“Olhar, pensar e celebrar a Família”: Equipa Nacional do Movimento por um Lar Cristão dinamiza encontro na Madeira

Membros da Equipa Nacional do MLC dinamizaram encontros na Madeira | D.R.

A Diocese do Funchal recebeu, na primeira semana do Advento, a Equipa Nacional do Movimento por um Lar Cristão (MLC), que dinamizou um conjunto de encontros e momentos formativos ligados ao tema anual do Movimento: “Olhar, pensar e celebrar a Família”. Representando esta equipa estiveram na Madeira o casal presidente nacional, Anabela e Aires Freitas, e a cooperadora da família, Maria do Céu Simões. A visita integrou o retiro de Advento na paróquia de Santa Maria Maior, com casais e um encontro realizado na paróquia da Nazaré. Nesta paróquia, também as Mensageiras da Família se reuniram com a cooperadora da família para, em conjunto, refletirem no modo de viver a etapa a trabalhar durante este ano 2025/2026 no Instituto: “Segui o Caminho do Amor”. Entre momentos de oração, partilha e convívio, houve tempo para escutar histórias de vida, perceber o caminho que o Movimento está a fazer no país e conhecer melhor duas publicações do Instituto Secular das Cooperadoras da Família: O Jornal da Família, (publicação mensal) e o Almanaque da Família 2026.

Anabela e Aires: 30 anos a crescer no MLC

Aires e Anabela Freitas fazem parte do Movimento por um Lar Cristão (MLC) há trinta anos. Ele tem 64 anos, ela 59, são casados há 42 anos e têm duas filhas e duas netas. “Somos a família Freitas”, apresentam-se. A entrada no Movimento ocorreu através de um encontro simples: “Tivemos um convite para irmos a um magusto. Aí houve um casal da nossa paróquia que nos viu e começou a convidar-nos. Fomos experimentar e gostámos”.

Este primeiro contacto marcou o início de um caminho sustentado no acolhimento: “Foi muito importante o acolhimento das cooperadoras da família e do sacerdote”, que os ajudaram a crescer na fé e na relação com a Igreja.

Anabela confessa que, no início, teve receio de que se tratasse de “um movimento fechado, que nos fechava para a nossa paróquia”. A experiência mostrou o contrário: “Foi um movimento que nos motivou tanto a nós como aos outros casais a irmos para fora, à missão e portanto, além de participarmos na missa como fazíamos até aí, começámos a procurar o que é que o padre precisava de nós, que lhe déssemos resposta, e assim foi”.

Hoje, o casal permanece muito ligado à vida comunitária: Aires integra há quase trinta anos a “Equipa da Boa Vontade” na igreja de São Pedro de Alcântara, uma equipa que organiza as procissões e pequenas obras; Anabela ajudou a lançar o jornal paroquial, integra o conselho pastoral e acompanha, com o marido, o Centro de Preparação para o Matrimónio (CPM). É ainda “Família Comvida”, um serviço nascido a pedido do Papa Francisco para que existam pessoas capazes de “atender famílias com problemas, dar resposta a crentes e a não crentes”, nas mais variadas situações.

Aprender a pedir ajuda e a não fugir dos conflitos

Quando se fala em dificuldades familiares, Anabela não hesita: “Há muita vergonha em pedir ajuda. Esse é o grande problema.” Na sua experiência, o facto de integrar um movimento torna mais fácil dar o passo de procurar apoio, porque os casais percebem que “todas as famílias são vulneráveis”: “Há imensas dificuldades e muitas vezes os casais pensam que essas dificuldades são só deles, não são dos outros. E portanto acham que as coisas não estão bem e têm de romper com o matrimónio. E as pessoas hoje fogem muito dos conflitos, das diferenças, é tudo muito descartável”.

O MLC oferece-lhes um espaço onde essas fragilidades podem ser ditas e escutadas. Anabela recorda um episódio que marcou o início do seu percurso: “Eu lembro-me muito bem no início termos um casal que ele tinha sido alcoólico e ela fez tudo por ele e mesmo assim ele saiu de casa uns anos e depois voltou já tratado e conseguiram reconciliar-se, tendo o marido deixado de beber”.

No dia que o casal contou esta situação, a Anabela estava um pouco zangada com o marido, por um motivo doméstico, e a partilha daquele casal fez-lhe mudar o olhar: “Quando cheguei lá comecei a ouvir estas experiências e pensei: Isto é que é demais. Esta coisinha da pasta de dentes ou escova de dentes ou a cama não estar feita são coisas que não são nada preocupantes. Neste ambiente, os casais descobrem que as dificuldades podem ser ultrapassadas e que o testemunho uns dos outros gera abertura, confiança e crescimento.

