Jornadas de Atualização: “A Liturgia transforma a vida quando é fiel a Cristo e à Igreja” – diz Pe. Rui Sousa Silva

D.R.

O Pe. Rui Silva, Pároco da Ramada e Diretor do Serviço de Música Litúrgica do Patriarcado de Lisboa, é um dos oradores convidados das Jornadas de Atualização dos Leigos e Consagrados e também do Clero, que decorrem de 20 a 22 de janeiro e de 20 a 23 de janeiro, respetivamente. 

O convite para participar neste encontro foi recebido, como o próprio afirma, com alguma surpresa, mas sobretudo com alegria. Surpresa por não ser habitual ser convidado para iniciativas fora da sua diocese de Lisboa e alegria pela estima pessoal que nutre por vários pastores da Diocese do Funchal, com quem partilhei partes do seu caminho – bastaria recordar que foi aluno de D. Nuno Brás, de quem é amigo, bem como pelo privilégio de regressar à Madeira.

Conforme apresentado no Programa das Jornadas, disponível no site da Diocese do Funchal, o Pe. Rui Sousa Silva integra o grupo de oradores convidados e irá refletir sobre o tema “Liturgia: da celebração à vida”. Nesta entrevista, aprofunda algumas das ideias centrais da sua intervenção, sublinhando a importância de uma liturgia vivida de forma autêntica e transformadora.

Como pode a liturgia transformar o nosso quotidiano e não ficar apenas dentro da igreja?

A questão é interessante e pertinente, mas remete para outra, anterior: qual é a principal função da Liturgia? Segundo o Concílio Vaticano II, a sagrada Liturgia é principalmente culto da majestade divina, mas também abundante fonte de instrução para o povo fiel. Ou seja, em primeira instância, ela é culto a Deus, mas, concomitantemente, não deixa de ser fonte inspiradora e mesmo transformadora de todos os que nela participam ativamente.
Assim, é a partir da relação com Deus que cada cristão se redescobre e é também a partir daí que se encontram os irmãos e se retiram consequências para a vida quotidiana.

“Convidaria todos a redescobrir a beleza da Liturgia e o verdadeiro sentido da participação eclesial”

Uma liturgia estéril, sem frutos, não pode ser Liturgia cristã, pois nesta é o próprio Cristo que atua através da Igreja. E Cristo é fonte inesgotável de vida nova.
Para responder diretamente: a Liturgia transformará o quotidiano de todos os que a celebram sempre que for fiel a Cristo e à Igreja, seu Corpo Místico.

D.R.

Que ligação existe entre a Eucaristia celebrada e a forma como vivemos em comunidade?

A Eucaristia, como a Liturgia em geral, é simultaneamente fonte e meta de toda a vida cristã.

Nesse sentido, o nexo entre a Eucaristia e a vida comunitária deveria ser sempre indissolúvel. Porém, na prática, pode nem sempre assim suceder, sobretudo se houver um afastamento do manancial que brota da Sagrada Escritura e da Sagrada Tradição, isto é, da Igreja no seu todo.
A Liturgia requer harmonia com a Igreja no seu conjunto e, por isso, não é compatível com opções individualistas, sem prejuízo das questões particulares previstas pela própria Igreja.

Genericamente diria que, se não existir uma ligação profunda, quotidianamente alimentada e fortalecida, entre as Eucaristias celebradas e a vida dos fiéis em comunidade, a missão da Igreja ficará por cumprir num dos seus aspetos basilares: o “ide” no final da Missa é essencial, pois projeta a celebração para a vida, convertendo a vida cristã em missão.

“Uma liturgia estéril, sem frutos, não pode ser Liturgia cristã, pois nesta é o próprio Cristo que atua através da Igreja”.

Quais são os maiores desafios hoje para que a liturgia seja verdadeiramente vivida pelos fiéis?

Reconheço que haverá vários desafios, mas não consigo hierarquizá-los. Contudo, acredito que quando algo é autêntico e verdadeiro se torna atraente, não de forma superficial, mas com consistência.
Alguma superficialidade na vivência litúrgica pode ser um obstáculo. O estilo de vida apressado de muitas pessoas, sobretudo nos meios urbanos, também pode dificultar a vivência celebrativa. Quem entra a correr numa igreja, com mil preocupações, pode só começar a predispor o espírito para a celebração a meio da Missa.

Aspetos culturais e sociais também têm peso, nomeadamente a dificuldade em parar e escutar com serenidade. Sem uma visão negativa da tecnologia, é inegável que a dependência excessiva de telemóveis pode ser um problema, também dentro das igrejas.

Não excluo ainda que algum cansaço e saturação dos sacerdotes possa ter impacto nesta vivência. Tudo isto aponta, claramente, para a necessidade de Formação.

De que modo a liturgia pode ajudar a renovar a identidade da paróquia?

A identidade da paróquia só se encontra plenamente no seio da Igreja de que faz parte, concretamente na diocese respetiva. Existem, naturalmente, características locais, histórias e tradições que constituem uma riqueza e devem ser valorizadas.

Também a religiosidade popular tem grande importância, desde que vivida em harmonia com a Igreja e aberta às mudanças que o Espírito Santo possa inspirar.
No entanto, a identidade da paróquia tem de estar sempre alicerçada no Evangelho de Jesus Cristo. É ao serviço dessa missão que a Liturgia desempenha um papel fundamental: conduz a Deus, manifesta o Mistério de Cristo e transforma a vida dos fiéis. Quando bem celebrada e participada, a Liturgia faz resplandecer a identidade da paróquia como semente do Reino de Deus no meio dos homens.

“Quando bem celebrada e participada, a Liturgia faz resplandecer a identidade da paróquia como semente do Reino de Deus no meio dos homens”.

Que conselho deixa às comunidades para celebrações mais participadas e significativas?

Quando todos – cada um segundo o seu grau e ministério – participam ativamente numa celebração litúrgica, o coração dos fiéis arde, como ardeu o dos discípulos de Emaús diante do Senhor ressuscitado.

Essa experiência profunda e autêntica é transformadora e decisiva para a vida em Cristo. Por isso, convidaria todos a redescobrir a beleza da Liturgia e o verdadeiro sentido da participação eclesial, sem revivalismos, sem secularismos, sem excessos de rigor e sem laxismo.
Conduzidos pela Mãe Igreja e dóceis a ela, encontraremos o tesouro confiado por Cristo aos seus discípulos. E só esse tesouro é verdadeiramente capaz de nos atrair.