Disponibilidade para partir

D.R.

Quando lemos os evangelhos, percebemos facilmente que Jesus não era homem de ficar muito tempo no mesmo lugar. Pelo contrário: vêmo-lo sempre a partir, a deslocar-se de uma aldeia para outra. Do seu modo de ser faz parte uma urgência de chegar a todo o lado, de encontrar multidões. E, quando encontra alguém, esse encontro transforma: que o diga Zaqueu, ou a Samaritana, ou Natanael, ou tantos, tantos outros. 

Esta mesma urgência, Jesus transmitiu-a também aos seus discípulos, mesmo quando eles, depois dos acontecimentos da Páscoa, se preparavam para ficar agarrados a Jerusalém. O Espírito Santo é vento, movimento, dinamismo. E os discípulos não foram só pelo mundo conhecido: ajudaram sobretudo aqueles a quem chegava o Evangelho a fazerem caminho interior, a mudar, tantas vezes apesar do ambiente em que viviam, das modas do seu mundo, do pensamento vigente.

É esta disponibilidade que tantas vezes nos falta. Por natureza, preferimos o que já conhecemos, gostamos de mostrar aos outros que tínhamos razão, mais que mudar o nosso pensamento. Estamos dispostos a tudo, menos a mudar — e a mudança chama-se, aqui, conversão.

O Advento é Deus que vem até nós. É certo que Ele próprio se humilha para se fazer um como nós (e nisso nos dá um grande exemplo porque, a partir desse momento, houve algo que nele também mudou); mas é sobretudo verdade que, quando temos a disponibilidade para acolher Deus na nossa vida, Ele jamais nos deixa ficar como estávamos. Sempre muda e transforma.

Talvez por isso tenhamos tanta resistência para O acolher. Talvez por isso tenhamos tanta dificuldade em viver o Natal dum modo mais cristão.