Casal – Anabela e Aires | D.R.

Educar com outras famílias ao lado

A participação no MLC marcou também a forma como o casal educou as duas filhas. “Mesmo na educação das filhas, fez toda a diferença”, sublinham. Estavam com outras famílias “mais semelhantes na forma de educar” e isso ajudou-as a compreender que, por vezes, dizer “não” é, precisamente, um ato de amor.

Recordam o episódio da filha mais velha, Sofia, que queria ir a uma discoteca. O padre assistente foi determinante: “Disse-nos: está na altura de deixarem. Ela está bem formada, não vai ser corrompida.”. Acabaram por ceder, acompanhados pelo discernimento do sacerdote: “Acabamos por deixar ir, o pai levava e ia buscar e depois até transportava os outros colegas para casa, e não se importavam nada e ficavam todos contentes a dizer que o pai dela era muito bom. Passados 3, 4 vezes o caso estava resolvido, porque ela não gostou do ambiente”.

A casa da família Freitas tornou-se também um espaço de acolhimento para os amigos das filhas: “Como tínhamos uma casa com condições para receber os amigos, procurávamos que os encontros, as festas, fossem todos muito junto de nós. Embora pudéssemos estar mais desviados, percebíamos o ambiente em que se encontravam, os amigos que eram mais positivos, dos amigos que eram menos positivos”.

Outro ponto importante foi o acompanhamento das leituras: Anabela lembra uma época em que circulavam livros que considerava “talvez um bocado perigosos”. Em vez de proibir, preferiu acompanhar: “Eu nunca fui de pôr proibições porque tudo o que se proíbe é que te faz tentar e então eu pegava nos livros durante a noite, elas estavam a dormir. Como gosto muito de ler e lia rápido, percebia o conteúdo”. Depois, quando era ocasião, puxava o tema. “Via que continuavam a pensar da forma certa. Já ficava mais sossegada”.

Hoje, as duas filhas permanecem ligadas à vida da Igreja: as duas são catequistas, a mais velha é animadora de um grupode jovens; a mais nova acompanha os CPM com o marido, que é acólito. Como avós, vivem a fé com naturalidade junto das netas: “Podemos fazer tudo o que achamos importante porque não temos do outro lado uma visão contrária”.

Um movimento aberto ao mundo

Questionados sobre o lugar do MLC na realidade portuguesa, Anabela reconhece que o caminho não é simples: “Temos menos membros do que gostaríamos de ter, como é óbvio. Estamos numa tentativa de aproximação. Eu penso que durante alguns anos não houve uma abertura clara para conseguirmos trazer mais famílias, e também foram períodos conturbados, em que houve um certo fechamento para a religião, para a Igreja, mas eu penso que com o nosso testemunho vamos conseguindo trazer famílias”.

Se o número de famílias nacionais cresce lentamente, há, porém, uma surpresa que chega de fora: “Neste momento é uma grande aposta, porque famílias de África, especialmente de Angola, estão a procurar o MLC, famílias brasileiras e famílias argentinas, entre outras, e realmente, é uma resposta que o Padre Brás já nos preparou, porque temos casa em Angola e temos casa no Brasil (…) Deus neste momento está-nos a desafiar, porque são pessoas que vêm para o nosso país, que não têm cá família, não têm amigos e que precisam de ser bem acolhidas e integradas para poderem viver e partilhar a sua fé, e o Movimento por um Lar Cristão tem essa resposta para lhes dar e daí estar a acontecer a entrada de famílias novas dessas nacionalidades que são muito bem-vindas.” 

Para estas famílias, o MLC tornou-se espaço de pertença e proximidade, uma resposta concreta ao desafio da mobilidade, das migrações e da solidão urbana.

Presentemente, o Movimento está implantado em várias dioceses portuguesas – Aveiro, Braga, Coimbra, Funchal, Guarda, Lisboa, Portalegre, Castelo Branco e Viseu – e também em Madrid e em Cabinda. A estrutura organizativa é simples: núcleos, equipas diocesanas e Equipa Nacional, com um congresso eleitoral de três em três anos. O casal presidente nacional para o triénio 2025-2028 é precisamente Anabela e Aires Freitas; na equipa executiva conta-se com a presença da cooperadora Maria do Céu Simões.

