Festa dos Compadres

Foto: Câmara Municipal de Santana

A Festa dos Compadres, que neste ano acontece neste fim de semana, afirma-se como um dos principais marcos culturais e turísticos de Santana, mobilizando pelo Carnaval não só madeirenses, mas também visitantes que procuram uma experiência genuína.

Embora a sua configuração atual remonte ao final do século XIX ou início do século XX, a Festa dos Compadres dialoga com práticas carnavalescas mais antigas do continente português e dos Açores. No continente, subsiste ainda a tradição da “Queima do Entrudo”, geralmente antecedida de “julgamento” público ou da leitura de um “testamento” satírico. Em Torres Vedras, onde o Carnaval se encontra documentado desde 1574, o “Entrudo”, boneco tradicionalmente feito de palha, é queimado anualmente na Quarta-feira de Cinzas, após julgamento e leitura do testamento, num momento onde a crítica política e social ocupa lugar central.

Também nos Açores se encontram manifestações teatrais integradas no ciclo do Entrudo, como as “Danças do Entrudo”, que envolvem dançarinos, músicos e personagens emblemáticas como o “Mestre” e o “Velho” ou “Ratão”. Em São Miguel, mantêm-se vivas as celebrações das quintas-feiras que antecedem o Carnaval: a noite dos amigos, das amigas, dos compadres e das comadres, revelando uma organização festiva que encontra paralelo simbólico na tradição santanense.

A Festa dos Compadres apropriou-se e reinterpretou esta matriz cultural, conferindo-lhe uma identidade própria. A rivalidade simbólica entre compadres e comadres ganhou contornos singulares.

Estamos, portanto, perante uma matriz carnavalesca comum do mundo rural português, construída em torno da crítica e da purificação simbólica, que, em Santana, adquiriu forma autónoma. A queima do boneco do Entrudo no continente e a queima do Compadre e da Comadre partilham a mesma lógica antropológica: o fogo como gesto de encerramento e renovação, e o riso como instrumento de coesão social.

Ao longo das décadas, a Festa dos Compadres consolidou essa herança num formato que conjuga tradição e teatralização. O Julgamento tornou-se o momento culminante, onde a realidade social é apresentada de forma humorística e criativa, permitindo à comunidade expressar-se, refletir e, simbolicamente, renovar-se.

Mas a Festa dos Compadres é, antes de tudo, a festa da comunidade. A sua preparação mobiliza escolas, associações, músicos, famílias e instituições locais. Cada boneco, cada verso de maldizer, cada guião preparado com dedicação reforça a dimensão coletiva da celebração.

Num território reconhecido como Reserva da Biosfera da UNESCO, esta tradição ganha significado acrescido. “A natureza não é apenas o cenário, mas parte integrante da vivência e da inspiração da celebração”, lê-se na obra “Festa dos Compadres: a voz da comunidade, entre a tradição e a modernidade”, coordenada por Maria Fernanda Rollo (2025). A tradição agrícola, os costumes rurais e a memória coletiva continuam presentes no cortejo e nas representações etnográficas, demonstrando que cultura e território permanecem profundamente interligados.