O Jornal da Madeira deslocou-se ao Espaço do Artesão, no Campanário, para visitar a exposição “Esculpir a Fé”, numa visita acompanhada pelo seu autor, o padre Andrés Rafael de Abreu Catanho, scj, pároco da Serra d’Água. Entre esculturas e obras cheias de significado, o percurso expositivo foi sendo desvendado pelo próprio artista, que, ao longo da visita, partilhou as motivações, referências e experiências que moldam a sua obra. À chegada, fomos recebidos pelas colaboradoras do espaço e por Orlanda Silva, responsável pelas atividades e programação, num ambiente de acolhimento e diálogo, onde a arte se apresenta como lugar de encontro e de fé.
Ao longo da conversa, o padre Andrés Catanho revelou como a escultura e a fé caminham lado a lado no seu percurso pessoal e vocacional, numa relação amadurecida desde a infância e aprofundada ao longo da formação artística e da vida sacerdotal. Entre referências à história da arte, à experiência missionária e à espiritualidade cristã, o escultor reflete sobre a capacidade da arte para comunicar o Evangelho, partilha o significado de algumas das peças expostas e sublinha a importância de preservar e valorizar o património artístico como instrumento de evangelização e diálogo com o mundo contemporâneo.A inauguração da exposição está marcada para o dia 20 de fevereiro, às 19 horas e ficará patente ao público até ao dia 24 de abril.
Jornal da Madeira – Padre Andrés, porque escolheu para tema desta exposição “Esculpir a Fé”?
Padre Andrés Catanho – Foi-me disponibilizado este espaço, a Casa do Artesão, no Campanário, pela Orlanda Silva, que é presidente da Casa do Povo e também responsável por este local. A Câmara Municipal da Ribeira Brava foi igualmente impecável nesse aspeto, tendo disponibilizado o espaço para expor as minhas obras. E porquê o título “Esculpir a Fé”? Porque eu sou escultor, fiz Belas-Artes em Salamanca e, sendo também padre, achei que estas duas dimensões se uniam bem: o esculpir, ligado à escultura, e a fé, ligada à religião. A escolha do tema demorou cerca de uma semana, mas achei que este era o nome mais apropriado.
Jornal da Madeira – A exposição foi construída a partir do tema ou o tema surgiu depois da escolha das peças?
Padre Andrés Catanho – Escolhi várias peças ligadas à fé. Sempre procurei trabalhar nessa linha. Quando estava a frequentar o curso, era diácono, e procurei sempre integrar esta dimensão da fé. Entrei no seminário aos 12 anos, é algo que faz parte da minha vida, e a minha família também é muito ligada à fé.
“Ao longo da história, as esculturas eram consideradas verdadeiras ‘bíblias vivas’ …era uma forma de transmitir a fé”
Foto: G.A.
Jornal da Madeira – Como conjuga estas duas dimensões na sua vida: a arte e a fé, o artista e o homem de fé, o escultor e o padre?
Padre Andrés – Nasci numa família cristã que participa todos os domingos na Eucaristia, por isso nunca estive desligado da fé. Contudo, houve momentos de dificuldade. Perdi um irmão quando tinha cinco anos e, apesar de sempre ter querido ser padre desde que me lembro, esse momento provocou um certo arrefecimento da fé. Por outro lado, foi também a fé que me resgatou, a mim e à minha família, dessa situação difícil. E não foi o único momento em que a minha fé ficou abalada; ao longo da vida surgiram outros. Mas Deus foi colocando pessoas certas no meu caminho, que me ajudaram a ultrapassar essas fases. Creio que a minha fé foi sendo trabalhada e amadurecida ao longo do meu percurso.
Em relação à arte, faz parte dos meus genes. Na família da minha mãe, tenho uma prima professora de artes visuais e um primo designer gráfico. É algo que já está presente na nossa família, pelo que se pode dizer que estas duas dimensões nasceram comigo e estão profundamente interligadas.
Jornal da Madeira – Na tua opinião, a arte pode comunicar a fé?
Padre Andrés – Ao longo da história, as esculturas eram consideradas verdadeiras “bíblias vivas”. Muitas pessoas não sabiam ler nem escrever, nem compreendiam o latim, e esta era uma forma de transmitir a fé, através da arte, não só da escultura, mas também da pintura. A escultura tem volume. Costuma dizer-se que a pintura é a arte de enganar, porque cria a ilusão do volume, mas não o tem. A escultura é mais real e permite um diálogo direto com quem a contempla. Existem também esculturas inacabadas, como em Miguel Ângelo, a grande referência para os escultores, que convidam quem vê a “terminar” a obra. Eu não procuro fazer isso no meu trabalho.
