Na Missa do Dia do Consagrado e de Nossa Senhora das Candeias, na Sé, D. Nuno Brás desafiou os consagrados e consagradas a serem sinal excelente do amor esponsal que une Cristo à Igreja, vivendo com liberdade e alegria a sua total entrega a Deus e tornando visível, na Igreja e no mundo, a felicidade da consagração.
Na homilia desta Eucaristia que concelebrou com vários sacerdotes e com o bispo emérito D. António Carrilho, D. Nuno Brás partiu do sentido bíblico da consagração para recordar que “a Deus tudo pertence” e que ser consagrado é “pertencer-Lhe, é ser colocado à parte para estar plenamente ao seu serviço”. Recordando a tradição de Israel, sublinhou que a consagração dos primogénitos não significava destruição, mas redenção e oferta confiada, marcada pela bênção e pela vida.
O bispo destacou depois que Jesus é “o consagrado do Pai”, aquele em quem tudo diz respeito a Deus. Não é apenas um mestre ou um exemplo moral, mas Aquele que vive inteiramente voltado para o Pai: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30) e “Quem Me vê, vê o Pai” (Jo 14,9). Desde a infância até à cruz, toda a vida de Jesus é expressão dessa entrega total, que culmina nas suas últimas palavras: “Pai, em Tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46).
A partir deste fundamento cristológico, D. Nuno Brás lembrou que, desde os primeiros tempos do cristianismo, muitos discípulos fizeram de Cristo ressuscitado “a razão de ser da sua vida”, assumindo de modo radical a vocação baptismal. Evocou o testemunho dos Apóstolos, de São Paulo — “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gal 2,20) — e de tantos homens e mulheres que responderam literalmente ao apelo de Jesus: “Vai, vende tudo o que tens… depois, vem e segue-Me” (Mc 10,21).
Recorrendo ao Concílio Vaticano II, afirmou que a vida consagrada é uma forma particular de viver o baptismo, pois, “por um título novo e especial, [o consagrado] fica destinado ao serviço do Senhor”, procurando libertar-se de tudo o que possa afastar do fervor da caridade e da perfeição do louvor a Deus. Assim, pelos conselhos evangélicos, o consagrado torna-se sinal visível da união indissolúvel entre Cristo e a Igreja.
Por fim, dirigindo-se diretamente aos consagrados da diocese, o bispo deu graças a Deus porque já são “o sinal excelente do amor esponsal que une Cristo à Igreja”, e pediu que o Senhor os torne cada vez mais disponíveis para viver e manifestar “a liberdade e a felicidade da vossa consagração”, no dinamismo constante do “já e ainda não” que marca o caminho da santidade.
Lembrados e homenageados nesta Eucaristia, que foi precedida da bênção das velas que foram depois acesas, foram alguns consagrados que celebram datas jubilares neste ano de 2026 a saber: Pe. Manuel Domingos Nunes Pestana e Pe. Juan Marques Noite (Dehonianos), celebram Bodas de Prata; Irmãs Maria Augusta Aguiar Gouveia Fernandes, Maria Anália Carvalho Gonçalves e Maria Inês Gouveia de Sousa (Franciscanas de Nossa Senhora das Vitórias) e ainda a Irmã Salvina Gouveia de Sousa (Apresentação de Maria), Bodas de Ouro; as Irmãs Arminda de Jesus Tavares e Inocência Constança do Carmo (Apresentação de Maria) e Jesuína Batista dos Santos, Maria José Mendonça (Franciscanas de Nossa Senhora das Vitórias) Bodas de Diamante, assim como o Pe. Fernando Gonçalves (Dehoniano). Finalmente celebra bodas de platina o Pe. Manuel Martins também Dehoniano.



















Leia na integra a homilia de D. Nuno Brás:
DIA DO CONSAGRADO
Sé do Funchal, 2 de fevereiro de 2026
“Será consagrado ao Senhor” (Lc 2,23)
1. A Deus tudo pertence. Ele é o Senhor de quanto existe. Por isso, o próprio Deus requer que o povo de Israel lhe entregue as primícias dos frutos da terra, dos animais e dos próprios filhos. Não como as religiões pagãs, que obrigavam a matar e sacrificar os primogénitos aos seus deuses, mas resgatando-os, oferecendo em vez do primogénito “um par de rolas ou duas pombinhas”.
Aliás, foi a morte dos primogénitos do Egipto que permitiu que o povo deixasse a terra da escravidão para servir a Deus no Sinai e, depois, entrar na Terra Prometida: “O Senhor disse a Moisés: Consagra-me todo o primogénito dos filhos de Israel, o que primeiro sair do ventre materno. Eles serão meus, tanto os dos homens como os dos animais” (Ex 13,2).
O que é ser consagrado ao Senhor? É pertencer-lhe, é ser colocado à parte para estar plenamente ao seu serviço. Hoje diríamos: ser consagrado é ser santificado, abençoado. Assim, a Deus são consagrados animais (Ex 12,6), lugares (Ex 19,23) e tempos, como é o caso do Sábado (Gen 2,3). E são, também, consagradas pessoas: foi o que sucedeu com Sanção (Jz 13,3) e com Samuel (1Sam 1,22), mas também com Aarão e seus filhos (Ex 28,41) e com o próprio David (1Sam 16,13).
