Neste Natal, um pequeno grupo de padres do Arciprestado do Funchal foi visitar o sacerdote mais idoso da Diocese: o padre Orlando Morna, com 98 anos. Não foi uma visita de circunstância. Foi um encontro de amizade e um gesto silencioso de fraternidade presbiteral. As suas palavras, cheias de lucidez, sobre a Verdade, o Ser, a inteligência e o pensamento, lembraram-nos que o sacerdócio nunca se reduz a uma função mas é presença viva que evangeliza, mesmo quando o corpo já está frágil.
É neste horizonte que a Diocese do Funchal acolhe dois novos sacerdotes: Marcos Rebelo e Diogo Sousa. A Igreja alarga-se no tempo, unindo a fidelidade de quase um século de ministério à esperança que agora começa a tomar forma em dois novos presbíteros.
Numa das suas primeiras Cartas Apostólicas, “Uma fidelidade que gera futuro”, o Papa Leão XIV recorda que a fraternidade sacerdotal “não é opcional nem fruto de boas intenções”, mas “um dom inerente à graça da Ordenação”, chamado a vencer o individualismo e a sustentar concretamente a missão de cada padre. Ordenar um sacerdote não é apenas investir alguém num ministério; é introduzi-lo numa fraternidade que o precede e o acompanhará ao longo da vida. “Não por acaso, o Concílio Vaticano II falou dos presbíteros quase sempre no plural: nenhum pastor existe sozinho!”, lembrou o Papa.
O Papa adverte ainda que a vida sacerdotal está hoje ameaçada por um clima cultural que favorece o isolamento, a autorreferencialidade e o cansaço. Por isso insiste que a comunhão com o bispo e com os irmãos no presbitério é parte essencial da própria missão: “a fraternidade presbiteral deve, portanto, ser considerada como um elemento constitutivo da identidade dos ministros”.
Neste sentido, Leão XIV reconhece falhas: “ainda não está assegurada a necessária assistência social na doença e na velhice em vários países e dioceses”. E acrescenta que “o cuidado mútuo, em particular a atenção para com os irmãos mais sós, isolados, enfermos e idosos, não pode ser considerado menos importante do que o cuidado para com o povo que nos está confiado”.
A visita ao padre Morna e a ordenação de dois novos padres fizeram-me pensar que o futuro da Igreja passa pela comunhão. Uma fraternidade que atravessa o tempo, que acolhe quem chega e honra quem se dedicou por várias décadas à Igreja. Cuidar desta fraternidade presbiteral é cuidar da própria fecundidade da missão que Cristo confiou à Igreja no Funchal.
