“A minha última peça foi o presépio da Serra de Água, feito com lapas, um elemento muito nosso. Foi um projeto pensado para o Natal de 2024 e amadurecido ao longo do tempo”.
Foto: G.A.
Jornal da Madeira – Como surgiu o teu interesse pela escultura em detrimento de outras formas de arte?
Padre Andrés – Sempre tive facilidade para os trabalhos manuais. Inicialmente queria pintura, mas o curso estava cheio. Então procurei algo mais abrangente. A escultura envolve a pintura, o design, o volume e o trabalho com diversos materiais, desde o gesso ao ferro, passando pelo barro e pela madeira. É uma área muito abrangente.
Jornal da Madeira – Cada peça exposta tem um significado próprio. Pode falar-nos de alguma em particular?
Padre Andrés – A minha última peça foi o presépio da Serra de Água, feito com lapas, um elemento muito nosso. Foi um projeto pensado para o Natal de 2024 e amadurecido ao longo do tempo. Inicialmente, a ideia era criar uma casa revestida com casca de lapa, mas o conceito foi evoluindo. Primeiro fiz a estrutura em madeira e, depois, tratei de reunir as conchas, com o apoio de Francisco Vasconcelos, a quem agradeço, que mas forneceu. Pensei na lapa porque, na Madeira, chamamos ao presépio “lapinha”. Depois surgiu a ideia de representar o mundo: os Reis Magos passam pelo mundo, passam pela Madeira, até chegarem à lapinha onde nasce o Menino. Inicialmente, este presépio seria para o Colégio Missionário, mas entretanto surgiu a nomeação para pároco da Serra de Água, uma experiência com desafios e muitos momentos de ação de graças. Criei uma grande janela em estilo gótico, pintei um anjo a anunciar o nascimento do Messias e introduzi uma espécie de mini-vitral, para dar mais cor, além das lapas. O resultado é este: é só vir e ver.
A minha peça-mestra é o Sacrário, realizado como trabalho final de curso, intitulado “A Nova Arca da Aliança”. A Arca da Aliança continha as Tábuas da Lei e era acompanhada por querubins. Fui buscar os elementos do Êxodo para me inspirar nesta obra. Sendo dehoniano, inclui a cruz dehoniana. A madeira é de cerejeira, e as asas representam os querubins que abraçam o Sacrário em forma de coração. O próprio Sacrário simboliza o céu, Deus. A estrutura é em ferro, com elementos em azul real e vermelho próximo da púrpura, cores que evocam a realeza.
“A Igreja sempre recorreu à arte para evangelizar. Hoje, talvez seja necessário formar mais os padres nesta área, para conhecerem e valorizarem o património que têm nas suas paróquias”
Foto: G.A.
Jornal da Madeira – Já passou por várias realidades geográficas e culturais. De que forma essa experiência influenciou o seu trabalho?
Padre Andrés – Nasci no continente americano e vim para a Madeira com dez anos. Sinto-me de cada lugar por onde passo. Um missionário tem de se adaptar ao local. Um professor de missiologia, quando estive em Angola, dizia que um missionário precisa de três coisas: um “estômago de avestruz”, para comer o que os locais comem; “pele de crocodilo”, para respeitar as diferenças culturais; e “coração de pomba”, para ser instrumento de paz e transmitir a tranquilidade do Evangelho.
Jornal da Madeira – E foi nesse percurso que entrou em Belas-Artes?
Padre Andrés – Sim. Entrei em Belas-Artes, em Salamanca, durante o diaconado, conciliando essa formação com um mestrado em acompanhamento espiritual e discernimento vocacional, baseado no método de Rulla, um padre jesuíta.
Jornal da Madeira – Considera que a Igreja pode explorar mais a arte para comunicar o Evangelho?
Padre Andrés – A Igreja sempre recorreu à arte para evangelizar. Hoje, talvez seja necessário formar mais os padres nesta área, para conhecerem e valorizarem o património que têm nas suas paróquias e dioceses. A arte é património, é cultura e é também um instrumento de evangelização.
Jornal da Madeira – O que espera que o visitante encontre nesta exposição?
Padre Andrés – Espero que a escultura entre em diálogo com quem visita, que ajude a preencher inquietações e vazios ao nível da fé. É esse o sentido do tema: “Esculpir a Fé”.