Diogo Sousa e Marcos Rebelo ordenados na Sé: D. Nuno lembra que “um padre não se pertence”

Foto: Duarte Gomes

“Um padre não se pertence: pertence a Cristo e pertence aos irmãos.” Foi com esta ideia central que o bispo do Funchal, D. Nuno Brás, enquadrou a celebração de ordenações sacerdotais que decorreu este sábado na Sé do Funchal, dia 10 de janeiro, onde foram ordenados presbíteros Diogo Sousa, natural do Caniçal, e Marcos Rebelo, da Calheta.

No início da Eucaristia o bispo do Funchal lembrou que a Igreja continua hoje a ser a “extensão da encarnação”, de “Jesus, o Verbo, que se fez Homem em Jesus de Nazaré” que“continua ainda hoje a estar presente, a fazer-se carne no seu corpo que é a Igreja, este corpo de batizados. Continua a fazer-se carne naquelas que são a presença sacramental de Jesus Cristono meio da Igreja e do mundo, os sacerdotes”.

A celebração, que reuniu numerosos fiéis, familiares, amigos e membros do clero diocesano, cuja presença D. Nuno Brás agradeceu, ficou marcada pelo apelo do prelado ao serviço humilde e à total disponibilidade para o povo de Deus. 

Na homilia, D. Nuno Brás sublinhou que a missão do sacerdote é, antes de tudo, ser “servo da vocação de cada cristão”. “Tudo o que fazemos e tudo o que somos é por causa dos cristãos que nos estão confiados e da sua vocação primeira e definitiva à santidade”, afirmou.

Partindo das leituras proclamadas, o bispo recordou que a vida cristã nasce de uma escolha de Deus. “Deus quis-nos, pensou-nos e amou-nos desde toda a eternidade”, sublinhou, acrescentando que a vocação sacerdotal é resposta generosa a esse chamamento e se enraíza nos dons recebidos no Batismo.

Dirigindo-se diretamente aos ordinandos, D. Nuno Brás lembrou que o ministério sacerdotal exige entrega total. “Um padre pertence a Cristo e pertence aos irmãos”, afirmou, evocando São Paulo: “Fiz-me tudo para todos, para salvar alguns a qualquer custo”.

O prelado, que agradeceu “a todos, contribuam para a formação destes sacerdotes” desde as suas famílias, às suas paróquias, passando pelos seminários que frequentaram e a todos quantos contribuíram para a beleza desta celebração e que apelou à oração pelas vocações, deixou ainda um apelo claro à humildade e à vigilância espiritual, alertando para os riscos do orgulho e da autossuficiência. 

“Deus, que vos escolheu para serdes a sua presença no meio do seu povo, jamais vos faltará”, garantiu, pedindo aos novos sacerdotes uma constante abertura à graça e uma disponibilidade plena para o serviço da Igreja.

A ordenação foi vivida com particular emoção pelas comunidades do Caniçal e da Calheta, terras de origem de Diogo Sousa e Marcos Rebelo, que acompanharam este momento decisivo do seu percurso vocacional e de onde vieram autocarros para trazer todos aqueles que quiseram fazer parte deste momento sempre especial.

Com esta celebraçãoa Diocese do Funchal vê reforçado o seu presbitério, confiando aos novos padres a missão de anunciar o Evangelho e de ajudar os fiéis a viver plenamente a sua vocação cristã, “retirando todas as consequências dos dons batismais que receberam”, como destacou o bispo do Funchal.

Leia na íntegra a homilia do prelado para esta celebração:

Ordenações sacerdotais

Sé do Funchal, 10 de janeiro de 2026

“Servidores da vocação dos cristãos”

1. As leituras que acabaram de ser proclamadas procuravam centrar o nosso coração nesse infinito mistério de piedade que é a encarnação do Verbo na nossa carne mortal. Jamais nos cansaremos de o meditar, tão central é o nascimento do Senhor para a nossa salvação e para a salvação do mundo inteiro.

Por seu lado, na IIª Leitura, S. Paulo chamava-nos a atenção para três aspectos da vocação cristã — consequências da encarnação do Verbo — que também eu gostaria aqui de sublinhar. 

Iniciando a carta aos seus bem conhecidos cristãos de Éfeso, o Apóstolo recordava-lhes, em primeiro lugar, a vocação comum e própria de todos, a vocação baptismal; depois, pedia para eles um espírito de sabedoria e de revelação que os tornasse capazes de conhecer a Deus; finalmente, pedia para os efésios a “iluminação do coração” que os capacitasse a ter sempre diante de si a esperança a que tinham sido chamados, os tesouros de glória da herança que lhes fora preparada.

a) A vocação cristã. S. Paulo começa por sublinhar que a vida cristã é, em primeiro lugar, o fruto de uma escolha por parte de Deus, uma vocação. Vai mesmo mais longe: diz que todos os cristãos foram, antes da criação do mundo, predestinados para serem santos, irrepreensíveis na caridade, vivendo constantemente na presença de Deus. Deus quis-nos, pensou-nos, amou-nos desde toda a eternidade!

