A fogueira do presépio

Foto: G.A.

No primeiro dia do ano, diante do presépio da igreja do Garachico, a pequena fogueira acesa junto de Maria, José e do Menino deitado na manjedoura parecia não aquecer apenas a gruta, mas também toda a humanidade. A chama era pequenina, quase escondida, mas bastava para criar um espaço de abrigo, dignidade e cuidado. Imaginei então São José, naquela noite, com alguns ramos secos, a preparar uma fogueira como expressão de atenção às pequenas coisas necessárias: calor para a mãe cansada e luz para o recém-nascido.

Essa fogueira humilde e frágil foi para mim símbolo de ternura. Talvez seja isso que a iconografia pressente quando, em certas representações, José segura um candeeiro, sinal de acolhimento e vigília em tempo de espera. Pensei na lâmpada do sacrário. Essa luz que permanece acesa quando todas as outras luzes se apagam, uma luz que guarda o mesmo gesto de José e que indica a presença de Deus.

Ao olhar a fogueira do presépio, vi também outras fogueiras. As que ardem hoje em tendas improvisadas, no meio do inverno, nas zonas devastadas pela guerra, como numa imagem recente das cheias em Gaza: pessoas reunidas à volta de uma fogueira, tentando resistir à chuva, ao frio e ao medo. Famílias que aquecem os filhos com o pouco que têm e procuram, numa chama mínima, um resto de abrigo e dignidade. Nessas fogueiras po-bres arde uma oração de quem apenas deseja sobreviver ao inverno (Expresso, 2.1.2026).

Entre a fogueira do presépio e a fogueira da tenda há uma continuidade que nos interpela a proteger a vida ameaçada. Ambas são fogueiras frágeis, ambas denunciam a vulnerabilidade humana. 

Enquanto permanecia diante daquela pequena fogueira do presépio, percebi que Deus, ao nascer, não pediu grandes templos, mas um lugar aquecido pelo amor. Talvez o Natal comece sempre assim, quando alguém, como José, acende uma pequena fogueira no interior da própria gruta, alimentando a esperança, e quando, diante das fogueiras que hoje ardem no sofrimento do mundo, deixamos que a nossa fé se converta em cuidado.

Hoje, o Natal convida-nos, mais uma vez, a reconhecer onde falta calor, onde a noite é demasiado dura, onde a dignidade humana é deixada ao relento.