A obra “O Louco de Deus no Fim do Mundo”, centrada numa das últimas viagens internacionais do Papa Francisco, foi distinguida com o Prémio Europeu do Livro, atribuído ao escritor espanhol Javier Cercas. O galardão foi entregue a 10 de dezembro de 2025, no Parlamento Europeu, em Bruxelas, numa cerimónia que contou com a presença da presidente da instituição, Roberta Metsola.
Publicado pela Random House e editado em Portugal pela Porto Editora, o livro resulta do convite feito pelo Vaticano ao autor para acompanhar o pontífice numa deslocação à Mongólia, pouco antes da sua morte. A obra cruza o relato dessa viagem com uma reflexão pessoal sobre a fé, a espiritualidade e a vida eterna, a partir do olhar de um escritor que se assume como ateu.
Em declarações à Euronews, Javier Cercas sublinha o carácter singular da experiência: “Foi uma loucura seguir o Papa até à Mongólia. Este livro tem muitos pontos de loucura”. O autor acrescenta que, apesar da singularidade do destino, “o Vaticano é muito mais exótico do que a Mongólia”.
Cercas explica que esta foi a primeira vez que a Santa Sé concedeu total liberdade a um escritor para observar e escrever: “Nunca antes o Vaticano tinha aberto as portas a um escritor para que ele pudesse perguntar, falar e escrever sobre o que quisesse”. No livro, o autor define-se como “um louco sem Deus”, em diálogo com a figura de Francisco, a quem chama o “louco de Deus”.
No centro da narrativa está a questão da ressurreição da carne e da vida eterna, temas que ganham particular densidade a partir da memória da mãe do escritor, descrita como profundamente crente. “Quando me fizeram a proposta, a primeira coisa em que pensei foi na minha mãe”, confessa Cercas, recordando que ela acreditava firmemente que voltaria a ver o marido após a morte.
Numa entrevista à Rádio Renascença, concedida em novembro do ano passado, o escritor reconheceu que a experiência teve um impacto profundo no seu olhar sobre a Igreja. “Foi um livro que mudou completamente a minha visão da Igreja, do cristianismo e do Vaticano”, afirmou, sublinhando tratar-se de uma experiência transformadora, ainda que sem conversão. Apesar de continuar a definir-se como ateu, Cercas confessa ter desenvolvido um respeito mais profundo pelo fenómeno da fé, chegando mesmo a admitir: “Invejo os verdadeiros crentes”.
Na mesma entrevista, o autor descreve “O Louco de Deus no Fim do Mundo” como um “romance policial”, no sentido em que existe um mistério central, uma investigação e uma procura de resposta. “Como todos os romances que me importam, desde Dom Quixote, todos contêm um mistério e alguém que tenta resolvê-lo”, afirma, esclarecendo que, neste caso, o mistério coincide com o núcleo do cristianismo. As respostas, acrescenta, não são definitivas, cabendo ao leitor confrontar-se com a sua própria leitura.
A entrevista à Renascença introduz ainda uma reflexão crítica sobre a comunicação da Igreja no mundo contemporâneo. Cercas considera que a instituição enfrenta “um grave problema linguístico”, marcado por uma linguagem “antiga”, “pouco atraente” e frequentemente “enigmática”. Na sua perspetiva, a Igreja necessita de escritores e poetas capazes de renovar a linguagem da fé e de a tornar novamente significativa.
Neste contexto, o autor destaca o papel do Cardeal português Tolentino Mendonça, com quem manteve conversas prolongadas durante o processo de escrita. Cercas sublinha a sua dimensão como poeta e refere uma forte afinidade intelectual e humana entre ambos, reconhecendo nele uma figura central para pensar a relação entre literatura, linguagem e experiência religiosa no interior da Igreja.
Esta é a segunda vez que Javier Cercas recebe o Prémio Europeu do Livro, também conhecido como Prémio Jacques Delors, depois de o ter vencido em 2016 com “El impostor”.





