A vocação das cooperadoras da família: “Famílias apóstolas de outras famílias”

Maria do Céu Simões é membro do Instituto Secular das Cooperadoras da Família há 47 anos. O que a marcou desde jovem foi a alegria das cooperadoras: “Via as cooperadoras muito felizes (…) De vez em quando pensava: eu gostava de ser como elas e dedicar-me às famílias. Falavam muito na santificação dos sacerdotes, porque de facto a missão das cooperadoras é mesmo: a santificação das famílias e a santificação dos sacerdotes. O fundador deixou-nos estas duas vertentes, com muito empenho. Aliás, o coração dele foi dedicado mesmo a estas duas grandes realidades”.

Entrou no Instituto com 19 anos e abraçou a missão da obra do padre Brás, mesmo quando isso significou deixar o curso de economia que tinha projetado, para responder a uma necessidade concreta: “Eu dei a minha vida toda a este Instituto. Se me pedem para fazer o curso de educadora, então vou (…) mas foi de facto uma profissão que eu assumi a vida inteira como vocação, como missão e não como vocação pessoal, esse não era o meu gosto pessoal. Foi aquilo que foi necessário naquele momento para realizar a missão a que Deus me tinha chamado”.

Cooperadora da Família Maria do Céu Simões | D.R.

Hoje, continua a acompanhar o MLC, consciente de que as vocações são menos e é preciso que os casais assumam o Movimento “como deles”: “Fazemos tudo por tudo para que os casais assumam o Movimento por um Lar Cristão, como deles, para poderem incentivar outros e levarem o Movimento para a frente, independentemente de terem ou não cooperadoras da família. Deve ter uma cooperadora a acompanhar, mas se não puderem ter uma cooperadora, os casais e as famílias devem continuar a realizar a sua missão, que é acompanhar outras famílias. Como dizia o fundador: as famílias têm de ser apóstolas de outras famílias, os jovens, apóstolos de outros jovens, cada um na sua realidade deve ajudar os outros que estão também a viver as mesmas preocupações”.

A presença das cooperadoras não se limita a Portugal. “No Brasil, está há mais de 50 anos. Espanha, desde 66, Roma. Cabinda. Já tínhamos estado em Luanda em Angola, entretanto em 74 tiveram que vir. E começamos há 25 anos em Cabinda. E agora temos lá uma escola de mil e tal meninos, dos 4-5 anos, até aos dezassete”. Neste momento, o Instituto está a remodelar a residência das cooperadoras e a preparar um espaço de acolhimento para jovens em discernimento vocacional e para voluntários que queiram ajudar na formação dos jovens.

Em Portugal, há uma equipa nacional dedicada à pastoral vocacional, com retiros e encontros próprios. “Temos uma equipa a nível nacional que se dedica e cuida, de facto, da pastoral juvenil e vocacional. Temos retiros, encontros específicos para isso. Mas se aparecer alguém interessado em estudar a sua vocação, alguém da equipa acompanha essa pessoa, promovendo um caminho de discernimento.”

O Boletim de Apoio às Reuniões 2025-2026: um convite a olhar, pensar e celebrar

O BAR – Boletim de Apoio às Reuniões – orienta o percurso anual dos núcleos. Para 2025-2026, o tema proposto é “Olhar, pensar e celebrar a Família”, organizado em três etapas: olhar a realidade das famílias e do próprio Movimento; pensar desafios e oportunidades; e celebrar a identidade familiar e a pertença ao MLC.

A proposta é clara: transformar os desafios em oportunidades, terminar o ano “em tom de celebração festiva” e, ao mesmo tempo, recolher contributos para a revisão dos Estatutos, aprovados pela Conferência Episcopal Portuguesa em 1994 e hoje em processo de atualização.

Os Estatutos são apresentados como “lei fundamental” do Movimento, mas também como “veículo que transporta na História o carisma” do fundador. Por isso, são suscetíveis de modificações, na medida em que sirvam melhor o “projeto de vida” que o MLC propõe às famílias.

Jornal da Família: um jornal ao serviço da formação cristã

Sob a direção e orientação do Instituto Secular das Cooperadoras da Família, o Jornal da Família é um jornal mensal que visa oferecer formação e informação de inspiração cristã às famílias, nomeadamente às de menores recursos.

