O diário do Vaticano publicou esta segunda-feira, 5 de janeiro, um artigo de enquadramento histórico sobre o papel dos Estados Unidos na América Latina ao longo do século XX, recordando múltiplas operações militares e ações encobertas no continente. Intitulado “Um século de ingerências” e assinado por Roberto Paglialonga, o texto do “L’Osservatore Romano” revisita vários episódios de intervenção externa e coloca-os em perspetiva no contexto das tensões políticas contemporâneas.
O autor sublinha que a situação atual na região “não começa certamente com a Venezuela de Nicolás Maduro”, recordando que, ao longo do século passado, “foram numerosas as operações militares, diretas ou ‘encobertas’, realizadas através dos serviços de informação”. O artigo observa ainda que “a última vez em que tropas de Washington intervieram para derrubar um ditador — também então sob a acusação de tráfico de droga e violação dos direitos humanos — foi em dezembro de 1989, no Panamá”.
Paglialonga identifica as origens desta linha de atuação na chamada Doutrina Monroe, ampliada no início do século XX com uma visão estratégica de tutela regional. Segundo o “L’Osservatore Romano”, “Washington reservava-se o direito de intervir nos países da América do Sul sempre que considerasse ameaçados os seus interesses, apresentando-se como garante da estabilidade e da ordem”. Neste quadro, o jornal recorda as incursões militares ligadas ao setor agrícola, bem como a ocupação da Nicarágua, em 1912, com a criação de “uma espécie de protetorado administrado por Washington”, cujo objetivo era “impedir a construção de um canal que pudesse pôr em causa a Zona do Canal do Panamá”.
Um dos momentos centrais analisados é o golpe de 1954 na Guatemala, ocorrido após a aprovação de uma reforma agrária que afetava interesses económicos norte-americanos. O presidente Jacobo Árbenz Guzmán foi deposto “com recurso a mercenários e guerrilheiros apoiados pela CIA, passando o poder para “uma junta militar chefiada por Carlos Castillo Armas”. O artigo acrescenta que “seguiram-se trinta anos de sangrenta guerra civil” e refere que “o papel dos 007 dos EUA no golpe veio a ser reconhecido em 2003”, no quadro da luta contra o comunismo.
O diário do Vaticano percorre depois outros episódios significativos, como o fracassado desembarque na Baía dos Porcos, em Cuba, em 1961, a intervenção na República Dominicana em 1965 e os processos de desestabilização política no Brasil durante a década de 1960. Em particular, destacando o golpe de 1973 no Chile e a posterior instauração do regime militar de Augusto Pinochet, situando este processo no âmbito da chamada ‘Operação Condor’, um mecanismo de cooperação entre várias ditaduras militares do Cone Sul, nomeadamente da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, que partilhavam informações e coordenavam ações de perseguição, sequestro, eliminação e desaparecimento de opositores políticos no espaço transnacional latino-americano. Citando o Relatório da Comissão Nacional da Verdade e Reconciliação, o artigo assinala que, ao longo de 17 anos, foram contabilizados “mais de 3 500 mortos e mais de 30 mil vítimas de tortura e prisioneiros políticos”, advertindo que há estimativas que “consideram que os valores reais poderão ser ainda superiores”.
O texto menciona ainda o apoio aos Contras na Nicarágua, a guerra civil em El Salvador e a invasão da ilha de Granada em 1983, culminando com a operação “Just Cause”, no Panamá, em 1989. Para o “L’Osservatore Romano”, esta sequência de acontecimentos ajuda a compreender a forma como muitos países da região continuam a ler a presença norte-americana no continente, “num espaço marcado por décadas de intervenções externas, operações encobertas e disputas estratégicas”.



















