Malassadas

D.R.

O que mais gosto do Carnaval são as malassadas. Esse doce tão típico da Madeira faz-me reviver as memórias de infância das férias de Carnaval passadas em família, onde todos colaboravam na realização das malassadas, desde o juntar os ingredientes, ao amassar a massa, até ao fritar em pequenas bolas.

Na Madeira, este doce é mais do que uma tradição, é uma herança histórica. A sua origem remonta à doçaria conventual regional do período áureo do ciclo do açúcar, quando no séc. XVI a ilha se tornou referência na produção açucareira. O mel de cana, que ainda hoje acompanha as malassadas, ou o açúcar e canela com que as polvilhamos, são testemunho dessa época. Saborear uma malassada é, de certa forma, tocar essa memória coletiva, uma memória feita de trabalho e dedicação.

Mas as malassadas também falam de espiritualidade. Em documentação histórica datada de 1702, do Convento de Santa Clara no Funchal, encontram-se registos da aquisição de açúcar para as malassadas do Entrudo. Tempo de transição, em que antes do recolhimento havia lugar para a celebração, antes do jejum, a abundância.

No entanto, um dos elementos que mais me chama a atenção é a diáspora. As malassadas acompanharam os madeirenses que saíram da ilha, chegando com algumas mutações às Canárias, Açores, Brasil, Havaí e Bermudas. Adaptaram-se, ganharam recheios, mudaram de forma, mas mantiveram o nome português.

Quando, em 1878, um grupo de 120 madeirenses iniciou uma longa vaga de emigração para as ilhas de Sandwich, ou ilhas havaianas, para trabalhar nas plantações da cana-de-açúcar, levaram consigo as suas tradições, entre elas as malassadas, servidas na terça-feira de Carnaval que ainda hoje no Havaí se chama “Malasada Day”. Não é de admirar, portanto, que no livro “Viagens à volta da mesa nas Ilhas da Macaronésia”(2022), coordenado por Duarte Nuno Chaves, um dos capítulos seja dedicado às malassadas. Para os autores, as malassadas pertencem ao património linguístico e gastronómico das “gentes insulares”.

Hoje, num mundo globalizado em que os sabores tendem a uniformizar-se, preservar a tradição das malassadas é defender as próprias raízes e identidade. Onde há uma malassada há uma história de pertença.

Talvez por isso, quando chega o Carnaval, não penso nos cortejos. Penso nas malassadas. Porque, no fundo, elas representam aquilo que o Carnaval também deveria ser: encontro, partilha, alegria.