As Jornadas de Atualização dos Leigos e Consagrados, subordinadas ao tema “Paróquia, Renovação e Missão”, prosseguiram na quarta-feira, 21 de janeiro, no Colégio da Apresentação de Maria, num dia marcado por uma reflexão aprofundada sobre a identidade, os desafios e o futuro das paróquias, a partir de contributos pastorais, sociológicos e litúrgicos.
A sessão iniciou-se com uma intervenção do bispo do Funchal, que voltou a enquadrar os trabalhos no percurso global destas jornadas. “Neste caminho de três dias, nós ontem discutimos pontos para uma renovação da paróquia; enfim, há alguns pontos de partida, hoje vamos terminar essa reflexão”, afirmou, sublinhando a continuidade do processo formativo. O prelado recordou ainda o que já havia sido abordado no dia anterior e antecipou o conteúdo do programa do dia: “Ontem tivemos uma reflexão num painel sobre paróquia e evangelização e hoje escutaremos o senhor padre Rui Silva”. Referindo-se ao conferencista convidado, destacou a sua experiência pastoral e litúrgica: “Alguém que está à frente do departamento de liturgia de uma grande Igreja particular e que, ao mesmo tempo, é padre”, acrescentando que o tema em reflexão é exigente para todos: “Vamos falar precisamente sobre paróquia e liturgia, esta realidade onde todos somos doutores, mas onde todos precisamos aprender muita coisa”.
Transformar numa utopia
De seguida, tomou a palavra o Pe. Tiago Freitas, que deu continuidade à reflexão sobre a renovação da paróquia, aprofundando ideias lançadas no dia anterior. Logo no início, reconheceu o carácter exigente do processo de conversão pastoral: “Tentar aqui terminar ou avançar na nossa conversão que fizemos ontem”, disse, sublinhando que o caminho de renovação exige tempo e escuta. O sacerdote chamou a atenção para a forma como, muitas vezes, se idealiza a paróquia: “Pensamos tantas vezes que sabemos como deveria ser a paróquia. ‘Se fosse eu, faria assim’. Isto quer dizer que, normalmente, quem está à frente da paróquia parece que erra sempre”.
Alertou para o risco de transformar a paróquia numa utopia desligada da realidade concreta: “De tal modo idealizamos o futuro que a paróquia se torna um lugar utópico e esquecemos de viver o presente, bem ou mal, o único que temos”. Reforçou ainda a necessidade de manter unidos dois polos essenciais: “A paróquia é uma comunidade de fé, mas essa fé tem de estar ancorada no presente e na história concreta das pessoas”. A partir da experiência pastoral, partilhou a preocupação com o envelhecimento das comunidades: “Vemos sempre as mesmas pessoas nos mesmos lugares e, com o tempo, deixamos até de as ver”, acrescentando que “custa-nos a todos perceber a dificuldade que é renovar os lugares e atrair jovens”.
Tornar-se um não-lugar
O Pe. Tiago Freitas enquadrou estes desafios num contexto social mais amplo, lembrando que “as grandes instituições, como a educação, a política ou a religião, atravessam dificuldades semelhantes”. Refletindo sobre a relação com o tempo, afirmou: “Vivemos aprisionados na ideia de que todo o tempo deve ser útil, e isso deixa-nos naturalmente ansiosos e com dificuldade de concentração”. Neste sentido, sublinhou a importância de reaprender o silêncio: “Estamos a desaprender a arte da espera e da contemplação, e isso tem impacto direto na forma como vivemos e propomos a fé”.
O sacerdote alertou ainda para o risco de a paróquia se tornar um “não-lugar”: “Quando a paróquia é apenas um sítio onde se vai pedir um papel ou assistir a uma celebração anónima, não se cria comunidade”. Reforçou que a construção da comunidade depende de cada um: “Criar relações não depende do outro, é uma decisão pessoal que não pode ser delegada”. A este propósito, destacou a hospitalidade como valor central: “A hospitalidade é o antídoto de uma paróquia despersonalizada e o grande valor para o futuro das nossas comunidades”. Acrescentou ainda uma nota pastoral significativa: “Temos algo absolutamente extraordinário para anunciar, mas muitas vezes não sabemos embrulhá-lo, não sabemos apresentá-lo”.
