Pe. Tiago Andrade partilha testemunho sobre retiro do Clero em Fátima

D.R.

Realizou-se em Fátima, entre os dias 9 e 13 de fevereiro, o primeiro turno do retiro do Clero da Diocese do Funchal. O encontro decorreu no Santuário de Fátima e foi orientado pelo padre Nuno Tovar de Lemos, SJ, reunindo padres da Diocese num tempo de oração, silêncio e renovação espiritual em preparação para a Quaresma.

No final desta experiência, o padre Tiago Andrade partilhou um testemunho pessoal sobre os dias vividos, destacando o ambiente de recolhimento, as meditações orientadas e os principais apelos deixados ao ministério sacerdotal.

Publicamos de seguida, na íntegra, o testemunho do Pe. Tiago Andrade sobre este retiro do clero em Fátima:

Na semana passada estivemos no primeiro turno de exercícios espirituais de Quaresma propostos pela Diocese aos seus padres. O retiro decorreu em Fátima, lugar de confluência de tantos em busca de recolhimento e foi orientado pelo sacerdote da Companhia de Jesus Nuno Tovar de Lemos que, ao longo destes cinco dias, nos conduziu com simplicidade e profundidade, por entre as luzes e sombras da missão do padre hoje, pois como alertou: “Ser padre é fácil, difícil é ser um padre cristão”, isto é, cristificado, configurado e sintonizado com o coração do Bom Pastor, padres ao jeito de Jesus de Nazaré. 

Tendo como fio condutor da semana o Discurso do Santo Padre ao clero de Roma no verão passado, o P. Nuno, de forma muito natural, fez dotar as suas meditações com um cariz não tanto formativo, mas acima de tudo performativo. Passo a passo, revisitando páginas da Escritura que tão bem conhecemos, foi-nos progressivamente oferecendo uma outra objetiva para olhar a Palavra: a pessoa e os gestos de Jesus, a sua performance, quer dizer, o seu proceder, as suas tomadas de decisão, os seus gestos propositados, as suas palavras sóbrias e decisivas, o seu olhar cheio de eloquência, ao sua atenção aos discretos, a sua dedicação aos que estão fora, e sobretudo, o seu ser e estar pura e simplesmente que, para nós sacerdotes, ensina mais sobre o sacerdócio do que qualquer livro de Teologia ou manual da sacramentologia, porque nos dizem tudo sobre o que significa ser padre. 

Foi acima de tudo uma oportunidade para oferecer tempo de qualidade a Deus, um tempo de recolhimento a fim de reordenar prioridades pois, citando o nosso pregador logo nos primeiros dias: “não se pode ler a vida se se está sempre muito dentro dela, sempre em cima do acontecimento, nem sempre muito longe. É preciso um afastamento necessário para se ler bem”. Um tempo para parar em meio a tantas solicitações e notificações, um tempo para abraçar o silêncio como lugar de uma solidão habitada, um tempo em que a recordação da presença Deus encontra o espaço para passar do pensamento à consciência e da consciência à ação, enraizada na certeza da companhia de Jesus vivo e atuante através de nós e apesar de nós. Como tal, a cada dia começávamos às 8h30 todos juntos na capela da casa de retiros, com a oração da manhã (Laudes). Ao fim da manhã tínhamos Eucaristia presidida pelo Pe. Nuno (12h) e antes do jantar Adoração do Santíssimo (18h) e oração de Vésperas 19h, seguida de jantar. Cada dia tínhamos duas mediações, acompanhadas com pistas de oração e propostas bíblicas, uma de manhã (10h) e outra à tarde (16h).

Entre tantos desafios e oportunidades ligados ao ministério sacerdotal, o orientador do retiro deixava-nos uma síntese bastante oportuna para os nossos tempos, alertando para os dois modos que, de forma geral, configuram o “ser padre”: o padre como “um bom funcionário” ou o padre como “um pai”, sublinhando o exercício necessário de olhar para Jesus como o sacerdote e deduzir que modelo ele nos propõe enquanto seus sacerdotes. E para quem leva o Evangelho a sério impõe-se uma conclusão: de um padre espera-se que seja um pai. Concluo com o refrão que o Pe. Nuno nos deixou, como que em jeito de oração de repetição, a propósito do padre como pai e não como funcionário do religioso: “Que eu seja sempre amador, nunca profissional”.