A paróquia perante novos desafios: Padre Tiago Freitas abre as Jornadas de Atualização do Clero no Funchal

Foto: G.A.

Teve início esta terça-feira, 20 de janeiro, no Seminário Diocesano do Funchal, mais uma edição das Jornadas de Atualização do Clero. A primeira conferência, intitulada “Paróquia, quem és tu?”, foi proferida pelo Padre Tiago Freitas, sacerdote da Arquidiocese de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa.

Na sua intervenção, o Padre Tiago Freitas sublinhou que não existem modelos únicos ou soluções universais para todas as realidades paroquiais, advertindo para o risco de aplicar fórmulas iguais a contextos profundamente diferentes, sejam eles urbanos, rurais ou periféricos. Mais do que prever o futuro, afirmou, importa ler com lucidez o presente, discernindo caminhos possíveis para a missão da Igreja hoje.

O conferencista destacou o esgotamento progressivo do modelo territorial clássico de paróquia, particularmente evidente nas grandes cidades, onde a mobilidade, a fragmentação e a pluralidade de pertenças tornam cada vez mais difusa a ligação geográfica à comunidade cristã. Ao mesmo tempo, alertou para o despovoamento das aldeias e para o risco de abandono do património e da vida eclesial fora dos grandes centros urbanos.

Neste contexto, evocou também o pensamento de Alain de Botton, em particular a sua obra “Religião para Ateus”, onde o autor propõe sublinha o valor da convivialidade e da espiritualidade na vida humana. Para De Botton, o cristianismo preserva uma sabedoria essencial para a organização da vida em comum, desde a importância da mesa e do convívio, até à necessidade de criar espaços de silêncio e interioridade no meio do ritmo acelerado das cidades. Mesmo fora de uma adesão religiosa explícita, estas práticas revelam a capacidade do cristianismo em gerar vínculos, educar para a escuta e responder a inquietações profundamente humanas, hoje frequentemente procuradas fora das instituições religiosas.

Outro ponto central da reflexão foi a crise de transmissão da fé, especialmente entre os jovens, e a dificuldade em transformar percursos catequéticos em compromissos duradouros de vida cristã. O conferencista chamou a atenção para a crescente valorização de uma espiritualidade desligada da pertença institucional, desafiando a Igreja a redescobrir e a oferecer, de forma mais acessível, a riqueza da sua tradição espiritual, mística e comunitária.

A conferência abordou ainda a necessidade de recuperar uma sólida teologia do batismo, capaz de contrariar a redução dos fiéis a meros “utentes” de serviços religiosos, promovendo uma Igreja mais corresponsável, assente na comunhão, na participação e no exercício efetivo dos ministérios laicais. Neste horizonte, foram evocadas novas formas de organização pastoral, equipas de governo mais colegiais e verdadeiras unidades pastorais entendidas como um único corpo eclesial, e não como uma simples soma de paróquias.