Sé do Funchal: D. Nuno Brás assinala conclusão do Jubileu com apelo à esperança que gera futuro

Foto: Duarte Gomes

A fé como herança maior do cristão e fonte de esperança para o mundo marcou a homilia de D. Nuno Brás na Eucaristia solene de encerramento do Ano Jubilar dos 2025 anos do nascimento de Jesus Cristo, celebrada na tarde deste domingo, na Sé do Funchal.

Perante uma assembleia numerosa, que contou com a presença das principais autoridades da Madeira, o bispo do Funchal desafiou os fiéis a reconhecerem, à semelhança de Abraão, que “o verdadeiro bem não está no ter, mas no ser da fé”.

Partindo da Primeira Leitura do Livro do Génesis, D. Nuno Brás evocou a figura de Abraão como paradigma do crente que confia em Deus para além das evidências humanas. “Abraão acreditou no Senhor, não porque os factos o favorecessem, mas porque era Deus a fazer-lhe a promessa”, afirmou o prelado, sublinhando que essa mesma fé continua hoje fecunda na Igreja. 

“É a nós que é dirigida a promessa feita a Abraão. A fé continua a ser fonte de vida, de caridade e de esperança, porque é Deus a trabalhar e a transformar o coração do mundo”, declarou.

Na sua reflexão, o bispo do Funchal lembrou que da fé de Abraão nasceu o povo de Israel e, séculos mais tarde, a Igreja, alargando a promessa a toda a humanidade em Jesus Cristo. 

Citando São Paulo, recordou que todos os baptizados são “descendência de Abraão, herdeiros segundo a promessa”, tornando-se por isso peregrinos não apenas de uma terra, mas “do próprio Céu”.

D. Nuno Brás situou ainda o Jubileu que agora terminou numa longa história de fé que chegou à Madeira e ao Porto Santo através do anúncio cristão, sublinhando a missão permanente da Igreja. 

“Mais do que olhar para o passado, urge caminhar em direcção Àquele que é o princípio e o fim do nosso peregrinar: Jesus Cristo. A tarefa continua enorme, mas a Boa Notícia tem de chegar a todos”, afirmou, apontando já ao horizonte do próximo grande Jubileu, em 2033, por ocasião dos dois mil anos da redenção.

No final da celebração, antes da bênção solene, usou da palavra o Cónego Rui Pontes, em nome da Comissão encarregue das atividades jubilares, que fez uma leitura agradecida do caminho percorrido ao longo do ano. 

“O ano jubilar recolhe-se ao silêncio da história, mas ergue-se diante de nós a memória luminosa de um tempo de graça”, afirmou, destacando que foi “um ano em que as portas da esperança se fizeram mais abertas” e em que a diocese procurou “envolver todos, todos, todos”.

Evocando as peregrinações realizadas nas ilhas, o sacerdote sublinhou que “ressoaram passos de peregrinos movidos por um horizonte que não desaparece: a esperança que não engana”.

Agradecendo o ministério episcopal, afirmou que a presença de D. Nuno Brás “foi fundamental”, reconhecendo “a segurança de um pastor que tentou não deixar ninguém para trás”.

O Cónego Rui Pontes destacou ainda os frutos do Jubileu: “a fé reanimada, a comunhão fortalecida e a caridade feita presença concreta nos dias de tantos irmãos”, desejando que a semente lançada continue a germinar em novos projetos e sonhos para a diocese.

Antes da bênção final, D. Nuno Brás deixou palavras de agradecimento às autoridades públicas e a todos os que tornaram possível a vivência jubilar. “Obrigado às autoridades públicas que facilitaram e proporcionaram tantas e tantas celebrações”, afirmou, agradecendo igualmente aos padres, religiosos e leigos da diocese.

“Vivemos este ano com entusiasmo e com esperança. Que o Senhor nos faça peregrinos de esperança, não apenas neste ano que passou, mas ao longo de toda a vida”, disse, concluindo com um convite a uma salva de palmas para todos os envolvidos.

Com esta celebração, a Diocese do Funchal encerrou oficialmente o Ano Jubilar de 2025, renovando o compromisso de caminhar na fé e na esperança, com os olhos postos em Cristo, “ontem, hoje e sempre”, conforme afirmou o bispo do Funchal.

Leia na íntegra a homilia de D. Nuno Brás:

ENCERRAMENTO JUBILEU 2025

Sé do Funchal, 28 de dezembro de 2025

“Abraão acreditou no Senhor, o que lhe foi atribuído como justiça”

1. Obediente à ordem do Senhor, Abraão tinha partido da casa de seu pai havia já vários anos. Há muito que ele e Sara peregrinavam, vagueavam sem saber bem por onde, “de acampamento em acampamento” (Gn 12,9), obedientes às indicações do Senhor. Uma história de vitórias e de derrotas, de fidelidade e de pecado, de surpresas e de jornadas perfeitamente rotineiras. Mas eis que, depois de tudo isso, no espírito de Abraão surgiu uma dúvida: “Para quê?”. Os bens abundavam-lhe, mas para quê? Abraão não tinha filhos. “Um dos servos será o meu herdeiro”, desabafa ele diante do Senhor (Gen 15,3).

Deus tinha-lhe pedido que deixasse a casa paterna, e Abraão obedecera. Tinha-lhe pedido tantas outras coisas, e Abraão sempre dissera que sim. Deus acompanhava-o, mas qual a recompensa de Abraão? Ainda não tinha percebido que o seu verdadeiro bem, a sua herança, não era constituída pela riqueza do ter, quanto, sobretudo, pelo ser da fé — esse modo de viver enraizado apenas em Deus!

