Martinho Gomes faz coleção de Pais Natais e tem em casa mais de três centenas

Foto: Duarte Gomes

Comprar uma escadinha tradicional foi o que nos levou até à garagem de Martinho Gomes, no Caminho do Pilar, 59. Porém, conversa puxa conversa, ficamos a saber que este senhor possui uma coleção de mais de 300 Pais Natais. Apaixonado pelo Natal e pelo ‘gorducho’ de barbas brancas, não tardou a convidar-nos para visitar a sua casa para vermos com os nossos próprios olhos a dita coleção. No dia e hora combinados lá estávamos nós e lá estava Martinho, vestido a rigor à nossa espera. Mal entramos à porta demos com uma casa toda ela decorada com imagens do ‘senhor de barbas brancas’. Os exemplares, de vários tamanhos e materiais, tanto são estáticos como se mexem. São na maioria comprados pelo colecionador, mas alguns são ofertas e vêm de vários cantos do mundo, o que torna a coleção ainda mais especial. Mas há mais…

Ao entrar na casa de Martinho Gomes, é impossível não sentir que se atravessa um limiar para um mundo próprio. Não é apenas decoração natalícia: é um universo construído peça a peça, memória a memória, ano após ano.

“Isto começou devagarinho”, conta-nos o colecionador de 78 anos, enquanto aponta para um dos primeiros bonecos colocados à entrada da porta. Martinho lembra-se com precisão o momento em que tudo começou, tinha então 37. 

Nessa altura, recorda, “trabalhava numa loja e começamos a receber Pais Natais e eu, curioso, pedia para abrir para ver o que é que eles faziam. Aí fui me entusiasmando… e agora já são mais de 320.”

As prateleiras, mesas, cómodas e aparadores enchem-se de figuras do Pai Natal. Alguns tocam música, outros mexem os braços, uns saem de dentro de caixas, outros iluminam-se e outros até andam de avião. Há exemplares enormes e outros tão pequenos que cabem na palma da mão. Até no frigorífico há ímanes de vários tamanhos e feitios.

E atenção que nem todos estão expostos, conforme faz questão de nos referir o nosso anfitrião. “Tenho muitos guardados na cave. Não ponho todos os anos os mesmos. Vou alternando.” Martinho diz isto com orgulho, como quem gere um museu particular. A cave, explica-nos, é o ‘cofre’ onde dorme o restante ‘exército’ natalício, cuidadosamente acondicionado.

Foto: Duarte Gomes

Esposa coleciona Meninos

Mas a paixão de Martinho não vive sozinha. A esposa mantém outra tradição: coleciona Meninos Jesus. “Essa parte é dela”, explica Martinho enquanto nos mostra um espaço repleto de pequenas imagens cuidadosamente dispostas.

Pela casa, encontram-se dezenas deles: em porcelana, madeira, resina, tamanhos variados, alguns antigos, outros modernos. Estão em pequenos nichos decorativos, perto das velas, entre ramos e estrelas e, claro, nas escadinhas.

“Na verdade, a decoração da casa é muito dela. Eu tenho as minhas coisas, mas quem organiza e põe tudo bonito é ela”, diz Martinho novamente com o orgulho espelhado no rosto.

A união das duas coleções cria um ambiente raro: uma casa que celebra o Natal tanto na sua vertente espiritual como no seu lado festivo e cultural.

Ao longo dos anos, esta dedicação conjunta transformou esta casa numa referência. Não tardaram a surgir jornalistas curiosos como nós, visitantes ocasionais, entre eles alguns sacerdotes, que por lá passaram para conhecer a coleção. Martinho recebe todos com a mesma simpatia e entusiasmo, sempre pronto a contar histórias e recordar episódios da sua vida.

Pai Natal de muita gente

Nós não fomos exceção. Recebidos com anis e broas, confecionadas pela esposa, o nosso anfitrião recordou que, durante anos, depois da reforma em 2005, viveu a sua paixão pelo Natal muito para além das paredes de casa. 

Vestia-se de Pai Natal na revéspera da Festa e percorria ruas, mercados, lojas e até repartições públicas, para já não falar das muitas Missas do Parto a que ia.“Eu adorava vestir o fato. Era uma alegria que não sei explicar. As pessoas sorriam sempre que me viam e ouviam o Ho, Ho, Ho!” 

