Jornadas de Atualização: A paróquia não se mede pelo que organiza, mas pela vida que gera – Pe. Tiago Freitas

D.R.

O Pe. Tiago Freitas, que entre outras funções é sacerdote da Arquidiocese de Braga, é outro dos oradores convidados das Jornadas de Atualização dos Leigos e Consagrados e das Jornadas de Atualização do Clero, que decorrem, respetivamente, de 20 a 22 de janeiro e de 20 a 23 de janeiro.

Num tempo marcado por profundas mudanças culturais e sociais, a sua reflexão convida a repensar a paróquia a partir da sua identidade e da sua missão evangelizadora no mundo de hoje.

Sob os temas “Paróquia, quem és tu?” e “Renovação da Paróquia”, o Pe. Tiago Freitas propõe, conforme pequena entrevista ao Jornal da Madeira, uma leitura exigente e profundamente evangélica da vida paroquial, deslocando o olhar da mera organização de atividades para a qualidade da forma de vida cristã. Mais do que estruturas ou modelos herdados, a paróquia é chamada a ser um lugar onde as pessoas reconhecem a presença de Deus na própria história e onde se geram processos de fé enraizados na realidade concreta.

O que define hoje uma paróquia fiel à sua missão evangelizadora?

Uma paróquia fiel à sua missão define-se melhor pelo modo como intercepta a cultura em que está inserida do que pelo que organiza, pelo seu lado institucional. A questão decisiva não é a quantidade de atividades, mas a qualidade evangélica da sua forma de vida. Uma paróquia evangeliza quando ajuda as pessoas a reconhecer a presença de Deus na própria história concreta e quando gera processos de fé, não apenas momentos religiosos exteriores.

Um pressuposto frequente é pensar que fidelidade equivale à conservação. Na verdade, a fidelidade evangélica é sempre dinâmica. Uma paróquia é fiel quando assume a sua condição urbana, plural e fragmentada, sem nostalgia de um passado de cristandade. É fiel quando coloca o anúncio do Evangelho no centro, articulando liturgia, caridade e vida comunitária, e não quando absolutiza nenhuma delas isoladamente.

“Uma paróquia evangeliza quando ajuda as pessoas a reconhecer a presença de Deus na própria história concreta e quando gera processos de fé, não apenas momentos religiosos exteriores”.

Que sinais mostram que uma paróquia precisa de renovação?

Um sinal decisivo de necessidade de renovação é o fechamento progressivo da Igreja sobre si mesma. Quando a atenção se concentra sobretudo na manutenção de estruturas, horários e procedimentos, a relação viva com as pessoas concretas do território tende a enfraquecer.

Outro sinal relevante é a concentração excessiva da responsabilidade pastoral numa única figura. Quando a comunidade depende quase exclusivamente do pároco para pensar, decidir e agir, perde capacidade de discernimento comunitário e de iniciativa missionária. A dificuldade em escutar as interrogações reais das pessoas, sobretudo aquelas que desafiam esquemas habituais, revela igualmente uma paróquia que continua funcional, mas já pouco geradora de sentido.

Como envolver mais os leigos na construção de uma paróquia viva e missionária?

O envolvimento dos leigos começa pelo reconhecimento do seu estatuto eclesial e por aquilo que o batismo lhes garante, tanto a nível de direitos como de responsabilidades. A participação torna-se consistente quando os leigos são considerados sujeitos ativos do discernimento e da missão, com uma leitura própria da realidade iluminada pela fé.

Este caminho exige uma mudança cultural nas comunidades. Supõe aceitar que a vida profissional, familiar, social e política dos leigos é um lugar de evangelização. Mas também dar-lhes espaço para trabalharem dentro da paróquia, assumindo responsabilidades e colocando as suas capacidades ao serviço da comunidade.

“Quando a comunidade depende quase exclusivamente do pároco para pensar, decidir e agir, perde capacidade de discernimento comunitário e de iniciativa missionária”

Que papel têm a escuta e o diálogo na renovação das comunidades paroquiais?

A escuta constitui uma atitude espiritual fundamental para a vida eclesial. É através dela que a comunidade reconhece a ação do Espírito na história de cada um. Sem escuta, o discernimento torna-se abstrato e a pastoral corre o risco de se reduzir à repetição de esquemas consolidados.

O diálogo, entendido em profundidade, introduz a comunidade num processo de maturação. Ele acolhe tensões, diferenças e até conflitos como parte integrante do caminho eclesial. Ao criar espaços onde a palavra circula de forma responsável e respeitosa, a paróquia aprende a procurar a verdade do Evangelho em comum, dentro da complexidade do contexto em que vive.

A escuta precisa de tempo. Talvez seja este um dos atos mais proféticos da Igreja atual. Uma opção consciente, contraintuitiva até, de desacelerar e permitir que no tempo investido a ouvir e a dialogar, a acolher as preocupações, a comunidade cresça.

“Horários, linguagem, estilos celebrativos e formas de organização pastoral devem ser avaliados a partir da experiência concreta das comunidades humanas presentes no território”

Que passos concretos podem as paróquias dar para se tornarem mais abertas e acolhedoras?

Um primeiro passo passa por uma revisão crítica das práticas habituais à luz da vida real das pessoas. Horários, linguagem, estilos celebrativos e formas de organização pastoral devem ser avaliados a partir da experiência concreta das comunidades humanas presentes no território.

A criação de pequenos espaços de encontro favorece relações mais pessoais e processos de pertença mais sólidos. Grupos de escuta, de partilha da Palavra ou de acompanhamento tornam possível uma hospitalidade que não se limita à receção ocasional. A abertura aprofunda-se quando a paróquia ajuda a interpretar as grandes dimensões da existência – trabalho, sofrimento, fragilidade, esperança – à luz da fé, com sobriedade, realismo e confiança na ação discreta do Espírito.