A Igreja do Convento de Santa Clara, no Funchal, acolheu na segunda-feira, 19 de janeiro, uma Celebração Ecuménica no âmbito da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, que se iniciou a 18 de janeiro e se prolonga até ao dia 25, sob o tema «Um só Corpo, um só Espírito, uma só Esperança» (Ef 4,4). A celebração reuniu representantes de várias confissões cristãs presentes na Região, num significativo momento de oração, escuta da Palavra e reflexão comum.
No início da celebração, o Pe. João Carlos Gomes, da Igreja Católica, explicou que os textos propostos para esta Semana de Oração foram preparados por comunidades cristãs da Arménia, uma das mais antigas tradições cristãs do mundo. Fundada no início do século IV, com raízes que remontam à era apostólica, a Igreja Arménia tem desempenhado, ao longo de quase dois milénios, um papel determinante na preservação da identidade espiritual, cultural e histórica do povo arménio, sobretudo em contextos de perseguição, diáspora e conflito. Segundo foi referido, «a Igreja tem sido para o povo arménio um verdadeiro ponto de força, consolo e resistência espiritual, particularmente nos momentos mais dolorosos da sua história».
As orações deste ano foram elaboradas pelos fiéis da Igreja Apostólica Arménia, em colaboração com membros da Igreja Evangélica Arménia, inspirando-se em antigas tradições monásticas e litúrgicas, algumas das quais remontam ao século IV. O tema central sublinha que Cristo é «Luz da Luz», fundamento da fé cristã comum e da esperança que une todos os batizados.
A celebração contou com a presença de vários responsáveis cristãos, entre os quais a pastora Ilse Berardo, da Igreja Evangélica Luterana, o rev. Brian McAvo, da Igreja Anglicana, o pastor Jorge Gameiro, da Igreja Presbiteriana, e representantes da Igreja Católica, num sinal visível de comunhão e de compromisso ecuménico.
Na sua reflexão, o bispo do Funchal destacou que a unidade constitui uma verdadeira vocação inscrita na própria natureza humana, criada à imagem do Deus uno e trino.
Partindo do texto de Efésios 4,4, afirmou que «a vocação à unidade não nos é imposta de fora; ela brota da nossa própria essência humana, criada à imagem de Deus», acrescentando que «somos criados pela unidade e para a unidade, e não conseguimos fugir a esse apelo profundo que habita em nós».
O prelado sublinhou ainda que esta unidade «não é uniformidade nem apagamento das diferenças», mas antes «uma harmonia capaz de valorizar os diversos dons, carismas e ministérios que o Espírito suscita na Igreja». Recordando Pentecostes, afirmou que «a verdadeira unidade cristã é aquela que sabe unir diversidade e comunhão, pluralidade e verdade».
Referindo-se aos desafios do mundo contemporâneo, marcado por polarizações, conflitos armados e imposições culturais, o Bispo do Funchal alertou que «o nosso tempo apresenta perigos reais para a liberdade, para a paz e para a fraternidade entre os povos», sublinhando que «a unidade cristã constitui hoje uma responsabilidade histórica e espiritual». Nesse sentido, afirmou que «as Igrejas são chamadas a oferecer respostas concretas, através da palavra e da ação, em favor da paz, do perdão e da salvaguarda da criação», dando «um testemunho visível da unidade do Espírito de que este mundo profundamente dividido carece».
A pastora Ilse Berardo, da Igreja Evangélica Luterana, também comentou o Evangelho de João 12,31-36, sublinhando que a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos é «uma oportunidade verdadeira de introspeção». Para a pastora, estes encontros convidam cada confissão cristã a refletir «sobre a sua origem comum, a sua identidade atual e o horizonte para o qual caminhamos, oxalá, juntos». Destacou ainda a importância da humildade, afirmando que «retirar-nos por instantes do centro das atenções é um gesto fraterno e necessário», acrescentando que «a beleza da Igreja universal é semelhante à de uma orquestra, cuja harmonia não reside em solistas permanentes, mas na escuta mútua e na comunhão».
Também o rev. Brian McAvo, da Igreja Anglicana, partilhou um testemunho pessoal marcado pela experiência da oração ecuménica na Irlanda, recordando tempos difíceis de divisão entre comunidades cristãs. Sublinhou que a unidade «não é uma tarefa opcional nem um simples projeto humano», mas «um verdadeiro chamamento de Deus». Comentando a Carta aos Efésios, destacou que São Paulo exorta os cristãos a viverem «com humildade, mansidão e paciência, fazendo todo o esforço para conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz», lembrando que «há um só Senhor, uma só fé, um só batismo».
Por sua vez, o pastor Jorge Gameiro, da Igreja Presbiteriana, destacou que a Igreja é, desde as suas origens, uma Igreja de ministérios diversos, «todos diferentes, mas todos necessários e igualmente importantes». Sublinhou que a diversidade não é um defeito, mas uma riqueza, afirmando que «unidos na nossa diversidade, damos um testemunho corajoso num mundo que muitas vezes rejeita a diferença». Acrescentou ainda que «ser adulto na fé implica respeitar a diferença do outro e reconhecer que ela pode complementar a grande Igreja a que todos pertencemos».
A celebração terminou com um forte apelo à maturidade na fé, ao respeito mútuo entre as confissões cristãs e ao compromisso comum de anunciar, com palavras e gestos concretos, a esperança, o amor e a paz que brotam do Evangelho, como sinal da unidade de Espírito de que o mundo profundamente necessita.





