Consigo levava um saco, não de brinquedos, mas de iguarias da época, como anis, licor de tangerina, aguardente com mel e latas decoradas com Pais Natal cheias de bolo de mel e broas que ia distribuindo.

Ainda hoje, há quem o reconheça na rua. “Às vezes ouço: ‘Olha o Pai Natal!’ E eu rio-me. Sou eu mesmo.” Martinho fala desses tempos com nostalgia. Um acidente que o atirou para uma cama de hospital e o fez ganhar uma prótese, tornaram essas saídas mais complicadas. Mesmo assim e contra a vontade da mulher, que teme pelo seu bem-estar, continua a sair de casa e a ir ao centro do Funchal a pé tomar um cafezinho com os amigos.

Foto: Duarte Gomes

Escadinhas nascem a garagem

Ironia ou não, foi pelas escadinhas tradicionais que, como já referimos, chegámos até Martinho Gomes — e que descobriríamos tudo o resto.

Nesta altura do ano, mais precisamente a partir de 2 de novembro, a garagem abre portas. A garagem que, desde 2020, vira também oficina. Há madeira empilhada, ferramentas alinhadas com precisão e um ambiente de trabalho sossegado.

“As escadinhas são todas feitas aqui. E estas casinhas também. Demoro um dia a fazer uma [casa] de tamanho normal, forrada a palha ou com ripinhas de madeira. As grandes, aquelas mesmo grandes, levam mais tempo. “É que ali não há máquinas. “É tudo feito à mão, com serras, pregos e martelo”.

Sobre quem compra as suas obras de arte Martinho diz que são sobretudo residentes, mas também alguns emigrantes.

Quanto a tamanhos, e no que às escadinhas diz respeito, as pessoas preferem as de três patamares. São essas que têm mais saída. Este ano já vendeu mais de 20. As pequenas custam 80 euros e as maiores, com quatro degraus, são 100. Mas Martinho não se importa que as pessoas “parem só para ver”.

Em relação às escadinhas, o mestre esclarece que apenas faz a estrutura em madeira. O acabamento é obra de outra artista. “Eu faço a parte da madeira. Depois dou a uma rapariga que faz o resto. É ela forra, põe as rendas e faz o resto dos acabamentos.” Uma parceria de confiança que dura há anos e que torna cada escadinha um trabalho artesanal completo e único. 

Também há, acrescenta, quem leve a escadinha em bruto, para pintar ou forrar à sua maneira. “Faz-se o desconto e pronto, a pessoa leva”.

Foto: Duarte Gomes

Outubro é mês de ‘despertar’

Mas quando é que toda esta azáfama começa realmente, quisemos nós saber. A transformação da casa começa cedo. “A partir de finais de outubro começamos a subir as coisas da cave. São caixas e caixas…”, diz Martinho, fazendo um gesto largo com as mãos.

Os Pais Natais são colocados num quarto antes da esposa decidir o lugar que vão ocupar. É aí também que se colocam as pilhas naqueles que as levam, conforme nos diz Martinho, para logo acrescentar que “se fosse para pôr em todos precisava de mais de 200”.

É um processo a dois: “Isto só fica assim porque fazemos juntos. Eu trago as coisas, monto algumas peças, mas a criatividade é dela [esposa], que é o meu braço direito e esquerdo.”

A cada ano, a decoração é ligeiramente diferente. Os bonecos também variam. “Não gosto de deixar igual. Vou rodando. Há sempre alguma novidade.” Novidades que ficam quase sempre expostas até ao fim de janeiro.

A casa que faz parar o trânsito

A própria fachada da casa e o jardim que são todos iluminados tornaram-se um pequeno ponto de referência. “Há pessoas que param os carros só para ver. Outras vêm porque já sabem que aqui há sempre algo diferente.”

À medida que dezembro se aproxima, há mais fotografias tiradas à porta, mais curiosos a observar e mais vizinhos a aplaudir a dedicação do casal.

Martinho, sereno, resume tudo numa só frase: “Enquanto eu puder, o Natal vai viver nesta casa.” De resto, “aqui é a casa do Pai Natal”, diz, repetindo uma das frases que tem escritas num conjunto de letreiros no quintal. 

E olhando para a sua casa — para os Pais Natais, os Meninos Jesus, as escadinhas, as luzes — percebemos que ali o Natal é mais do que uma festa: é uma forma de vida.