Esquecer Deus

D.R.

Há dias, ao receber um grupo de seminaristas espanhóis, o Papa Leão XIV fez referência a uma frase do grande pensador inglês G. K. Chesterton, cheia de sentido no início do séc. XX, quando foi escrita, mas, creio, ainda mais evidente neste segundo quartel do século XXI. Dizia Chesterton: “Retirem o sobrenatural, e aquilo que restará será o anti-natural” (Heretics VI).

De facto, muitas vezes se pensa que retirar Deus ao ser humano, educar uma criança sem lhe falar de Deus, sem qualquer ponto de referência a Deus, é educar para viver de um modo simplesmente “natural”. Muitos acham que Deus é como que um fato que esconde, se não mesmo oprime a natureza humana.

Chesterton — e o Papa Leão XIV — pensam o contrário: se retirarmos Deus a alguém, não ficaremos com a natureza pura, mas com o anti-natural, com aquilo que degrada o próprio ser humano. Ou seja: a presença de Deus na nossa vida, a atenção às realidades que nos ultrapassam (a atenção ao que chamamos “Céu”) não é algo que esteja a mais na nossa natureza, mas antes algo sem o qual nos degradamos, nos tornamos menos humanos.

A guerra, com todos os horrores que provoca, é bem a demonstração disso: se não tomamos a sério o mandamento divino “não matarás”, excepto numa situação de legítima defesa, tal esquecimento do mandamento de Deus faz-nos degradar para o desumano — degrada aquele que mata, e degrada na desumanidade todos quantos se encontram à sua volta.

E o Santo Padre comentava: “Quando a nossa relação com Deus se obscurece ou enfraquece, a vida inicia a desordenar-se a partir de dentro. E o anti-natural não é apenas o escandaloso: basta viver esquecendo Deus no quotidiano, esquecendo critérios e decisões com que devemos construir a existência”.