Fogo de Ano Novo

Foto: G.A.

Ao aproximar-se a meia-noite, inicia-se a contagem decrescente até que se ouve, no ar, o estrondo dos primeiros lançamentos de fogo-de-artifício. Os céus do anfiteatro do Funchal iluminam-se em explosões de cor: chegou o Ano-Novo.

Segundo o Pe. Eduardo Pereira, na obra “Ilhas de Zargo”, a tradição de queimar foguetes teria origem num antigo costume inglês, remontando ao “tempo dos donatários”, embora essa prática tenha caído em desuso e sido retomada no século XIX. O autor destaca o papel do negociante João José Rodrigues Leitão, que “renovou-a com grande dispêndio de sua bolsa, generalizando essa festa luminosa entre as famílias nobres e ricas do Funchal”. Em convergência, o Elucidário Madeirense refere que o costume não é muito antigo, situando a sua expressão pública entre 1860 e 1865.

A partir daí, a população, de forma espontânea, também quis promover um espetáculo luminoso. As crónicas mencionam figuras como António de Andrade Júnior, revendedor de “fogo de sala”, entre os protagonistas destas manifestações populares, sublinhando que “não havia pobre nem rico que não contribuísse voluntariamente para a consagração desta noite”. Em 1921, o Reid’s Hotel, “principal centro turístico da colónia britânica”, começou a colaborar com o povo, introduzindo fogo de Viana do Castelo e conferindo maior projeção ao evento, que, mais tarde, viria a ser apoiado pelas autarquias, atendendo ao seu impacto turístico.

Ao longo do século XX, a tradição consolidou-se como marca identitária e fator distintivo da Madeira no panorama internacional. A singularidade do espetáculo pirotécnico madeirense foi amplamente reconhecida, tendo o fogo-de-artifício de Fim de Ano do Funchal sido distinguido, em 2006/2007, pelo “Guinness World Records” como o “maior espetáculo de fogo-de-artifício do mundo”, reforçando o vínculo entre memória histórica, turismo e projeção cultural da região.

O fogo-de-artifício da passagem do Ano na Madeira não se resume ao espetáculo visual, mas assume um carácter ritual, comunitário e simbólico, que continua a reunir madeirenses e visitantes no mesmo anfiteatro de luz, num pacto anual com a esperança.