Santo Amaro é uma das mais antigas invocações cristãs presentes no arquipélago da Madeira. No século XV já existiam ermidas dedicadas a Santo Amaro no Funchal e no Paul do Mar.
Em Santa Cruz, uma capela dedicada a Santo Amaro foi edificada por iniciativa popular. Por falta de alvará e de bens que garantissem a sua manutenção, foi encerrada em 1538 pelas autoridades religiosas. Um século mais tarde, porém, o povo não tinha perdido a devoção ao santo. Por volta de 1656, o vigário de Santa Cruz, padre Henrique Madureira Figueira, decidiu fundar a Confraria de Santo Amaro, que se responsabilizou pelo restauro da capela, agora com autorização do bispado.
No Paul do Mar, a tradição lendária reforça essa dimensão popular da devoção. Reza a lenda que uma figura vestida com o “hábito da Ordem de São Bento” surgiu nas montanhas da antiga povoação, soltando pedras em direção ao povoado com a sua “bengalinha de vime”. O gesto foi interpretado como um aviso, levando a população a abandonar o lugar antes de uma grande derrocada que destruiu a aldeia, ficando todos a salvo. Depois desse acontecimento, a figura foi identificada como Santo Amaro, que se tornou o padroeiro da nova povoação do Paul do Mar (José Viale Moutinho, “Contos Populares e Lendas das Ilhas da Madeira e do Porto Santo”, 2020).
Na monumental obra, apresentada nestes dias, “Música Tradicional Madeirense”, fruto das recolhas da Associação Xarabanda, encontram-se no volume VI, dedicado às “cantigas de carácter religioso” do ciclo do Natal, seis cantigas alusivas a Santo Amaro. Nelas, o santo surge representado com afeição e proximidade: “Sant’Amar é meu / que tenho guardado / numa caixa velha / do ano passado” (Informante da Fajã da Ovelha). Esta formulação revela que o santo é concebido com uma imagem concreta, guardada de um ano para o outro e retirada da caixa em janeiro.
As próprias práticas do “varrer dos armários”, descritas nas cantigas, confirmam essa presença do santo. Canta-se: “E o Santo Amaro me disse / Nã disse de coração / Para eu varrer o armário / Que lá tinha o garrafão” (Informante da Ribeira Brava); ou ainda: “Viemos de lá tão longe / Do pé da terra dos alhos / Trouxemos a vassourinha / Para varrer os armários” (Informante de São Roque, Funchal). O gesto ritual do varrer, associado a Santo Amaro, marca o encerramento do tempo do Natal e a reorganização da vida doméstica para o novo ciclo anual.
Mesmo os doentes participavam simbolicamente desta visita ritual. Uma das cantigas diz: “Vou cantar o Sant’Amaro / À porta deste doente / O senhor aibra-m’a porta / Qu’ eu quero ir i p’á dentro” (Informante da Serra d’Água). A devoção não exclui quem está fragilizado; pelo contrário, leva o santo até aos limiares mais vulneráveis da comunidade.
Assim, tanto as fontes históricas como as narrativas lendárias e as cantigas populares indicam que Santo Amaro é, na Madeira, um santo de proximidade, profundamente enraizado na memória coletiva e no calendário local. A sua devoção não se limitou às capelas, mas estendeu-se às casas e às práticas quotidianas. É essa tradição viva que explica por que Santo Amaro continua a marcar o fim do Natal, através do gesto de varrer os armários, desmontar a lapinha, partilhar o que resta da festa e recomeçar o ano.



























