O padre Andrés Rafael de Abreu Catanho é o autor da exposição “Esculpir a Fé”, patente no Espaço do Artesão, no Campanário, desde o dia 22 de janeiro até ao dia 24 de abril.
Na apresentação da exposição, o autor define o horizonte que sustenta todo o percurso expositivo: “Esculpir a Fé é mais do que dar forma à matéria, é tornar visível um caminho interior”. A escultura surge, assim, não como simples exercício técnico, mas como expressão de um processo profundamente humano e espiritual, no qual “cada escultura nasce do diálogo entre as mãos do artista e o mistério que habita no coração humano”.

Este caminho é marcado pelo tempo, pela lentidão e pela interioridade. O padre Andrés sublinha que “a fé, tal como a escultura, não surge pronta nem acabada”, mas “constrói-se lentamente, entre golpes, silêncios, resiliência e entrega”. A exposição propõe, deste modo, uma leitura da fé como processo, em permanente construção, onde o esforço e a fragilidade fazem parte integrante do crescimento espiritual.
A matéria assume um papel central neste diálogo entre o humano e o divino. O autor explica que, nesta exposição, se debruça “sob a matéria: madeira, pedra, metal, a qual torna-se lugar de encontro entre o humano e o divino”. Trata-se de uma escolha consciente, que valoriza a densidade simbólica dos materiais e a sua capacidade de remeter para uma fé encarnada, concreta e histórica.
O gesto artístico é assumido na sua limitação. “As mãos que esculpem são humanas, marcadas pelo tempo, pela fragilidade e pela esperança”, escreve o autor, reconhecendo que aquilo que o escultor procura revelar vai além das suas próprias capacidades. As obras remetem para realidades que ultrapassam o artista: “o rosto de Deus, o sofrimento redentor, o amor que se oferece, o Coração que nunca deixa de amar”.
Neste contexto, o padre Andrés afirma de forma clara a primazia da ação divina: “sabendo que Deus é quem assume o papel principal, é Deus o artista que cria do nada enquanto eu apenas transformo a matéria que já existe”, evocando uma reflexão do Papa Francisco dirigida aos artistas. A criação artística surge, assim, como colaboração humilde com a ação criadora de Deus.
A exposição insiste na dimensão encarnada da fé. “Esculpir a Fé recorda ao visitante que a fé não é uma ideia abstrata, mas uma experiência encarnada”, sublinha o autor. Uma experiência que “faz-se de gestos concretos, de feridas assumidas, de escolhas quotidianas”. Tal como o escultor trabalha a partir das marcas da matéria, também Deus atua na história concreta de cada pessoa: “tal como o escultor, Deus respeita os veios da madeira e as fissuras da pedra”, trabalhando a fé “a partir da nossa história real, com imperfeições e beleza própria”.
Cada obra exposta é pensada como espaço de interioridade. “Cada peça convida à contemplação e à oração, abrindo espaço ao silêncio interior”, escreve o padre Andrés, esclarecendo que, nesta exposição, “a arte não pretende apenas ser observada, mas acolhida, não apenas admirada, mas escutada”. A contemplação torna-se, assim, parte integrante da experiência proposta ao visitante.
Sacerdote do Coração de Jesus e atual pároco da Serra de Água, o padre Andrés Rafael de Abreu Catanho apresenta, através desta exposição, uma síntese entre arte, espiritualidade e vida concreta. No final do percurso, “a fé esculpida torna-se, assim, um convite a deixar que Deus continue a modelar o coração de cada um”, prolongando no visitante o mesmo processo interior que deu origem às obras agora expostas.

























