Teve início na terça-feira, 20 de janeiro, no Auditório Rivier, no Colégio da Apresentação de Maria, mais uma edição das Jornadas de Atualização para os Leigos e Consagrados, centradas no tema “A Paróquia, Renovação e Missão”.
O bispo do Funchal marcou presença na sessão de abertura, tendo aproveitado para enquadrar os objetivos destes dias de reflexão, ajudando a “situar um bocadinho os nossos objetivos”, como referiu no início da sua intervenção.
Nas palavras introdutórias, o prelado começou por sublinhar a origem bíblica do conceito de paróquia, recordando que “a palavra paróquia é uma palavra que nos aparece na Sagrada Escritura, no Antigo Testamento, na tradução grega, e aparece também no Novo Testamento para falar da comunidade cristã”. Uma comunidade que, segundo explicou, vive no mundo sem se confundir com ele: “é uma realidade que está no mundo, mas não é do mundo, como a realidade dos migrantes, se quisermos, nós cristãos”.
O bispo do Funchal explicou ainda que, historicamente, a paróquia passou a designar as comunidades confiadas a um presbítero, em comunhão com o bispo diocesano, destacando que “são aquelas comunidades, sobretudo fora da cidade, que são confiadas a um presbítero, em unidade e comunhão com o bispo”. Citando o Direito Canónico, recordou que “a paróquia é uma determinada comunidade de fiéis, constituída de modo estável na Igreja particular, cuja cura pastoral, sob a autoridade do bispo diocesano, é entregue a um pároco, como seu pastor próprio”.
Referindo-se às críticas que, por vezes, apontam a paróquia como uma estrutura ultrapassada, o prelado evocou o Papa Francisco para reafirmar a sua atualidade: “a paróquia é a presença da Igreja num território, um âmbito de escuta da Palavra, de crescimento da vida cristã, de diálogo, de anúncio, de caridade generosa, de adoração e de celebração”. Acrescentou ainda que “através das suas atividades, a paróquia forma os seus membros para que sejam agentes da evangelização”, sendo verdadeiramente “comunidade de comunidades, santuário onde os sedentos vão beber para continuar a caminhar e centro constante do envio missionário”.
O bispo lançou depois o desafio central das jornadas, reconhecendo a diversidade de realidades paroquiais existentes, desde paróquias urbanas a rurais, com diferentes níveis de participação dos leigos, questionando: “Que paróquia é que nós queremos? Que renovação é que queremos dar às nossas comunidades?”. Apontou várias áreas de renovação possíveis, como a litúrgica, missionária, pastoral e comunitária, alertando para o risco de uma vivência individualista da fé: “Muitas vezes vamos à missa como quem vai ao supermercado; falta-nos, por vezes, uma verdadeira dimensão de comunhão”.

Repensar a pertença comunitária
Seguiu-se a conferência intitulada “Paróquia, quem és tu?”, apresentada pelo Padre Tiago Freitas, da Arquidiocese de Braga, que aprofundou de forma alargada a reflexão histórica, cultural e pastoral sobre a paróquia no mundo contemporâneo.
O sacerdote começou por recordar que o significado original da palavra aponta para uma realidade dinâmica e itinerante: “Paróquia vem do grego ‘para oikos’, junto da casa. Por definição, a paróquia tem tudo menos de estática; é o lugar de quem passa, de quem caminha, de quem vai ao encontro”. Acrescentou ainda que “a paróquia não existe para que as pessoas venham apenas até ela, mas para que ela vá até às pessoas”.
O conferencista explicou que a Igreja nasceu nas cidades e que, ao longo da história, se expandiu para vilas e aldeias por razões práticas e pastorais, dando origem ao modelo paroquial clássico, que considerou “extraordinário, eficaz e profundamente evangelizador durante muitos séculos”. No entanto, reconheceu que, no contexto atual, “não podemos ignorar que esse modelo, tal como foi vivido, está hoje desajustado em muitas situações concretas”. Sublinhou que “não se trata de destruir a paróquia, mas de a converter”.
O Padre Tiago Freitas destacou que “cada vez mais alguém nasce numa paróquia, trabalha noutra e vive a sua fé numa terceira”, o que obriga a repensar a pertença comunitária. Nesse sentido, afirmou: “Hoje, a pertença não é automática; tem de ser escolhida”, alertando que “uma paróquia onde ninguém escolhe estar dificilmente se torna uma comunidade viva”. Reforçou esta ideia com a imagem já referida: “Se não escolhemos uma comunidade, tornamo-nos passarinhos sem ninho, e todos precisamos de um ninho para criar laços, identidade e sentido de pertença”.
Alertou ainda para critérios meramente funcionais na escolha da paróquia, como a proximidade, o estacionamento, o horário ou a duração da missa, considerando que “são razões compreensíveis, mas insuficientes”. Como afirmou, “a fé não se vive por conveniência, vive-se por compromisso” e “sem compromisso não há comunidade, há apenas consumo religioso”.

Revalorizar o papel dos leigos
Abordando o contexto urbano, o sacerdote sublinhou que “a cidade produz solidão”, observando que “podemos viver anos no mesmo prédio sem conhecer quem mora ao nosso lado”. Neste cenário, defendeu que “a paróquia deve ser um espaço de hospitalidade, onde as pessoas são chamadas pelo nome e não tratadas como números”. Criticou também uma vivência individualista da fé: “Entramos muitas vezes na igreja e saímos do mesmo modo, sem sermos tocados pela fraternidade, quando o Evangelho nos chama a uma fé vivida em relação”.
O Padre Tiago Freitas referiu igualmente o impacto do mundo digital, afirmando que “as redes sociais são hoje um novo continente pastoral” e que “ignorá-las seria um erro grave”. Considerou que “há pessoas que nunca entrarão fisicamente numa igreja, mas que escutam, questionam e procuram através do digital”, defendendo que “a Igreja deve aprender a habitar também esses lugares”. Daí a necessidade, segundo afirmou, de passar “do território entendido apenas como espaço geográfico para o território como lugar de vida — físico, digital, afetivo e espiritual”.
Por fim, o sacerdote alertou para a diminuição do número de presbíteros e para as consequências dessa realidade: “Chegámos a um ponto em que um pároco tem três, quatro, cinco ou mais paróquias; isto não é apenas um problema organizativo, é um desafio teológico e pastoral”. Defendeu, por isso, que “não podemos continuar a pensar a paróquia centrada apenas no padre”, sendo urgente “revalorizar seriamente o papel dos leigos”. Concluiu afirmando: “Sem leigos corresponsáveis, não há futuro para a paróquia; este é, para mim, o ponto-chave da transformação que somos chamados a viver”.
A primeira noite das Jornadas contou ainda com um painel dedicado aos desafios da evangelização, dando continuidade à reflexão sobre a renovação pastoral, missionária e comunitária das paróquias, num caminho que se prolongará ao longo dos próximos dias.































