Nomeado a 12 de janeiro diretor do Secretariado Diocesano da Pastoral Social da Diocese do Funchal, o padre Marcos Pinto acolhe a nova missão com gratidão e consciência do desafio. “Foi com alegria que vejo o senhor bispo confiar-me a pastoral social diocesana”, afirma ao Jornal da Madeira, reconhecendo que esta nomeação não resultou de um percurso previamente delineado. “Não é uma área que eu pensava que algum dia poderia me adequar de forma diocesana, até porque não é a minha área”, admite, acrescentando, contudo, que a experiência paroquial lhe revelou a centralidade desta dimensão na vida da Igreja. “Realmente é aquilo que nós temos visto ao longo também da missão do sacerdote numa paróquia: esta importância que é a caridade.”
Para o sacerdote, a pastoral social não é um setor isolado nem meramente funcional. “A caridade não é um acessório”, sublinha, mas “é uma consequência da fé”. Uma fé que, quando é autêntica, se traduz inevitavelmente em cuidado concreto pelo outro, sobretudo pelo mais vulnerável.
O Evangelho como ponto de partida
O padre Marcos Pinto faz questão de enraizar toda a proposta pastoral na Palavra de Deus. “Partindo de São Mateus, capítulo 6, versículo 20, ‘felizes os pobres, porque vosso é o reino dos céus’”, explica, “tracei algumas linhas para aquilo que poderia ser a pastoral diocesana na Diocese do Funchal”. Esta opção não é apenas espiritual, mas estrutural: os pobres não são apenas destinatários da ação da Igreja, mas um lugar privilegiado de revelação do Reino.
A partir deste fundamento evangélico, define com clareza a primeira prioridade: “a identificação dos recursos e conhecer as necessidades da Diocese”. É necessário, diz, saber “com o que é que a Diocese conta efetivamente nesta dimensão da caridade” e conhecer a realidade concreta já existente. “Estamos a falar das IPSS que existem, a Cáritas diocesana, as Cáritas paroquiais, as Conferências de São Vicente de Paulo, que têm um trabalho e uma função muito grande de resposta emergente.” A este mapa juntam-se ainda respostas menos estruturadas, mas igualmente decisivas: “aquilo que é criado na paróquia de forma espontânea através da comunidade e através do próprio pároco”.
Tudo isto deve convergir num único horizonte: “identificar o que é que nós temos e como é que isso pode estar sempre ao serviço da evangelização, porque essa é a nossa primeira obra”.
Articular para não duplicar e aprender com os bons exemplos
Conhecida a realidade, o segundo passo passa pela articulação. “Daquilo que nós temos, como relacioná-los uns com os outros, haver sinergias”, afirma o novo diretor diocesano. Esta ligação entre estruturas não é apenas uma questão de organização, mas de comunhão pastoral. “Haver na verdade uma ligação entre as diferentes estruturas pastorais que estão implementadas”, insiste, “para a não duplicação e para a aprendizagem com os bons exemplos”.
Outra linha essencial é a sensibilização das comunidades cristãs. “Outra coisa muito importante é a sensibilidade das paróquias, das comunidades paroquiais, para a questão da caridade, da pobreza”, refere, sublinhando que esta consciência pode e deve ser despertada “de várias formas”.
Nesse contexto, defende a criação de espaços de encontro e partilha. “Podemos fazer, por exemplo, um conselho de diretores de lares, de centros de dia”, sugere, onde seja possível trazer dificuldades concretas e procurar respostas comuns. Daí nasce a proposta de “criarmos até uma espécie de gabinete de apoio”, capaz de oferecer instrumentos “do ponto de vista jurídico, social, formativo, espiritual até”.
Formação e espiritualidade como eixo transversal
A formação ocupa um lugar central na visão do padre Marcos Pinto. “A formação e a espiritualidade nas propostas que muitas vezes cada estrutura pastoral já tem”, afirma, devem poder ser partilhadas, criando um caminho comum. Esta dimensão não se limita aos dirigentes, mas estende-se também aos colaboradores e aos próprios utentes. “Por exemplo, no Natal, termos uma atividade para ser aplicada aos utentes de um lar ou de um centro de dia. Como podemos também ter uma atividade para os colaboradores.”
A Doutrina Social da Igreja surge aqui como referência constante. “Aplicar de alguma forma a DSI”, explica, pode passar por iniciativas muito concretas: “convidar alguém para vir-nos falar”, promover formação em áreas específicas ou responder a lacunas existentes. “Podíamos trazer para cá uma formação em diferentes áreas, por exemplo, na gestão, a gestão de organizações sociais. Existe a nível nacional, mas a nível regional não há”.
