Uma das tradições mais caraterísticas do Natal madeirense é a visita aos presépios, ou, como popularmente se diz, a “visita às lapinhas”. Trata-se de um costume profundamente enraizado na vivência religiosa e familiar desta quadra natalícia.
Guardo, a esse propósito, a memória da visita dos padres do seminário à minha casa pelo Natal. Recordo-me que, diante do presépio, fazia-se uma oração, cantava-se um cântico natalício e, acima de tudo, criava-se um espaço de proximidade com as famílias. A lapinha tornava-se, assim, ponto de convergência entre a fé celebrada e a vida quotidiana.
A importância desta prática é confirmada por diversas fontes históricas e etnográficas. No texto sobre o Natal Português, publicado pela revista Alma Nova (Lisboa, 1923), ao abordar a Ilha da Madeira surge apenas um elemento distintivo: “faz-se a visita às lapinhas”. A descrição sublinha o seu caráter teatral, com duas personagens cómicas que dialogavam diante do presépio — “Eu venho da serra, de longe cansado: / Por ver o Menino deixei o meu gado” — terminando em coro: “Meu Menino Deus, do meu coração / Amar-te sim sim; deixar-te não, não”. Estas estrofes aparecem de forma mais desenvolvida no Romanceiro do Archipelago da Madeira, de Álvaro Rodrigues de Azevedo (1880), testemunhando a antiguidade e riqueza cultural deste costume.
As memórias do Natal da infância ajudam também a perceber como este ritual marcava o ritmo da quadra festiva. Duarte Caldeira recordava que “a primeira oitava, era dia de ir à missa, de ir ver as lapinhas dos vizinhos” (Diário de Notícias, 2018). A visita às lapinhas integrava-se, assim, numa prática coletiva.
O padre Pita Ferreira descreve este ritual em O Natal na Madeira (1956): “É costume, nas oitavas do Natal, visitar as lapinhas da vizinhança, do sítio e até da freguesia”. Diante do presépio, rezava-se, cantava-se, tocavam-se instrumentos e deixavam-se esmolas num pires colocado junto à lapinha. Nalguns lugares, jocosamente, surgia mesmo a expressão: “O Menino mija?”, registada por Lídio Araújo (A Festa, 2002).
A visita alargava-se ainda a alguns presépios públicos de grande notoriedade, como a antiga “lapinha do caseiro” (que agora podemos visitar no Museu Etnográfico da Madeira) que se tornavam verdadeiras atrações culturais e religiosas durante o tempo natalício.
Hoje, a visita aos presépios continua a ser uma experiência singular. As lapinhas espalham-se pelas igrejas, pelos centros urbanos e pelas localidades mais recônditas da ilha. Nas visitas que tenho realizado nos últimos anos, tenho feito quase uma “rota das lapinhas”, na qual faço questão de incluir presépios como o do Curral das Freiras, Jardim da Serra, Garachico e Porto da Cruz, lugares onde o Natal continua a ser vivido com profundidade, criatividade e memória.




