Liturgia e “liturgices”
A conferência “Liturgia: da celebração à vida”, proferida pelo Pe. Rui Silva, Pároco da Ramada e Diretor do Serviço de Música Litúrgica do Patriarcado de Lisboa, ocupou um lugar central neste dia, aprofundando a relação entre liturgia, paróquia e vida cristã concreta. Logo no início, o orador apresentou-se com simplicidade, esclarecendo o ponto de partida da sua reflexão: “Assumo já antecipadamente que não sou um especialista em liturgia. Sou, antes de mais, um pastor de uma paróquia”, acrescentando que a sua experiência nasce do contacto direto com a vida paroquial.
Partilhando uma memória pessoal, evocou um testemunho marcante sobre a diferença entre liturgia autêntica e aquilo a que chamou “liturgices”: “A liturgia causava atração; as liturgices, essas causavam aversão”, explicou, sublinhando que “a liturgia verdadeira nunca afasta, antes atrai, porque é Cristo quem age”. Neste sentido, afirmou com clareza: “A liturgia não é uma ação nossa; é uma ação de Cristo na Igreja. Os gestos litúrgicos perpetuam hoje a ação de Cristo”.
O Pe. Rui Silva insistiu que a renovação litúrgica não passa por novidades ou invenções, mas por fidelidade: “Se estamos a falar de renovação da paróquia nesta área, eu diria que a renovação passa pela fidelidade”. Recordou que a liturgia é, desde as origens, uma ação do povo de Deus: “A própria palavra liturgia vem de ‘leitós’ e ‘érgon’, ação do povo, um gesto coletivo e concreto, nunca individualista”.
Ao refletir sobre o sentido profundo da celebração, sublinhou a dimensão celeste da liturgia: “Aquilo que celebramos é uma antecipação da liturgia celeste. Estamos aqui no presente, mas com o coração já no céu”. Contudo, advertiu que essa dimensão não dispensa a inteligibilidade: “A liturgia que celebramos é para seres humanos e tem de ter uma linguagem que possamos compreender”, valorizando o uso da língua vernácula e de gestos claros: “Não basta compreender as palavras; os gestos também têm de ser inteligíveis e catequéticos”.
Coração da vida cristã
O conferencista afirmou com convicção que “a liturgia é o coração da vida cristã”, explicando que nela se joga o dinamismo da fé: “É fonte e é meta, ponto de partida e ponto de chegada”. Evocando o testemunho dos mártires do norte de África, recordou: “Eles diziam: ‘não podemos viver sem o domingo’. Um cristão não pode prescindir da liturgia sem colocar em risco a própria fé”.
Ao abordar a relação entre liturgia e vida, destacou o sentido missionário da celebração: “A própria palavra ‘missa’ vem do envio. ‘Ite, missa est’. A raiz de missa e missão é a mesma”, acrescentando: “A liturgia não pode ficar fechada em si mesma; ela envia-nos para o mundo”.
Entre os caminhos concretos apontados, destacou a autenticidade como critério essencial: “Tudo o que é feito na liturgia tem de ser verdadeiro. Não há lugar ao faz de conta”. Referindo-se à música, sublinhou: “O canto não é um acessório nem um preenchimento; é um ato litúrgico e tem de ser autêntico”. O mesmo afirmou sobre a Palavra: “As leituras têm de ser realmente proclamadas; é Cristo que fala ao seu povo”.
Concluiu reafirmando a centralidade da presença real de Cristo: “Na liturgia, mediante a consagração, Cristo torna-se realmente presente no meio do seu povo”, deixando o desafio de uma celebração que transforme verdadeiramente a vida pessoal e comunitária.
As Jornadas de Atualização dos Leigos e Consagrados terminam esta tarde com a conferência “Dinamizar a Ação Social e Caritativa na Paróquia”, cujo orador será o Pe. Marcos Pinto Pároco do Carmo e com uma intervenção, on-line da Dr.ª Dora Isabel Rosa sobre a “Comunicação e Linguagem na Vida Paroquial.

































