O Papa Leão XIV escreveu uma mensagem para a Quaresma de 2026, intitulada “Escutar e jejuar. Quaresma como tempo de conversão”, na qual convida os fiéis a viverem este tempo como um caminho de verdadeira mudança interior, centrado em dois verbos essenciais: escutar e jejuar. No texto, o Pontífice pede que a conversão se traduza numa renovação efectiva da vida e das relações, propondo inclusive uma abstinência muito concreta: conter a linguagem que atinge e fere o próximo.
“A Quaresma é o tempo em que a Igreja, com solicitude maternal, nos convida a recolocar o mistério de Deus no centro da nossa vida, para que a nossa fé ganhe novo impulso e o coração não se perca entre as inquietações e as distrações do quotidiano”, escreve o Papa, no texto datado de 5 de Fevereiro de 2026, Memória de Santa Ágata.
No texto, Leão XIV sublinha a centralidade da escuta da Palavra. “Todo o caminho de conversão começa quando nos deixamos alcançar pela Palavra e a acolhemos com docilidade de espírito”, afirma, observando que “a disponibilidade para escutar é o primeiro sinal com que se manifesta o desejo de entrar em relação com o outro”.
A mensagem apresenta Deus como modelo de escuta, evocando o episódio de Moisés na sarça ardente: “Eu bem vi a opressão do meu povo que está no Egipto, e ouvi o seu clamor” (Ex 3, 7). Para o Papa, “Escutar o clamor dos oprimidos é o início de uma história de libertação” e a escuta da liturgia deve abrir o coração à realidade concreta do sofrimento: “Escutar a Palavra na liturgia educa-nos para uma escuta mais verdadeira da realidade: entre as muitas vozes que passam pela nossa vida pessoal e social, as Sagradas Escrituras tornam-nos capazes de reconhecer aquela que surge do sofrimento e da injustiça, para que não fique sem resposta.”
Quanto ao jejum, o Pontífice recorda que não se limita à abstinência de alimentos. “Se a Quaresma é um tempo de escuta, o jejum constitui uma prática concreta que nos predispõe a acolher a Palavra de Deus”, escreve, explicando que esta disciplina ajuda “para discernir e ordenar os ‘apetites’, para manter vigilante a fome e a sede de justiça, subtraindo-a à resignação e instruindo-a a fim de se tornar oração e responsabilidade para com o próximo”.
O Papa adverte ainda para a tentação de reduzir o jejum a um gesto exterior: “para que o jejum conserve a sua autenticidade evangélica e evite a tentação de envaidecer o coração, deve ser sempre vivido com fé e humildade”. E acrescenta que o jejum deve integrar outras formas de sobriedade, pois “deve incluir também outras formas de privação destinadas a fazer-nos assumir um estilo de vida mais sóbrio”.
É neste contexto que Leão XIV lança o apelo mais directo à conversão da linguagem. “Gostaria de vos convidar a uma forma de abstinência muito concreta e frequentemente pouco apreciada, ou seja, a abstinência de palavras que atingem e ferem o nosso próximo”, escreve. O Pontífice explicita o que entende por “desarmar” a linguagem: “Comecemos por desarmar a linguagem, renunciando às palavras mordazes, ao juízo temerário, ao falar mal de quem está ausente e não se pode defender, às calúnias.” Em alternativa, propõe um exercício de gentileza e responsabilidade no modo de falar: “Esforcemo-nos por aprender a medir as palavras e a cultivar a gentileza: na família, entre amigos, nos locais de trabalho, nas redes sociais, nos debates políticos, nos meios de comunicação social, nas comunidades cristãs. Assim, muitas palavras de ódio darão lugar a palavras de esperança e paz.”
Na parte final, dedicada à dimensão comunitária, o Papa sublinha que a Quaresma é um caminho partilhado. “As nossas paróquias, famílias, grupos eclesiais e comunidades religiosas são chamadas a percorrer, durante a Quaresma, um caminho partilhado”, afirma, pedindo que a escuta da Palavra e do clamor dos pobres e da terra se torne uma forma de vida. E conclui com um pedido de graça para este tempo: “Peçamos a força dum jejum que também passe pela língua, para que diminuam as palavras ofensivas e aumente o espaço dado à voz do outro.”


















