No recanto do Sítio do Laranjal Pequeno, em Santo António, vive a Sr.ª Matilde Cró, com 101 anos, guardiã de memórias que atravessam gerações. Entre histórias antigas e práticas que desapareceram, conta como era o Natal de antigamente, quando a simplicidade, o trabalho manual e a devoção moldavam os dias festivos.
“Eu lembro-me que a gente fazia uma lapinha pequeninha”, recorda, abrindo a porta a um universo familiar onde o Natal se construía com tempo, engenho e aquilo que a terra e dava.
A lapinha feita à mão e a escadinha
Naquele tempo, a lapinha era obra da família. “Era o meu pai, à época, que fazia a lapinha, era com socas de cana, soca de cana vieira, e depois era forrado. E então fazia a lapinha, aquelas casinhas todas, mas depois começou a fazer a escadinha”.
As casinhas eram feitas à mão, com meios simples: “Faziam-se as casinhas, com um bocado de papel. Papel, uma coisinha de goma e farinha”. A iluminação vinha da criatividade popular. Faziam “um farol” com “um saquinho de papel e no meio uma vela, no fundo do saco, era feito com um pataco [carica], amarrava-se com uma coisinha de arame por baixo… ficava bonito”.
O avô ajudava a trabalhar a cana-vieira, forrava-se tudo de papel, abriam-se buraquinhos e distribuíam-se os animais: “Tinha o gadinho por ali, tinha ovelhas.” Os bonecos, muitas vezes, vinham da loja, mas nem sempre. As imagens do presépio: São José, Maria e o Menino Jesus eram elaborados em casa: “chegamos a fazer com palha de milho, milho de maçaroca, com palha de maçaroca”.
Na escadinha, colocavam-se frutas. O Menino Jesus surgia deitado nas palhinhas e “no fim da escadinha tinha o Menino Jesus em pé.” Havia ainda outros “santinhos”, comprados pelo pai.
Quando se visitavam lapinhas, ouviam-se expressões hoje quase desaparecidas. Uma delas era “o Menino mija”. Matilde confirma: “Ouvia-se falar, mas o meu pai não gostava de falar”.
O pão, o forno e o “brindeirinho”
O Natal fazia-se também no ritmo da casa: “Tinha um forno grande, fazia em casa o pão”. A avó era presença central: “A minha avó amassava pão, amassava farinha para fazer pão”.
Para as crianças, havia um pão especial: “A minha avó então arranjava, dizia que era um brindeirinho para os pequenos”. Com a farinha que sobrava, moldavam-se pãezinhos pequenos: “Raspava aquela farinha toda e fazia aqueles pãezinhos pequeninos, para pôr na porta do forno, depois do pão estar cozido”.
A noite de Natal
Na véspera, a família ia à igreja. “Ia-se à missa. A gente ía à missa de noite. A noite de Natal.” Não havia autos de Natal nem teatro com anjos. Depois da Missa, regressava-se a casa: “Vinha-se embora para a nossa casa, já faziam uma coisinha de café ou cacau”.
A ceia distinguia-se do resto do ano, embora fosse modesta: “Um bocadinho de bacalhau ou um bocadinho de carne de vinho e alhos, uma coisa diferente.” A carne de vinho e alhos já fazia parte da tradição familiar: “Já havia. Sempre me lembra, já do meu pai, fazerem carne de vinho e alhos. Sempre.”
O porco e a salgadeira
A carne vinha do porco criado em casa. A conservação era cuidada e rigorosa. “Era salgada numa salgadeira”, feita ou comprada em cimento. O pai impunha regras claras: Mexer “de baixo para cima, o meu pai não deixava”. Retirava-se apenas o necessário, “com um garfo grande, um com três espetos”, para evitar o ranço. Assim, a carne “aguentava o ano inteiro”.
Café de cevada, leite e manteiga
O café não era o que hoje se conhece. “A minha avó torrava cevada para fazer café”. Plantava-se, malhava-se e moía-se. “Era cevada bastante torrada e moída, numa panelinha velha… a avó torrava o café, ia sempre mexendo para não pregar no fundo”. Era esse o café que existia. “Só de cevada, porque café do bom não havia”.
Quando havia leite de vaca, juntava-se, assim como um pouco de água a ferver. A manteiga também se fazia em casa: “Já havia manteiga que a pessoa fazia com a sua mão”. Recorda que o seu pai comia “milho com manteiga”, pois não havia, nem peixe nem verduras.
O dia de Natal e as brincadeiras
O dia de Natal era passado em família: “Toda a família, juntava-se no dia de Natal”. As crianças distraiam-se, brincavam com “pedrinhas, umas pedrinhas redondinhas.” Havia também o jogo da bilhardeira: “era com um pau… algum levava uma vergastada nas costas”, disse entre sorrisos.
Roupa nova, feita em casa
O Natal trazia também roupa nova. “Sim. A minha mãe fazia com a mão dela”. O pai comprava pedaços de tecido no Funchal e a mãe cosia: “Um vestidinho novo ou isso, com a mão dela”.
Um Natal guardado na memória
Para Matilde Cró o Natal é uma realidade concreta, cheia de sentido e sabor: feito de socas de cana-vieira, papel, farinha, pão, carne de vinho e alhos, cevada e trabalho partilhado. Um Natal vivido no interior das casas e em família, onde cada gesto tinha um significado próprio, um verdadeiro património imaterial que resiste enquanto alguém o souber contar.


