Ao mesmo tempo, destaca a importância de olhar para fora. “Na pastoral social, a nível nacional e internacional, temos bons exemplos que podiam ser replicados nas nossas instituições”, afirma. Exemplos de instituições católicas que “trabalham lindamente bem, produzem, são uma mais-valia” e que, além disso, “criam impacto, inclusão a todos os níveis: social e ambiental também”.

A paróquia e a lógica do Bom Samaritano
A pastoral social diocesana, sublinha, não substitui a ação local, mas deve fortalecê-la. “A Pastoral Social diocesana também tem uma preocupação especial que é com a pastoral paroquial”, afirma. Inspirado na parábola do Bom Samaritano, identifica quatro gestos fundamentais: “o contacto pessoal, de prestar a ajuda possível, da mediação e do acompanhamento”.
O princípio é claro: “Localmente conheces o problema, conheces a pessoa, conheces a situação e a resposta é para ser efetiva.” Quando essa resposta não chega, a Diocese pode ajudar a pensar caminhos, mas sem assumir o lugar da comunidade. “A Pastoral Social pode, de alguma forma, pensar juntos, mas nunca fazer, porque não é essa a função.” E reforça: “Não há uma comunidade viva que não tenha este espaço para a caridade. Aliás, é uma consequência. É uma consequência da fé”.
O magistério do Papa Francisco e a opção pelos pobres
Questionado sobre a atualidade desta opção, o padre Marcos Pinto reconhece a marca do Papa Francisco. “Eu já via isso noutros papas”, admite, “mas sem dúvida alguma, indiscutivelmente, no Papa Francisco”. Para o sacerdote, esse pontificado trouxe “um remexer e um reaprumar esta dimensão que a Igreja nunca pode esquecer”.
Num contexto social por vezes distante da instituição eclesial, considera que a ação social continua a ser um espaço de reconhecimento. “Se alguma parte da sociedade ainda nos aceita hoje”, afirma, “deve-se em parte do trabalho de séculos que é visível socialmente”.
Leigos, economia social e economia de impacto
Outro eixo estruturante da sua visão é o papel dos leigos. “É um trabalho que eu gostaria que fosse cada vez mais dado aos leigos”, afirma de forma clara. “Nós temos leigos que tecnicamente são muito bons e que podem cumprir esta função.” Sem retirar responsabilidade ao clero, defende que “há muita coisa que não precisa de sermos nós a fazer”.
Neste contexto, introduz a reflexão sobre economia social e economia de impacto. “Falou-se muito tempo da economia social, hoje fala-se mais da economia de impacto”, explica, sublinhando que esta procura “solucionar problemas socioambientais” e garantir sustentabilidade. Muitas instituições, recorda, são “100% dependentes do Estado”, o que levanta fragilidades. Ao mesmo tempo, observa que hoje as empresas são chamadas a assumir responsabilidade social. “Se o projeto é bom, é vosso”, relata, referindo o diálogo com empresas disponíveis para apoiar iniciativas bem estruturadas.

A experiência concreta da “Casa São José”
A sua experiência paroquial surge como laboratório desta visão. “Oportunidade seria a palavra-chave”, afirma ao recordar o período da pandemia. “O padre sozinho não faz nada”, diz sem rodeios, explicando que foi necessária organização, estruturas e equipas. Daí nasceram respostas como o espaço de acolhimento a pessoas em situação de sem-abrigo, “aberto de segunda a sábado, com refeições, banhos, acompanhamento ao médico”.
O caminho continua com projetos de reinserção, empresas sociais e investimentos sustentáveis. Tudo pensado com critério, porque, como sublinha, “vamos tratar de pessoas e elas têm que ter efetivamente pessoas do outro lado tecnicamente bem”.
A pessoa humana no centro
No centro de toda esta visão está um princípio que o padre Marcos Pinto enuncia de forma inequívoca e repetida ao longo da entrevista: “Não olhamos a raça nem a cor… é a pessoa, é a pessoa humana no seu todo, seja ela quem for.” Este é, afirma, o critério último da ação social da Igreja: uma ação integral, não seletiva, que respeita a dignidade plena de cada pessoa.
Convicto de que o próximo quadriénio será decisivo, acredita que apostar na formação, na corresponsabilidade e na criatividade permitirá respostas mais eficazes às novas pobrezas. Mas sem perder o essencial: cuidar da pessoa humana no seu todo continua a ser, hoje como sempre, uma das expressões mais credíveis da fé vivida.