2. Sabemos que Jesus é o consagrado por excelência. Gerado pelo Pai desde toda a eternidade, por Ele tudo foi criado e, por isso, foi Ele o enviado para salvar o mundo, como escutávamos na IIª Leitura: “Ele não veio em auxílio dos Anjos, mas dos descendentes de Abraão. Por isso devia tornar-Se semelhante em tudo aos seus irmãos, para ser um sumo sacerdote misericordioso e fiel no serviço de Deus, e assim expiar os pecados do povo” (Heb 2,16-17).
Por isso, para cumprir o que estava estabelecido na Lei de Moisés, depois do nascimento de Jesus em Belém, Maria e José foram ao Templo para consagrar a Deus o seu primogénito, resgatando-o por duas pombinhas, a oferta dos pobres (cf. Lev 5,7).
No entanto, o gesto que realizavam era apenas a expressão do que já acontecia desde toda a eternidade. Sabemos, com efeito, que Jesus é o Verbo do Pai feito carne. Por isso, em Jesus tudo diz respeito ao Pai. Nada é realizado, sentido, vivido, sem o Pai: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30); “Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,9), havia o próprio Jesus de dizer. Ele não é um mestre de sabedoria, mais arguto que os outros seres humanos; não é um activista político nem um cuidador social. Jesus é, simplesmente, “o consagrado do Pai”, e é enquanto tal que realiza a salvação da humanidade e do mundo, a nossa salvação!
Significativamente, a primeira palavra que conhecemos de Jesus diz respeito à sua consagração: “Porque me procuráveis? Não sabíeis que era necessário que Eu estivesse na casa de meu Pai?” (Lc 2,49). E a sua última palavra, proferida na cruz, antes de morrer, é, igualmente, de total consagração: “Jesus gritou com voz forte: «Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito». Dito isto, expirou” (Lc 23,46).
3. Por isso, desde o início do cristianismo, muitos cristãos viveram como “consagrados”. Quer dizer: encontraram em Jesus ressuscitado a razão de ser da sua vida, Aquele por quem vale a pena deixar tudo — por quem vale a pena sacrificar a própria vida — para viver radicalmente a vocação de discípulo, de baptizado.
Podemos, desde logo, dizê-lo do próprio grupo dos Doze, reunidos à volta do Senhor. Mas é, também, o caso de Paulo, que, apesar de não ter convivido com Jesus, depois que o encontrou no caminho de Damasco, viveu o resto da sua vida como consagrado ao Senhor: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gal 2,20).
É hoje claro que, logo desde o início, muitos foram aqueles que, em grupo ou na solidão do deserto, co-responderam, muitas vezes literalmente, àquele apelo que Jesus fez ao chamado “jovem rico”: “Vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me” (Mc 10, 21).
4. Neste dia do Consagrado, vale, por isso, a pena recordar o que o Concílio Vaticano II afirma acerca daqueles que se percebem chamados a uma total entrega a Deus. Com efeito, o Concílio, como afirmou o seu grande realizador, S. Paulo VI, teve como objectivo principal “Tornar a Igreja […] ainda mais apta a anunciar o Evangelho aos homens” (EN 2).
A respeito dos consagrados, diz o Vaticano II, na Constituição sobre a Igreja: “Pelos votos, ou outros compromissos sagrados a eles semelhantes, com os quais se obriga aos três conselhos evangélicos, o cristão entrega-se totalmente ao serviço de Deus sumamente amado, de maneira que, por um título novo e especial, fica destinado ao serviço do Senhor. Já pelo Baptismo, morrera para o pecado e fora consagrado a Deus; mas, para poder recolher frutos mais abundantes da graça baptismal, [o consagrado] pretende libertar-se, pela profissão dos conselhos evangélicos na Igreja, dos impedimentos que o poderiam afastar do fervor da caridade e da perfeição do culto divino, e é consagrado mais intimamente ao serviço divino. Esta consagração será tanto mais perfeita quanto mais a firmeza e a estabilidade dos vínculos representarem a indissolúvel união de Cristo à Igreja, Sua esposa” (LG 44).
Eis pois, queridos consagrados que connosco celebrais esta Eucaristia, resumidas em poucas palavras, a razão da vossa consagração e o vosso lugar na Igreja.
Totalmente entregue ao serviço de Deus, que é amado acima de tudo, o consagrado procura frutos mais abundantes da graça baptismal. Para isso, professa os conselhos evangélicos da pobreza, castidade e obediência, libertando-se dos impedimentos que o podem afastar do louvor a Deus e da caridade. Vivendo assim, cada consagrado é expressão perfeita do amor entre Cristo e a Igreja, sua esposa.
“Já e ainda não”: também aqui, a todos e a cada um, se aplica esta regra teológica. Ao mesmo tempo que o Concílio afirma aquilo que já sois — quer dizer: aquilo que a graça divina já realiza em cada um e em todos — aponta igualmente o caminho que ainda falta percorrer.
Assim, damos graças ao Pai porque já sois, nesta nossa diocese, o sinal excelente do amor esponsal que une Cristo à Igreja, e pedimos ao Senhor que vos fortaleça e vos torne cada vez mais disponíveis para viver e para mostrar sempre melhor a liberdade e a felicidade da vossa consagração.


























