Carlos Manuel Ramos: o decorador da alma que transforma espaços em emoções

Foto: G.A.

A obra “Carlos Manuel Ramos: O decorador da alma – Histórias do homem que transforma espaços em emoções” será apresentada na Igreja Matriz da Ribeira Brava, após a missa das 12 horas, num local que o autor descreve como parte essencial da sua própria história espiritual e humana. O livro reúne memórias, testemunhos, fotografias e narrativas de vida que atravessam décadas de dedicação à Igreja. Mais do que um registo de trabalhos, a obra assume-se, nas palavras do próprio, como “um livro da vida”, tecido de afetos, gratidão, fé e emoções.

A vida de Carlos Manuel Ramos está profundamente ligada à Ponta do Sol, à Ribeira Brava e à experiência de serviço à Igreja, onde, ainda jovem, começou a descobrir a sensibilidade estética e espiritual que marcaria todo o seu percurso. “Havia um grupinho que se dedicava à capela, a arrumar, a dar um jeito, a preparar a missa, isso tudo, e eu fiz parte desse grupinho”, recorda, referindo-se à capela do Lugar de Baixo, onde começou a colaborar na organização das celebrações.

Foi ali que, pela primeira vez, lhe pediram para decorar a festa de Santo António. “Decorei a capelinha com antúrios cedidos pelas estufas da Ponta do Sol. Na altura, a capelinha era decorada com jarras, não se faziam arranjos, e foi a primeira vez que eu faço uns arranjos ali. Não tinha experiência, mas já tinha um certo gosto.” A criatividade manifestou-se em pequenos pormenores, numa decoração simples, mas inovadora para o contexto da época. O resultado chamou a atenção do padre Gil, então pároco da Ribeira Brava, que o convidou a colaborar na festa de São Pedro. “Desse dia que eu entrei lá, até hoje, eu nunca mais saí de lá.” A partir daí, Carlos Ramos passou a colaborar, de forma constante e gratuita, nas principais celebrações da comunidade. “Nunca, nunca na vida cobrei nada. Tudo o que eu podia, dispunha lá. Nunca levei um tostão.”

Enquanto a colaboração pastoral crescia, também a dimensão profissional se transformava. Licenciado em Direito, com formação em registos e notariado, exerceu durante anos funções na administração pública, mas os pedidos para ornamentar a igreja para casamentos, ramos de noiva e arranjos particulares começaram a multiplicar-se. “Eu fazia muitos trabalhos ao fim de semana”. Foi daí que nasceu a primeira loja na Ribeira Brava, “género florista”, com peças decorativas, que viria a crescer progressivamente até se transferir para o Funchal, onde nasceu o espaço “Alpendre”. “Tive a necessidade de vir para o Funchal (…) e foi aqui que cresci profissionalmente.”

D.R.

Durante vários anos, conciliou o trabalho público com a atividade criativa, até que a doença o obrigou a tomar uma decisão definitiva. “Quando me dediquei 100% aqui, foi quando tive mais projeção. Tive mais tempo para me dedicar a este ramo. Acho que foi a opção certa. Para já, é o meu mundo. Eu gosto disto e consigo, do pouco, fazer muito.” A experiência da doença tornou-se um ponto de viragem interior. “Depois que tive a doença, eu faço tudo… parece que é sempre com a sensação de que pode ser a última vez. Parece que a qualquer altura posso não poder fazer mais o próximo.” Esse sentimento marcou sobretudo o casamento da filha e o batismo da neta, momentos vividos com grande intensidade afetiva. “Muita coisa mudou na forma de estar com o outro. Eu mudei completamente.”

Hoje, é procurado para projetos “chave na mão”, acompanhando as famílias desde a fase de obra até à decoração final. “Tenho, quase todas as semanas, casas que me entregam a chave para fazer tudo. Confiam em mim.” Define a sua missão muito para além do nível estético. “Eu sou um decorador onde transformo a arte em emoções, onde transformo a beleza… porque eu toco lá dentro. Eu não faço só por fazer ou por arte. Eu dou mais alguma coisa às pessoas.” Muitas pessoas dizem-lhe que sentem “uma energia positiva” nas casas onde intervém, algo que associa à atenção, à memória e ao cuidado humano. “Eu deixo uma marca, não só de decoração, mas algo muito interior, muito espiritual.” Um dos seus princípios é o respeito pelas peças antigas das famílias. “Gosto muito de aproveitar as peças antigas que as pessoas têm. Não me desfaço delas. Temos é que saber enquadrar. É importante respeitar as memórias.”

Nas páginas do livro surgem ainda as raízes familiares, em particular a figura da avó, a “tia Briosa”, mulher pobre, de profunda fé e grande dignidade, que transmitiu valores de religiosidade, família e trabalho. Também a relação com os pais, o luto e os gestos simbólicos de afeto, como o cordão de ouro entregue pela mãe e oferecido à filha no dia do casamento, ocupam lugar central. “São pequenos gestos que, na minha vida, têm muito significado.”

Para Carlos Manuel Ramos, ser “decorador da alma” é transformar espaços. mas, sobretudo, cuidar de pessoas, memórias e afetos, deixando em cada lugar um sinal da beleza que permanece.