Num mundo de Carnaval, a Quaresma

D.R.

O Carnaval é bem o espelho da nossa sociedade. Nesses três dias de máscaras e vida num mundo inventado, dum modo mais ou menos grotesco ou trapalhão, expressa-se aquilo que o nosso mundo é no seu quotidiano, ainda que duma forma mais discreta e quase envergonhada.

Vivemos num mundo do “faz de conta”. Desde o mundo das notícias (onde um acontecimento preenche todos os telejornais de quase um mês inteiro como se o resto do mundo tivesse parado e nada mais tivesse acontecido) ao mundo de cada um, exterior ou interior, idealizado ao modo das estrelas de Hollywood, das suas passadeiras vermelhas e do seu “glamour”. 

Um mundo onde políticos, estrelas de cinema, pseudo-intelectuais e homens de negócios, da esquerda à direita, de muitos países, viviam à sombra de um criminoso que lhes facilitava os negócios e o poder. E podíamos continuar, quase infinitamente, a descrever com verdade este nosso mundo finito e passageiro… Enfim: um mundo de carnaval.

Bem precisamos da Quaresma — desta Quaresma! Precisamos de regressar, de procurar aquilo que somos e aquilo que Deus nos convida a ser. Precisamos de reencontrar a verdade deste nosso mundo e de nos reencontrarmos. Afinal, somos um mundo que Deus ama.

Precisamos de reencontrar a alegria de estar e de sermos uns com os outros. Precisamos de humildade e pobreza; de simplicidade e de tomar a sério as necessidades do próximo. Precisamos de nos colocar diante de Deus, e de pôr de lado aquilo que imaginamos acerca de nós — o que julgamos serem os nossos poderes mágicos, sobrenaturais, mas que não passam de mera fantasia.

Precisamos de uma Quaresma que nos reconduza à realidade, nossa e dos outros; uma Quaresma que nos coloque no seio da luz de Deus — luz que nos mostra o caminho e a meta. Precisamos duma Quaresma que nos conduza à Páscoa.