de paz.