Deus é pouco prático?

D.R.

“Nem só de pão vive o homem mas de toda a palavra que sai da boca de Deus”. Estas palavras de Jesus, que ecoam no início da Quaresma, constituem um apelo sério que reaparece em cada ano. Com elas, vêm igualmente as respostas do Senhor às outras tentações: não tentarás o Senhor teu Deus; não adorarás outros deuses. Os bens materiais, o espectáculo e o poder são, afinal, as três tentações em que se resumem todas as demais. E Jesus foi tentado em todas, dando o exemplo de como as ultrapassar.

Nessas tentações vamos caindo, em cada dia e em cada ano, ignorando, de um modo mais ou menos grave, as propostas e as soluções de Jesus. Alguém poderia até desistir da luta. Quase parece um percurso sem solução. E, no entanto, todas as Quaresmas nos é indicado o caminho para nos libertarmos do que nos oprime: Deus, maior proximidade com Ele, maior disponibilidade a que Ele dê forma à nossa existência.

Só que, por nós, acabamos por achar Deus pouco prático. Pensamos que não vê, que não escuta, que não dá atenção. Que não protesta, e, sobretudo, que, apesar de resolver os grandes problemas, não soluciona as dificuldades e sofrimentos do quotidiano. Achamos que até nem faz mal estar com Ele uma hora por semana — faz-nos sentir melhores… mas sempre, todos os dias e os dias todos? “Talvez seja exagerado, fanático, coisa boa para padres e religiosas, mas não para gente comum”, acabamos por pensar.

Pois creio que essa é a diferença e o convite da Quaresma. Os “deuses” dos homens são desse modo: práticos. São soluções humanas para o que queremos ver resolvido. O Deus único e verdadeiro, que se fez um de nós em Jesus — que viveu, trabalhou, conviveu, riu, chorou e morreu como homem — esse exige uma Presença levada a sério no dia todo e em todos os dias. 

Não retira de nós a responsabilidade, o trabalho e o sofrimento, mas está sempre ali, ao nosso lado, a mostrar novos caminhos, novas possibilidades. Com Ele, tudo seria bem melhor!