“A gente fazia uma lapinha pequeninha”

O Natal de antigamente de Matilde Cró, aos 101 anos

No recanto do Sítio do Laranjal Pequeno, em Santo António, Matilde Cró, hoje com 101 anos, guarda na memória um Natal feito de gestos simples e trabalho partilhado. As suas recordações transportam-nos para um tempo em que a Festa se construía dentro de casa, com aquilo que a terra dava e as mãos sabiam fazer. “Eu lembro-me que a gente fazia uma lapinha pequeninha”, conta, evocando um Natal, sem excessos, mas cheio de sentido e pertença.

A lapinha era o centro da celebração e nascia do engenho familiar. O pai fazia-a com socas de cana-vieira, as casinhas eram moldadas com papel, goma e farinha, iluminadas por pequenos “faróis” de papel com vela dentro, presos com arame e um pataco [carica] no fundo. Na escadinha colocavam-se frutas, o Menino Jesus aparecia deitado nas palhinhas e em pé no topo, e os animais e “santinhos” completavam o cenário.

O Natal fazia-se também à mesa e no forno: pão amassado em casa, o “brindeirinho” para as crianças, café de cevada torrada porque “café do bom não havia”, carne de porco salgada na salgadeira para durar o ano inteiro. Na véspera, ia-se à Missa da noite e regressava-se para um café ou cacau; a ceia era modesta, mas diferente, com bacalhau ou carne de vinho e alhos. No dia 25, a família juntava-se e as crianças brincavam com pedrinhas ou à bilhardeira. Um Natal feito à mão, verdadeiro património imaterial que resiste enquanto houver quem o saiba contar.

Pedras Vivas 21 de dezembro de 2025 (A4)

Pedras Vivas 21 de dezembro de 2025 (A3)