Na edição de dezembro de 2025, o editorial lembra que “o Natal não se mede pelo preço dos presentes” e alerta para a tentação de transformar sentimentos em produtos e tradições em consumo. “O perigo reside quando a necessidade de ‘ter’ suplanta a capacidade de ‘sentir’”, pode ler-se. O convite é a “reaprender a abrandar”, a recusar o ruído das montras para escutar “o silêncio do coração” e a redescobrir um Natal feito de tempo partilhado, palavra sincera e gestos simples.

Na mesma edição, um artigo intitulado “Tempo, um dos melhores presentes de Natal!” lembra que “ter tempo e dar um pouco do nosso tempo aos outros” é talvez a maior riqueza que podemos oferecer. Num mundo feito de correrias, o texto propõe reservar quinze ou vinte minutos para “ativar o desafio do ‘dar tempo’ aos outros” e fazer dessa disponibilidade o verdadeiro presente de Natal.

Outra página sugere várias formas de viver o Advento em família: acender a coroa, criar um calendário de boas ações, fazer silêncio, “fazer lugar” para quem precisa, viver com sobriedade e celebrar a espera com pequenos sinais. “Mais do que preparar a casa, o Advento convida a preparar o coração”, lê-se.

Almanaque da Família 2026

O Almanaque da Família 2026 oferece, para cada mês, um calendário com o santo de cada dia, informações práticas de agricultura, receitas, passatempos, poemas e pequenas propostas de atividades para realizar em família. É uma espécie de companheiro de caminho, onde a vida quotidiana – do tempo das sementeiras ao tempo litúrgico – se encontra com a fé e com a tradição popular.

“Experimentem, sem medo experimentem”

No final da conversa, Anabela e Aires deixam um apelo às famílias madeirenses que desejam crescer na fé e na vida conjugal, mas hesitam em dar o primeiro passo: “Experimentem, sem medo experimentem. Podem fazer um retiro, podem ir refletir um BAR – Boletim de Apoio às Reuniões – que tem um tema e um sub-tema. Normalmente tem um tema anual e depois desdobra-se em sub-temas, são sempre muito importantes e atuais porque pega-se em exortações apostólicas, em livros atuais, em temas atuais. Experimentem porque os nossos encontros não é só oração (…) temos momentos de grande alegria, de oração, mas muita partilha, muita festa”.

E sublinham que não se trata de um grupo “perfeito”, fechado em si mesmo: “Experimentem porque eu acho que vão encontrar lá verdadeiros amigos de coração bem aberto para os acolher e depois aqueles medos desfazem-se porque nós não somos um grupo que só esteja a pensar em Deus, em oração todo o tempo. Nós trazemos a realidade das nossas vidas para Deus e Deus para a realidade das nossas vidas, com experiências, com tentativas, com erros, com tudo isso à mistura. Somos casais normalíssimos, famílias normalíssimas, que querem estar com Jesus”.

Retiro de Advento do MLC na paróquia de Santa Maria Maior | D.R.

O MLC na Madeira

Na Madeira, o Movimento é coordenado pelo casal Célia e Alberto Andrade, com a assistência espiritual do padre Manuel Ornelas. As paróquias da Nazaré e de Santa Maria Maior acolhem os encontros mensais, de oração, partilha e formação.

Um movimento “de famílias para famílias”

O Movimento por um Lar Cristão nasceu a partir da intuição do Venerável padre Joaquim Alves Brás, sacerdote da Diocese da Guarda, que, no final dos anos 50, se interrogava sobre as dificuldades concretas das famílias e sobre a sua importância para a vida da sociedade e da Igreja. Da “Cruzada de Amor e Reparação a Bem da Família” nasceu um percurso que, em 1959, na festa da Sagrada Família, em Lisboa, se consolidou com a primeira reunião de casais. A partir dessa data, o fundador convidou as famílias a olhar para o lar de Nazaré como modelo para a vida conjugal e familiar.

Casal Célia e Alberto Andrade | D.R.

Hoje, o MLC define-se como um movimento de espiritualidade conjugal e familiar, onde as famílias se entreajudam moral, material e espiritualmente. Cada núcleo, constituído por cinco a sete famílias, reúne mensalmente para convívio, partilha de vida, estudo e oração. O caminho é sustentado pelo BAR – Boletim de Apoio às Reuniões – que, para 2025-2026, propõe o tema geral «Olhar, pensar e celebrar a Família», aprofundado em seis encontros.

Num tempo em que tantas famílias se sentem cansadas, solitárias ou desorientadas, o Movimento por um Lar Cristão volta a lembrar a intuição do padre Brás: “A família é a célula fundamental da sociedade e esta será o que forem as famílias”.