Fé e tecnologia

D.R.

O documento publicado nesta semana “Quo vadis, humanitas?” (4.3.2026), pela Comissão Teológica Internacional convida a Igreja e a sociedade a olhar com atenção para a crescente relevância das tecnologias digitais na vida humana e na própria experiência religiosa. 

O documento reconhece que as novas tecnologias “oferecem muitas oportunidades às religiões que mobilizam os recursos da comunicação digital ao serviço da sua missão”. Basta pensar na quantidade de celebrações, momentos de oração ou propostas de formação cristã que hoje chegam às pessoas através da internet. A rede tornou-se, sobretudo depois da pandemia, num espaço de procura de sentido, informação e acompanhamento espiritual.

Mas o mesmo ambiente digital pode também gerar ambiguidades. A Comissão Teológica Internacional alerta que a internet pode transformar-se num verdadeiro “mercado religioso”, onde se encontram propostas espirituais escolhidas “à la carte segundo interesses individuais”. A fé corre então o risco de se tornar uma experiência fragmentada, desligada da vida concreta das comunidades e da pertença eclesial que sempre caracterizou o cristianismo.

A reflexão alarga-se ainda ao impacto da inteligência artificial. A Comissão Teológica Internacional recorda que a humanidade se encontra diante de “um imenso potencial” capaz de transformar profundamente áreas como a educação, a saúde, a economia ou a comunicação. No entanto, esta nova etapa tecnológica levanta também questões éticas inéditas, sobretudo quando decisões importantes passam a ser influenciadas por sistemas automáticos baseados em dados e algoritmos.

O verdadeiro desafio está em garantir que o progresso tecnológico permaneça ao serviço da pessoa humana. A inteligência artificial pode ajudar a resolver problemas complexos, mas não pode substituir a consciência moral, a liberdade e a responsabilidade. A dignidade humana não pode ser reduzida a dados, cálculos ou estatísticas. Porque, no fundo, o futuro da humanidade não dependerá apenas da tecnologia que conseguimos criar, mas da sabedoria com que escolhemos utilizá-la.