E o Apóstolo continuava, apontando para a medida mais alta, pois que a vida cristã é resposta àquele dom tão excelente. Com efeito, o cristianismo não iniciou com o possível; não começou com o pouco. O seu ponto de partida foi antes o máximo a que alguém pode, um dia, almejar: o seu início foi e é a santidade do Deus que se faz homem, que se faz carne. E essa santidade é também proposta a quantos vivem por Cristo, com Cristo e em Cristo. Por nós, jamais seríamos capazes de a viver; a ela jamais poderíamos, sequer, aspirar. Mas sabemos que o Espírito de santidade — que é o Espírito de Jesus — é capaz de fazer das pedras filhos de Abraão!

b) O conhecimento de Deus. Para tal conhecimento, diz S. Paulo, é necessário um espírito de sabedoria e de revelação. Conhecer a Deus não significa uma capacidade de O analisar de todos os ângulos, como um cientista conhece o objecto do seu estudo. Deus não é um objecto: é uma Pessoa. E, portanto, é Alguém que apenas se faz conhecer no encontro, no diálogo — precisamente: na revelação. E se todo e qualquer ser humano está sempre além do que possamos alguma vez saber dele, quanto não sucederá com a própria Pessoa de Deus que, por definição, é Alguém cujo conhecimento jamais esgotaremos — e, ao mesmo tempo, Alguém que sempre nos atrai, nos envolve e se nos oferece!

c) Os tesouros de glória da herança que nos está preparada. Ao ressuscitar e ao enviar o seu Espírito sobre os discípulos, Jesus abriu diante do mundo inteiro um novo horizonte de vida. Deus entregou-se aos seus. Ele é o maior tesouro a que alguém pode, alguma vez aspirar. Viver com Deus, viver na sua presença, não apenas por um fortuito momento de felicidade — já isso seria tanto! — mas para a eternidade: eis o tesouro que tudo merece; que torna os homens capazes de esquecer a própria vida.

Tudo isto, afinal, não passam de consequências desta realidade central da história da humanidade: há 2025 anos Deus fez-Se carne, fez Homem — mas consequências que são, também, o modo de conhecer e de expressar Deus hoje.

2. Eis, queridos ordinandos e queridos irmãos no sacerdócio, o resumo das vossas e das nossas tarefas pastorais. A missão central de um padre ou de um bispo outra não é senão a de ajudar aqueles que lhes são confiados a viverem plenamente esta vocação maior, dada pelo próprio Deus a cada cristão seu irmão, ajudando-o a retirar todas as consequências dos dons baptismais que recebeu.

Somos servos da vocação de cada cristão, procurando que a cada um, quem quer que ele seja, não falte nenhum dos dons da graça para poder chegar à santidade. É deste modo que servimos a Cristo e aos irmãos. Tudo o que fazemos e somos é por causa dos cristãos que nos estão confiados e da sua vocação primeira e definitiva à santidade. 

Um padre não se pertence: pertence a Cristo e pertence aos irmãos. Como afirmava o próprio S. Paulo: “Embora livre em relação a todos, fiz-me servo de todos, para ganhar o maior número. Fiz-me judeu com os judeus, para ganhar os judeus; com os que estão sujeitos à Lei, comportei-me como se estivesse sujeito à Lei – embora não estivesse sob a Lei – para ganhar os que estão sujeitos à Lei; com os que vivem sem a Lei, fiz-me como um sem Lei – embora eu não viva sem a lei de Deus porque tenho a lei de Cristo – para ganhar os que vivem sem a Lei. Fiz-me fraco com os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, para salvar alguns a qualquer custo. E tudo faço por causa do Evangelho, para dele me tornar participante” (1Cor 9,19-23).

É para isso que, no momento da nossa ordenação, o próprio Senhor nos reveste dos dons sacramentais necessários para esta tão grande missão. 

Caros ordinandos, 

não tenhais nunca dúvidas a este respeito: Deus, que vos escolheu para serdes a sua presença no meio do seu povo e de toda a sociedade humana, jamais vos faltará.

Pedimos ao Senhor que, afastando de vós toda a tentação de orgulho e auto-suficiência — tentações em que facilmente podem cair aqueles para quem todos olham como referência da vida da fé — pedimos ao Senhor que abra as portas do vosso coração, e vos torne completamente disponíveis para os dons da sua graça e para o serviço da vocação dos cristãos.

+ Nuno, Bispo do Funchal