O desaparecimento da fachada da Capela de Nossa Senhora da Vida, na Fajã do Mar, suscita-me uma dor difícil de explicar. O colapso ocorrido no passado dia 5 de março, diante do olhar de todos, não pode deixar de nos interrogar sobre a importância da salvaguarda do património, sobretudo quando está em causa um lugar de fé. É certo que a natureza é impiedosa e que o tempo tudo desgasta. Mas a Madeira também é exemplo de como o engenho humano pode encontrar respostas perante as forças naturais.
A história desta capela, propriedade do Governo Regional, remonta ao século XVII. Um registo da Câmara Eclesiástica do Funchal, no Livro I das Ermidas (1613-1708), refere que, a 26 de outubro de 1663, o deão dr. Pedro Moreira passou alvará a D. Sara Teixeira, que “tinha edificado hūa ermida da invocação de Nª Sª da Vida na sua quinta da Fajam do Mar da Calheta”, para nela levantar altar, dizer missa e celebrar os ofícios divinos. Esta menção revela que a capela não era um simples edifício isolado, de devoção pessoal, sobre a falésia, mas um lugar sagrado onde se celebrava a Eucaristia e onde marinheiros e pescadores pediam proteção a Nossa Senhora.
Este desfecho não surgiu sem aviso. No final de janeiro já era público o risco elevado em que a Capela de Nossa Senhora da Vida se encontrava. As sucessivas derrocadas, a erosão do talude, a exposição da arriba à ação do mar e dos agentes climatéricos, as dificuldades de acesso e a vulnerabilidade crescente do edifício estavam descritas com clareza. Era conhecido o perigo iminente. Por isso, a situação agora verificada tem também o peso amargo do inevitável que foi sendo anunciado sem que a solução chegasse a tempo.
A Associação de Defesa do Património da Madeira – Genus, exprimiu este sentimento ao falar de “perda irremediável”, de “ferida aberta na identidade cultural” e de um “imperativo ético perante a nossa herança comum”.
O título “Nossa Senhora da Vida” encontra vestígios antigos no continente português, particularmente em lugares como Alcochete, Sobral de Monte Agraço e Granja do Ulmeiro. A própria arte sacra portuguesa conservou essa memória no célebre Retábulo de Nossa Senhora da Vida, painel de azulejos quinhentista de Marçal de Matos, associado à Igreja de Santo André em Lisboa e hoje reconhecido como uma das obras mais notáveis da nossa azulejaria. Isto ajuda a perceber que a Capela da Fajã do Mar não guardava apenas uma devoção insular, mas inscrevia-se numa tradição mariana mais ampla, ligada ao mistério da Encarnação e à proteção da vida.
Uma comunidade revela-se também pela forma como trata os seus sinais mais frágeis. Quando esses marcos se perdem, apaga-se também um pouco da sua história e memória.



















