Missa do Parto assinalou Jubileu dos Reclusos com mensagem de esperança e reinserção

Foto: Duarte Gomes

A Missa do Parto celebrada na manhã desta segunda-feira no Estabelecimento Prisional do Funchal (EPF) ficou marcada pela evocação do Jubileu dos Reclusos, num momento particularmente significativo vivido em ambiente prisional, sublinhando a esperança, a dignidade humana e a possibilidade de recomeço. 

A celebração, que contou com a presença de Cármina de Freitas João, diretora do EPF e demais membros da direção, elementos do corpo de guardas e, claro, reclusos, foi presidida por D. Nuno Brás e concelebrada pelo padre Alberto Fernandes e pelo cónego Rui Pontes, membro da Equipa do Jubileu.

Na homilia, D. Nuno Brás partiu do Evangelho proclamado para alertar para o risco de uma fé fechada e incapaz de ir mais além das aparências. Recordando a atitude dos doutores da Lei, afirmou que “não foram capazes de ver mais longe do que o homem, simplesmente”, ficando presos aos seus próprios critérios e hábitos. “Não foram capazes de reconhecer a presença de Deus”, disse, acrescentando que também hoje os cristãos podem cair no mesmo erro ao reduzir Jesus “a um homem que disse coisas bonitas, mas mais ou menos impraticáveis”.

O bispo sublinhou que, apesar das limitações humanas, “é possível ultrapassar estas dificuldades”, não pela força própria, mas porque “Deus quer mudar-nos” e trabalha pacientemente no interior de cada pessoa. Citando uma frase observada numa parede da instituição prisional — “somos mais do que os nossos erros” —, D. Nuno Brás reforçou que cada ser humano é sempre maior do que as suas falhas. “Os erros são erros e têm consequências, mas nós somos muito mais do que isso. É nesse ‘mais’ que Deus trabalha”, afirmou.

Dirigindo-se de forma especial aos reclusos, deixou um apelo natalício a ir além das aparências e dos rótulos: “Este que errou é mais do que o seu erro. É um ser humano, é um filho de Deus, é alguém a quem Deus ama”. Convidou todos a deixar que o Menino que nasce no Natal faça também nascer vida nova no coração, ajudando a “fazer Natal” mesmo em contextos de maior dureza.

Também o cónego Rui Pontes, da Equipa do Jubileu, usou da palavra para testemunhar como a esperança se constrói muitas vezes a partir de pequenos gestos. Recordou a história de um recluso a quem foi oferecido um par de sapatilhas, gesto simples que acabou por se tornar “um sinal de esperança”, uma forma silenciosa de dizer: “alguém pensa em mim”. Mais do que o objeto em si, explicou, conta o significado profundo de alguém lutar pelo outro e acreditar nele.

O sacerdote sublinhou que “atrás das grades há mais do que um castigo: há homens e mulheres à espera de um olhar que diga ‘ainda é possível’”. Defendeu que a prisão não deve ser apenas um espaço de muros e fechaduras, mas “um campo onde a esperança é ensinada”, onde a reinserção se constrói com paciência, confiança e perdão. “A liberdade começa muitas vezes antes das portas se abrirem”, afirmou.

O cónego Rui Pontes agradeceu ainda a todos os que colaboram diariamente na pastoral prisional e no acompanhamento dos reclusos, desde os sacerdotes aos guardas prisionais, técnicos, voluntários e equipas do Jubileu, bem como às paróquias envolvidas na recolha de produtos de higiene, oferecidos como sinal concreto da proximidade da Igreja.

No contexto do Jubileu, explicou também que, embora os reclusos não possam estar fisicamente presentes no encerramento jubilar, participarão simbolicamente através de uma bandeira que passará pelas celas para ser assinada, marcando a sua comunhão com toda a Igreja.

No final da celebração, foi entregue a cada recluso um pequeno Menino Jesus e imagens da Virgem Maria com o Menino, uma das quais acompanhada de uma oração, como sinal de fé, proximidade e esperança num caminho novo que continua a ser possível.