Encerramento do Jubileu: Papa fecha a Porta Santa e questiona se a Igreja é casa de acolhimento ou apenas “monumento”

Foto: Vatican Media

O Papa Leão XIV presidiu, na manhã desta terça-feira, 6 de janeiro, à solenidade da Epifania do Senhor, na Basílica de São Pedro, cerimónia que marcou o encerramento do Jubileu da Esperança, com o rito de fechamento da Porta Santa, “a última ainda aberta em todo o mundo”, gesto simbólico que concluiu oficialmente o Ano Santo iniciado a 24 de dezembro de 2024.

A celebração teve início no átrio da Basílica Vaticana, onde o Papa rezou em silêncio antes de fechar pessoalmente os batentes de bronze. Segundo a fórmula solene pronunciada por Leão XIV, “fecha-se esta Porta Santa, mas não se fecha a porta da tua misericórdia”. No interior do templo, onde estiveram reunidos milhares de fiéis e peregrinos, o Santo Padre evocou os mais de 33 milhões de participantes que ao longo do Jubileu atravessaram a Porta Santa de São Pedro, perguntando: “Milhões deles atravessaram a soleira da Igreja. E o que encontraram? Que corações, que atenção, que acolhimento?”

Na homilia, Leão XIV retomou a imagem bíblica dos Magos e a tensão entre alegria e resistência perante a manifestação de Deus, sublinhando que “celebramos hoje a Epifania do Senhor, conscientes de que, na sua presença, nada permanece como antes. Este é o início da esperança”. Referindo-se aos peregrinos jubilares, falou de homens e mulheres “peregrinos de esperança, a caminho da Cidade cujas portas estão sempre abertas, a nova Jerusalém”, sublinhando que a sua busca espiritual “é muito mais rica do que talvez possamos compreender”.

O Papa advertiu contra o risco de reduzir a experiência religiosa a produto cultural ou turístico, denunciando “uma economia distorcida” que transforma “em negócios até mesmo a sede humana de procurar, viajar e recomeçar”. Por isso, convidou as comunidades cristãs a discernirem os sinais de autenticidade espiritual e a manterem-se atentas ao essencial: “Perguntemo-nos: há vida na nossa Igreja? Há espaço para o que está a nascer? Amamos e anunciamos um Deus que nos põe novamente a caminho?”

O pontífice evocou também aquelas pessoas que, “num mundo conturbado como o nosso, sob muitos aspetos repulsivo e perigoso, sentem a necessidade de partir, de procurar”, insistindo que a Igreja é chamada a acolher esse dinamismo humano e crente. “O Jubileu veio para nos lembrar que é possível recomeçar, ou melhor, que estamos ainda no início, que o Senhor deseja crescer no meio de nós, deseja ser o Deus-conosco”, afirmou.

Numa interpelação direta às comunidades cristãs, Leão XIV alertou contra a tentação de conservar estruturas que não geram vida: “Se não reduzirmos as nossas igrejas a monumentos, se as nossas comunidades forem casas, se resistirmos unidos às seduções dos poderosos, então seremos a geração da aurora”. E acrescentou, em tom de esperança comunitária: “É bom sermos peregrinos de esperança. E é bom continuar a sê-lo, juntos! A fidelidade de Deus continuará a surpreender-nos”.

Ao longo da homilia, o Papa destacou ainda a necessidade de proteger o que nasce e amadurece silenciosamente na vida cristã: “Amar a paz e procurá-la significa proteger o que é santo e, por isso mesmo, nascente: pequeno, delicado, frágil como uma criança”. Referindo-se ao Menino de Belém, recordou que Ele é “um Bem sem preço, nem medida. É a Epifania da gratuidade. Não nos aguarda em lugares prestigiados, mas nas realidades humildes”.

O encerramento do Jubileu ocorreu de forma faseada: as Portas Santas das outras basílicas papais: Santa Maria Maior, São João de Latrão e São Paulo fora de Muros foram fechadas nos últimos dias de dezembro. Nos próximos dias, técnicos da Fábrica de São Pedro irão selar interiormente a Porta Santa com uma parede de tijolos, no interior da qual será colocada a tradicional cápsula metálica (capsis), contendo o relatório de encerramento, as moedas do Ano Santo e as chaves da porta, que só será reaberta no próximo Jubileu.

Este 30.º Ano Santo da Igreja Católica foi aberto em 2024 por Francisco e encerrado, dois anos depois, pelo seu sucessor, Leão XIV, circunstância que não se verificava há cerca de dois séculos e meio, e mobilizou milhões de fiéis oriundos de todo o mundo, confirmando, segundo o Papa, que “os Magos ainda existem”: homens e mulheres que continuam a procurar, a perguntar e a pôr-se a caminho.