Fé ou magia pop

D.R.

Recordo-me bem de quando surgiram os livros e os filmes do Harry Potter. Nas salas de catequese, esse universo aparecia espontaneamente: discutiam-se feitiços, magia e forças ocultas. Hoje, esse imaginário reaparece noutros espaços. Um dos mais curiosos é o do cinema, ou melhor, do streaming televisivo, com produções como “Guerreiras K-pop” (Huntr/x), onde um grupo de raparigas, estrelas pop, se revela como caçadoras de demónios, num mundo carregado de símbolos, música, poderes e luta contra as trevas.

Estas narrativas mostram que, mesmo numa cultura profundamente tecnológica, o ser humano continua a desejar histórias que devolvam mistério ao quotidiano. Em “Guerreiras K-pop”, as protagonistas oscilam entre a fragilidade humana e a força sobrenatural, combatem entidades malignas e movem-se numa fronteira constante entre o visível e o invisível. Não deixa de ser revelador que muitos se identifiquem mais com estas “guerreiras” do que com os heróis tradicionais do passado.

A presença crescente deste tipo de narrativas nas plataformas digitais confirma aquilo que o teólogo João Duque tem observado: a nossa cultura está a recuperar “um fascínio por um ambiente mágico”. Esse fascínio é evidente nos videojogos, nos universos de fantasia e agora também em filmes onde a música, a dança e a estética juvenil se entrelaçam com a luta espiritual contra forças ocultas. Estes produtos culturais oferecem precisamente aquilo que muitos sentem faltar na realidade: profundidade simbólica, mistério e a perceção de que a vida é parte de algo maior, uma espécie de saudade de encantamento.

À luz da fé cristã, estas expressões culturais constituem simultaneamente uma oportunidade e um desafio. Uma oportunidade, porque mostram que o coração humano mantém viva a sede de transcendência. Um desafio, porque exigem da pastoral da Igreja uma atenção redobrada à formação das crianças. É necessário explicar que, ao contrário da magia, a fé não consiste em técnicas de domínio de uma força, mas numa relação com Deus vivo, que transforma a vida pela graça do Espírito Santo.

Cabe à Igreja, sobretudo à catequese e à pastoral juvenil, escutar e iluminar este desejo de mistério, apresentando a pessoa de Jesus Cristo, que não promete superpoderes, mas sim um sentido para a vida.