Por isso, na Iª Leitura que escutámos, Deus pedia a Abraão que, saindo da sua tenda, olhasse para o céu: “Assim será a tua descendência”, grande como o incontável número de estrelas. “Abraão acreditou no Senhor, o que lhe foi atribuído como justiça”, terminava a leitura (Gen 15,6). Abraão acreditou, não tendo em conta as evidências ou os raciocínios humanos, mas porque era Deus a fazer-lhe a promessa — o Deus que nunca lhe faltara nas mais diversas circunstâncias da vida; o Deus sobre quem tinha construído toda a existência. Sobre Ele e com Ele, Abraão podia acreditar e esperar.

E, na verdade, de Abraão irá surgir um enorme povo, a quem, tempos depois, o mesmo Senhor libertará do Egito; com quem fará uma Aliança no Monte Sinai; a quem conduzirá à Terra Prometida — precisamente aquela terra da promessa feita a Abraão. Este será o povo a quem, antes e acima de qualquer coisa, o próprio Deus exigirá a atitude de fé: “Quando falei com os vossos pais, nada lhes ordenei a respeito de holocaustos e sacrifícios, no dia em que os fiz sair da terra do Egito. A única ordem que lhes dei foi esta: Escutai a minha voz e Eu serei para vós Deus e vós sereis para mim um povo” (Jer 7,22-23).

De Abraão, surgirá também, muitos séculos depois, o novo povo de Deus, a Igreja: a atitude de fé dos cristãos é a mesma do primeiro Patriarca, só que declinada e centrada no acontecimento salvador de Jesus morto e ressuscitado. É S. Paulo quem o afirma: “Todos vós sois filhos de Deus em Cristo Jesus, mediante a fé; pois todos os que fostes baptizados em Cristo, revestistes-vos de Cristo mediante a fé. Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem e mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus. E se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, herdeiros segundo a promessa” (Gal 3,26-29).

Vemos, assim, como a fé de Abraão continua fecunda — ainda mais fecunda! Quando a fé encontra o seu centro em Jesus, alarga-se a toda a humanidade e faz dos crentes peregrinos não só de um pedaço de terra, mas do próprio Céu, peregrinos de Deus. 

Com efeito, de Jerusalém — uma cidade perdida nos confins do Império — o cristianismo depressa se espalhou e ultrapassou as fronteiras romanas. Ainda com os apóstolos, a fé chegou à Índia e aos lugares “onde a terra acaba e o mar começa” — quer dizer: ao nosso Portugal, à nossa Lisboa. E foi construindo a Europa e a sua civilização. 

Séculos depois, quando o horizonte de vida se expandiu com as descobertas portuguesas e castelhanas, quando “o mundo ficou maior”, a fé continuou a mostrar a sua fecundidade. E os filhos de Abraão continuaram a multiplicar-se — chegaram não apenas ao nosso arquipélago como a todos os lugares onde aportavam as caravelas dos cristãos.

Hoje, não tenhamos dúvidas, irmãos: é a nós que é dirigida a promessa feita a Abraão. Também a nós, não raras vezes nos assalta o temor de que o nosso peregrinar pela vida seja sem objectivos e, sobretudo, sem frutos. Mas também a nós o Senhor faz sair e contemplar o céu estrelado, e nos garante a fecundidade da fé, desse nosso grande e superior bem! Alicerçados nele (que não nas nossas capacidades) a fé continuará a ser fonte de vida, de caridade e de esperança. Porque a fé é Deus a trabalhar, a converter, a transformar o nosso coração e o coração do mundo, tornando-o mais semelhante ao coração de Jesus.

2. Com esta Eucaristia solene, encerramos as celebrações diocesanas do Jubileu dos 2025 anos do nascimento do Salvador. Ao longo deste ano, procurámos fazer com que todas as áreas humanas e geográficas das nossas Ilhas da Madeira e Porto Santo escutassem o anúncio cheio de esperança de que o Salvador nasceu para nós — para toda a humanidade de todos os tempos e lugares. O anúncio de que Ele nasceu para dar sentido à nossa vida e à vida do mundo inteiro; de que apenas nele podemos encontrar a verdadeira salvação; de que apenas nele o mundo inteiro poderá encontrar um futuro digno da humanidade.

Não é aqui o lugar para realizarmos uma avaliação deste ano jubilar, convocado pelo Papa Francisco e encerrado pelo Papa Leão. Mas esta é a ocasião para, como Igreja diocesana, louvarmos o Pai da misericórdia e da esperança; para Lhe agradecermos as graças de perdão, de entusiasmo e coragem, de vida, de fé, que fomos recebendo ao longo deste ano.

Depois de todas as actividades, de todos os jubileus sectoriais que procuraram convocar e inspirar todos na nossa diocese, convidando-os à esperança, eis que diante de nós surge já a aproximação de um novo Jubileu: os dois mil anos da redenção, que havemos de celebrar em 2033, se assim aprouver a Deus. 

Mais que olhar para o passado, urge caminhar em direcção Àquele que, sendo o princípio, é igualmente o fim do nosso peregrinar e do peregrinar do mundo inteiro: nosso Senhor Jesus Cristo. E, contemplando o futuro, contemplando este mundo semelhante a estrelas no céu, como a nossa tarefa aparece ainda enorme, sobre-humana! Urge que a todos chegue a Boa Notícia de Jesus!

A Ele, Senhor e juiz da história, “ontem, hoje e sempre”, seja dada toda a glória e todo o louvor, pelos séculos dos séculos.