Bolo de mel

D.R.

Já não é preciso esperar pelo Natal para encontrar bolo de mel. Tornou-se um produto turístico, disponível todo o ano, mas não é desse que falamos. Falamos do bolo de mel caseiro, feito com tempo e cuidado, com mel de cana-de-açúcar regional, especiarias e frutos secos, preparado inteiramente à mão, desde a confeção até ao momento em que se parte com as mãos, como manda a tradição. Não se corta com faca. Parte-se. Um gesto que indica partilha e comunhão, tal como o pão em muitos contextos familiares e religiosos. O bolo de mel de que falamos só aparece no Natal e só no Natal revela plenamente o seu sabor.

A reputação da doçaria madeirense vem de longe. Já em 1583, o jesuíta Fernão Cardim referia, numa visita ao Brasil, doces “tão bem feitos que pareciam da Ilha da Madeira”. Talvez não soubesse que essas “coisas doces” tinham, na verdade, uma relação direta com a Madeira. Muitas delas, feitas à base de frutas em calda e conservas, remetem para saberes trazidos pelos madeirenses que se fixaram no Brasil e montaram engenhos de açúcar. Duarte Nunes de Leão, no século XVI, afirmava que “as conservas da Madeira eram as mais perfeitas de todas”, enquanto o padre Gaspar Frutuoso, nas “Saudades da Terra” (1586–1590), elogiava os “deliciosos manjares e cordiais conservas da Ilha da Madeira”.

A origem conventual do bolo de mel ajuda a compreender essa excelência. Nos mosteiros, em particular nos das irmãs Clarissas da Encarnação e de Santa Clara, desenvolveram-se técnicas e saberes que transformaram produtos locais em receitas sofisticadas. A isso juntam-se a centralidade da Madeira nos circuitos atlânticos e a cultura da cana-de-açúcar, o antigo “ouro branco” da ilha, base de uma economia e de uma identidade.
A presença inglesa deixou também marcas, visíveis na proximidade com outras tradições europeias, como o bolo inglês rico em frutas cristalizadas. Ainda assim, o bolo de mel da Madeira conserva uma singularidade muito própria.

Num tempo de consumo imediato, o bolo de mel lembra-nos que há sabores ancestrais que exigem espera e memória. É um doce que não se explica apenas pela receita, mas pela história que transporta e pelos gestos que o acompanham. Saboreá-lo é absorver um pouco da identidade madeirense: a herança conventual, o árduo trabalho agrícola, o encontro de diversas culturas. Talvez por isso tenha um sabor especial no Natal, não apenas pelos ingredientes, mas por tudo o que significa.